|
Os Tupiniquim reconheciam como ocupações
mais de vinte localidades, entre aldeias constituídas
por algumas casas vizinhas, lugares com poucas casas esparsas
- a grande maioria - e locais onde havia se instalado
apenas uma família. Foram identificadas pelos índios
as localidades de Caieiras Velhas, Irajá, Pau-Brasil,
Comboios - entre ocupações atuais -, e Amarelo,
Olho d'Água, Guaxindiba, Porto da Lancha, Cantagalo,
Araribá, Braço Morto, Areal, Sauê
(ou Tombador), sertão e litoral do Gimuhúna,
Piranema, Potiri, Sahy Pequeno, Batinga, Santa Joana e
Córrego do Morcego - extintas.
A região em que viviam os Tupiniquim
era de mata virgem antes da exploração
madeireira, e a comunicação entre as localidades
se fazia por trilhas no meio da floresta. Entretanto,
em sua maior parte, as famílias indígenas
eram encontradas dispersas pela mata, plantando nos
trechos de capoeira, com a eventual agregação
de parentes e afins. A forma como as famílias
ocupavam o espaço e as trocas comerciais tornavam
duas localidades quase que uma área só,
pois a distância entre os núcleos reduzia-se,
fortalecendo os laços comunitários que
se manifestavam nos rituais religiosos, ou na realização
de algumas formas de cooperação econômica
(mutirão, adjutório). Eram famílias
voltadas para a produção direta, formando
uma unidade social. O conhecimento e domínio
de um território funcionava como fator de identificação
e troca, com a base física comum, inalienável,
dando sentido à relação entre os
grupos domésticos.
As aldeias tinham a disposição
de ruas, e em Caieiras Velhas havia um pátio
largo, onde uma pequena capela secular fechava a área.
As casas eram de pau-a-pique e sapê, cercadas
pelo mato ou capoeira, utilizados na medida da necessidade.
Com freqüência os Tupiniquim mudavam de casa
e roçado, seja pela realização
de um casamento ou em busca de melhores condições
de sobrevivência.
As casas e os roçados podiam
ser feitos em qualquer lugar, só não podiam
medir, dizer aquilo é meu. Havia regras de acesso
à terra - não se permitia cercá-la
ou detê-la exclusivamente. Todavia, com os casamentos
preferenciais entre moradores de localidades vizinhas,
e as sucessões, os grupos domésticos acabavam
identificados aos roçados, como acontecia nas
aldeias de Cantagalo e Araribá.
Havia uma posse comunal da terra nessas
aldeias, pois os cultivos em extensões podiam
ser utilizados à vontade por cada grupo familiar.
Existiam também os domínios de caráter
comunal - matas, rios, fontes - que possibilitavam a
reprodução das famílias Tupiniquim.
Em suma, o sistema de posse comunal de terras e outros
domínios, aliado à apropriação
doméstica e individual do produto do trabalho,
permitia a sobrevivência dos Tupiniquim.
Na economia doméstica das localidades
próximas ao rio Piraquê-Açu, a pesca
e a coleta nos manguezais tinham um papel relevante.
Pescavam de linha ou usavam inúmeras armadilhas
produzidas artesanalmente, como o quitambu (cercado
de espinho) e o jequiá (cesto de varas flexíveis,
afunilado). Pegavam também caranguejos, mariscos
e muitas ostras. Da casca da ostra mantinham um secular
processo de fabricação de cal, comercializada
em Santa Cruz junto com mariscos, farinha, lenha e artesanato
constituído por colheres de pau, gamelas, esteiras,
remos e peneiras, além de cestos, samburás
e balaios, produzidos com o cipó imbé.
Independente do comércio em
Santa Cruz, tinham um sistema de produção
econômica em que um caçava, outro pescava,
e outro ainda fazia farinha, trocando os produtos entre
si, numa divisão de trabalho informal. Era o
sistema de índio, noção que os
Tupiniquim utilizam para divulgar e normatizar as práticas
indígenas.
|