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Entre os Tukano, a religião não
é concebida como um domínio discreto,
mas sim como uma dimensão de todo conhecimento,
experiência e prática. Isso também
se explica porque a vida numa paisagem impregnada de
poderes ancestrais e onde a vida cotidiana tem uma dimensão
extraordinária e metafísica é potencialmente
perigosa. Para sobreviver e prosperar, bem como assegurar
o bem-estar de si e de sua família, todos os
adultos precisam de alguma habilidade para manejar e
controlar as forças de criação
e destruição que os cercam. Os conhecimentos
técnicos e metafísicos não possuem
fronteiras precisas. Os homens adultos devem conhecer
tanto os recursos naturais do território quanto
suas propriedades espirituais, combinando afazeres rotineiros
com procedimentos rituais, com competência tanto
para caçar e pescar quanto para fazer encantações
para que a carne e o peixe possam ser comidos com segurança.
De modo semelhante, as mulheres, "mães da
alimentação" cujos tubérculos
de mandioca são "filhos", devem controlar
a esfera material e espiritual de produção
e reprodução de suas roças, cozinhas
e corpos, como uma totalidade integrada.
Na Amazônia, freqüentemente se referem
aos especialistas rituais com poderes especiais e acesso
a conhecimentos esotéricos como "xamãs",
rótulo que pode tanto confundir como revelar.
Como indicado, para agir com êxito todos os homens
adultos devem ser em alguma medida xamãs. Aqueles
que são reconhecidos publicamente como tal têm
maior conhecimento ritual e uma habilidade especial
para "ler" o que está por trás
das narrativas sagradas, optando por desenvolver habilidades
e conhecimento em favor dos outros, sendo reconhecidos
como especialistas. Assim, os "xamãs"
são aqueles que se destacam dos demais - mas
sempre há outros esperando nos bastidores.
Um segundo aspecto está relacionado ao
gênero. Com raras exceções, os especialistas
rituais são homens - mas a capacidade das mulheres
de menstruar e gerar filhos é considerada como
o equivalente feminino ao poder dos homens sobre os
ornamentos de penas e os Yurupari. Assim, é
possível dizer que se os homens adquiram as suas
habilidades xamânicas através da cultura,
as mulheres já são "xamãs"
por natureza. Não é de se admirar então
que, na mitologia tukano, o Povo do Universo, os heróis
ancestrais que abrem o caminho para a criação
da humanidade, sejam gerados por uma divindade feminina
que os Barasana chamam de Romi Kumu ou "Mulher
Xamã"; conhecida como "A Velha da Terra"
(Ye'pa Büküo, Yeba Büro)
em Tukano e Desana.
Finalmente, o rótulo "xamã"
nubla uma distinção importante entre dois
especialistas rituais, os yai e os kumu.
Os yai correspondem ao xamã típico
da Amazônia ou o pajé. Suas principais
tarefas envolvem lidar com as pessoas e o mundo dos
animais e da floresta. Ele desempenha um papel importante
na caça por soltar os espíritos dos animais
das suas casas nas serras, atividade potencialmente
perigosa, que pode demandar compensações
no mundo humano como a conversão da vida em morte.
O pajé é um especialista na cura de moléstias
causadas pela feitiçaria de criaturas vingativas
e seres humanos ciumentos, doenças que tipicamente
se manifestam como espinhos, cabelo, e outros objetos
alojados no corpo. A cura se dá jogando água
sobre o corpo do paciente ou soprando-lhe fumaça
de tabaco e depois manipulando-o com as mãos,
mas sempre envolvendo a sucção de objetos
ou substâncias do corpo do paciente.
Yai significa "jaguar", termo
que dá alguma indicação do status
do pajé na sociedade tukano. O Jaguar é
um animal poderoso e potencialmente perigoso, assim
como aqueles que têm poder e conhecimento para
agir contra a feitiçaria podem também
praticá-la. Um pajé é considerado
"bom" ou "mal" dependendo se ele
é um parente ou vizinho de confiança.
O termo yai também tem conotação
de selvageria e descontrole, que alude à posição
marginal de muitos pajés e ao caráter
individual e idiossincrático de seus poderes,
freqüentemente associados ao uso de alucinógenos.
Embora tanto o yai como o kumu
sejam especialistas, o kumu é mais um
sábio e sacerdote do que propriamente um xamã.
Seus poderes e autoridade são baseados no conhecimento
exaustivo da mitologia e dos procedimentos rituais,
resultado de anos de treinamento e prática. Conseqüentemente,
aqueles que são reconhecidos como kumu
geralmente são homens mais velhos, cujos pais
ou tios paternos muitas vezes tinham o mesmo status.
Como homem experiente e sábio, o kumu
comumente é também um líder político
de sua comunidade e com autoridade considerável
sobre uma área mais ampla. Comparados ao yai,
figura por vezes moralmente ambígua, o kumu
goza de um status mais alto e um maior grau de confiança,
fundamentada em seu papel ritual proeminente.
O kumu desempenha um papel importante
na prevenção de doenças e infortúnio.
Ele é um especialista na arte de soprar encantações
sobre a carne de peixe e animais para converter a sua
substância em uma forma similar ao vegetal. Tem
papel proeminente nos ritos de passagem, realiza as
principais cerimônias por ocasião do nascimento,
iniciação e morte, transições
que asseguram a socialização do indivíduo
e a passagem das gerações, assim como
ordena as relações entre os ancestrais
e seus descendentes vivos. É o kumu que
nomeia os bebês recém-nascidos e é
ele que conduz os ritos de iniciação,
públicos e coletivos, para os jovens e os ritos
mais individuais e privados realizados quando moças
atingem a idade de puberdade. Tais transições
envolvem um contato necessário e potencialmente
benéfico entre os vivos, os espíritos
e os mortos. Esse contato pode ser perigoso e é
o kumu que assume a responsabilidade de proteger
as pessoas. Para aqueles que gozaram da proteção
de um kumu durante o seu nascimento ou iniciação,
ele é seu guu ou "tartaruga",
em alusão à carapaça dura e protetora
desse animal.
A outra importante função do kumu
é presidir as festas de dança, as festas
de caxiri e intercâmbios cerimoniais, e de conduzir
e supervisionar os rituais em que se tocam os instrumentos
de Yurupari, rituais que envolvem um contato
direto com os ancestrais mortos. Aqueles que participam
desses rituais colocam as suas vidas nas mãos
do kumu e é somente os mais sabidos e
respeitados que são encarregados desse papel.
Do mesmo modo, patrocinar tais rituais significa reivindicar
reconhecimento como kumu.
Como "gente" e parte integrante de
um cosmo vivo, os seres humanos, os animais, as plantas
e os peixes participam de um mesmo sistema, que é
engajado e revitalizado durante os rituais de Yurupari.
Esses rituais fomentam a reprodução das
plantas e dos animais, asseguram o ordenamento normal
das estações e a fertilidade contínua
da natureza. Ao supervisionar e promover esses rituais,
os kumus mais importantes chegam a incorporar
os poderes e identidades de Yeba Hakü, o
"Pai do Universo", de Romi Kumu, "Kumu
Mulher" e de Yurupari, fonte e espírito
da vida vegetal. Como mestres do ritual, eles mesmos
se tornam criadores.
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