 |
::01 |
 |
Como princípio básico, a cosmologia
tukano combina perspectiva móvel, replicação
da organização social em diferentes escalas
da existência - corpo, communidade, casa e cosmos,
e organização análoga entre níveis
diferentes da experiência. O universo é
feito de três camadas básicas: céu,
terra e "mundo inferior". Cada camada é
um mundo em si, com seus seres específicos e
podendo ser entendidos tanto em termos abstratos como
concretos. Em contextos diferentes, o "céu"
pode ser o mundo do sol, da lua e das estrelas, ou o
mundo dos pássaros que voam alto, ou os topos
achatados dos tepuis (topos achatados das montanhas)
dos quais descem as águas ou o mundo dos topos
das árvores da floresta, ou mesmo uma cabeça
enfeitada com um cocar de penas vermelhas e amarelas
de arara, que são as cores do sol. Do mesmo modo,
o "mundo inferior" pode ser o Rio dos Mortos
debaixo da terra, o barro amarelo debaixo da camada
do solo onde enterram-se os mortos, ou o mundo aquático
dos rios subterrâneos.
De toda forma, o que define o "céu"
ou o "mundo inferior" depende não somente
da escala e do contexto, mas também da perspectiva:
à noite o sol, o céu e o dia ficam debaixo
da terra e o escuro mundo inferior fica acima. Há
uma história sobre um homem que encontra o cadáver
de uma mulher-estrela que caiu na terra quando fora
enterrada por sua família no céu: para
seus parentes ela está morta no mundo inferior;
para o homem, ela está viva na terra. O homem
casa com a mulher-estrela e vai com ela visitar sua
família no céu. Para o homem, as estrelas
são os espíritos dos mortos que vivem
à noite; para as estrelas, ele que é um
espírito, e o dia para ele corresponde à
noite para elas.
Os diferentes grupos tukano também participam
desse esquema. Assim, por exemplo, os Bará são
Povo de Peixe (ou da Água), os Barasana são
Povo da Terra e os Tatuyo estão na categoria
de Povo do Céu. Cada um desses grupos tem um
ancestral-Anaconda, mas anacondas na água são
outra versão de jaguares na terra ou de harpias
no céu (harpy-eagles?) - em um mundo transformacional
e perspectivista, os maiores predadores do céu,
da terra e da água são equivalentes e
complementares. Assim como pessoas que estão
na mesma "camada" são do mesmo tipo
(from the same level are of the same kind) e não
podem casar entre si, os casamentos entre diferentes
grupos exogâmicos possuem dimensões cósmicas.
Os Barasana, por exemplo, tendem a casar-se com os Bará,
e estes também costumam casar-se com os Tatuyo.
É possível vislumbrar esse sistema em
um mito barasana que tematiza sua origem. Yeba,
ou "Terra", o ancestral Barasana em forma
de jaguar, casa-se com Yawira, uma mulher -peixe
guaracu, filha da Anaconda Peixe, o ancestral dos Bará.
Yawira então abandona seu marido Yeba
e foge com Yuka, o urubu-rei que é uma
manifestação do ancestral Tatuyo, que
é também a Anaconda do Céu e Jaguar
(Eagle-Jaguar). Outros grupos tukano têm diferentes
versões para esse mito, nas quais os nomes dos
personagens podem mudar, mas a lógica é
a mesma.
Em termos simbólicos, a maloca é
o universo e o universo é uma maloca. O teto
de palha é o céu, os esteios de suporte
são as montanhas, as paredes são as cadeias
de serras que parecem cercar a paisagem visível
na beira do mundo, e sob o chão corre o Rio dos
Mortos. A maloca tem duas portas: uma no leste que é
a dos homens, ou a "porta da água";
outra das mulheres a oeste, com uma longa cumeeira que
corre ao longo do teto da casa entre as duas portas,
que é "o caminho do Sol". Nessa região
equatorial, os rios subterrâneos correm do oeste
para o leste, ou da porta das mulheres para a porta
dos homens; completando um circuito fechado da água,
o Rio dos Mortos corre do leste para o oeste.
A maloca tanto é o universo, como também
é um corpo, ao mesmo tempo o "corpo canoa"
do ancestral-Anaconda e os corpos de seus filhos nele
contidos. Esses filhos são os habitantes da casa,
réplicas do ancestral original, receptáculos
de futuras gerações e, eles mesmos, futuros
ancestrais. Mas, se a maloca é um corpo humano,
sua feição também é uma
questão de perspectiva. Do ponto de vista masculino,
a frente pintada da maloca é um rosto de homem,
a "porta dos homens" é sua boca, a
viga mestra e as laterais são a sua coluna e
costelas, o centro da casa é seu coração,
e a porta das mulheres o seu ânus. Do ponto de
vista das mulheres, a coluna, as costelas e o coração
permanecem os mesmos, mas o resto do corpo é
invertido: a porta das mulheres é a sua boca,
a porta dos homens a sua vagina e o interior da casa
o seu ventre.
De tais princípios de replicação
e transformação dão-se uma série
desdobramentos. Se os rios correm através da
casa-universo e o corpo é uma espécie
de casa, segue-se que as tripas e os genitais humanos
são "rios"; e, ainda, que os vermes
parasitas são "anacondas". Há
uma história divertida que descreve o universo
do ponto de vista de um verme: quando o seu hospedeiro
humano bebe caxiri (cerveja de mandioca), a chuva fica
grossa e pegajosa; quando ele ingere farinha, chove
pedras; e quando ele come beiju, chove grandes rochas.
Essa narrativa ilustra um ponto importante: por vezes
os mitos explicitam a cosmologia, mas com mais freqüência
a cosmologia simplesmente está subentendida ou
implícita e as pessoas devem pô-las em
prática por conta própria. Especialistas
religiosos são aqueles que possuem maior habilidade
para "ler" o que está por trás
das narrativas sagradas.
|