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O ciclo anual é pontuado por uma série
de festas coletivas, cada uma com seus cantos, danças
e instrumentos musicais apropriados, que marcam eventos
importantes do mundo humano e natural - nascimentos,
iniciações, casamentos e mortes, a derrubada
e o plantio de roças e a construção
de casas, as migrações dos peixes e pássaros,
e a disponibilidade de frutas silvestres e outros alimentos
colhidos. Essas assembléias rituais são
denominadas "casas", termo que significa ao
mesmo tempo um evento ritual, um grupo de pessoas e
um mundo simbólico.
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As festas assumem três formas básicas:
caxiris (festas de cerveja), dabukuris ou intercâmbio
cerimonial, e os ritos de Yurupari envolvendo flautas
e trombetes sagrados. Os caxiris são fundamentalmente
ocasiões sociais quando uma comunidade convida
os seus vizinhos a dançar e beber caxiri, às
vezes como um agradecimento pela sua ajuda na abertura
de uma roça ou na construção de
uma casa nova, às vezes para marcar a nomeação
de uma criança, o casamento de uma mulher, ou
a etapa final de iniciação dos meninos,
e às vezes somente por divertimento e reforço
dos laços sociais. Os convidados são os
principais dançarinos, e em troca de suas danças,
os anfitriões lhes oferecem grandes quantidades
de caxiri preparado pelas suas mulheres.
Com cocares de penas e outros ornamentos, os
dançarinos dançam a noite inteira em volta
do recipiente (cuja forma é semelhante a uma
canoa) de caxiri, que constitui o foco central da celebração;
é uma questão de honra que todo o caxiri
seja consumido antes dos visitantes partirem pela manhã.
Há dois tipos de danças, ou relativamente
lentas, no caso de danças formais em que os homens
se dispõem em uma linha entrecruzada por mulheres,
ou danças mais rápidas e menos formais
em que cada dançarino dança sozinho, tocando
um conjunto de flautas de pã como parte de um
coro, e competindo com os outros para atrair a parceira
de sua escolha. Entre essas sessões de dança,
os anfitriões e convidados se sentam frente a
frente e trocam presentes como coca e charutos, enquanto
recitam as suas genealogias em cânticos coletivos
conduzidos por um especialista. O kumu se senta
à parte, soprando encantações sobre
cuias de coca, tabaco e ayahuasca; então as oferece
aos participantes para protegê-los e permitir
aos dançarinos que vejam e experimentem em suas
danças as viagens dos primeiros ancestrais e
os eventos míticos que os seus cantos e cântico
relatam.
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Os caxiris podem envolver comunidades de irmãos
e cunhados, já os dabukuris são, sobretudo,
ocasiões que celebram e reforçam os laços
de matrimônio e afinidade. As dádivas são
dadas em nome de um homem para seu cunhado ou sogro:
no mito barasana da origem do dabukuri, cujos personagens
são Yeba Yamira (ver item "Aspectos
cosmológicos"), a dádiva era
do Yeba para seu sogro Anaconda Peixe. O ritual
começa com a chegada dos convidados ao anoitecer.
Tratados como estranhos e inimigos potenciais pelos
seus anfitriões, eles não entram na maloca,
dançando e cantando por iniciativa própria
do lado de fora. De manhã, eles desfilam dentro
da maloca vestidos com elegância e soprando trombetes
de cerâmica ou embaúba. Apresentam suas
dádivas aos seus anfitriões e então
iniciam uma dança que continuará o dia
inteiro e a noite também. Os anfitriões
se mantém distantes, continuam lhes servindo
caxiri, mas enquanto o dia vai se passando, eles se
misturam cada vez mais com os convidados, dançando
e cantando junto com eles, quebrando assim as barreiras
que foram estabelecidas, de forma dramática,
no começo do ritual. Pela manhã, quando
a dança termina, convidados e anfitriões
comem em uma enorme refeição comunal,
como se fossem uma comunidade única e integrada.
Esses intercâmbios têm uma dupla
lógica e movimento: a curto prazo, os convidados
dançam e oferecem peixe ou carne em troca do
caxiri fornecido pelos anfitriões; a longo prazo,
as comunidades trocam um tipo de produto por outro -
peixe por carne ou carne por peixe - e alternam os papéis
de anfitrião e convidado. Ambos os casos estão
relacionados a matrimônio, o primeiro refletindo
a troca de carne ou peixe por produtos de mandioca (o
beiju e o caxiri) entre marido e mulher; o segundo refletindo
a troca de diferentes tipos de mulheres entre os grupos
ligados por inter-casamentos. Em termos cosmológicos,
essas trocas estão intimamente ligadas aos ciclos
de procriação e à disponibilidade
sazonal de espécies de peixes e animais. As danças
remetem não apenas às dramatizações
e movimentos relativos a peixes e pássaros migrantes,
como garantem a fertilidade continuada da natureza e
a disponibilidade de espécies das quais dependem.
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Os rituais envolvendo os instrumentos musicais
sagrados de Yurupari são a expressão mais
plena da vida religiosa dos índios, pois englobam
e sintetizam vários temas-chave: ancestralidade,
descendência e identidade grupal, sexo e reprodução,
relações entre homens e mulheres, crescimento
e amadurecimento, morte, regeneração e
integração do ciclo de vida humano com
o tempo cósmico. Em relação de
complementariedade com os dabukuris, esses rituais são
concernentes à identidade masculina e às
relações intra-grupais em oposição
ao casamento e às relações inter-grupais;
do mesmo modo, dizem respeito à fertilidade das
árvores e plantas em oposição aos
ciclos de vida dos animais.
As flautas e os trombetes de tronco de palmeira
pertencentes a cada grupo são uma entidade ao
mesmo tempo única e múltipla: o ancestral
do grupo e seus ossos aos pares, que são também
seus filhos; e os ancestrais dos clãs componentes
do grupo. Quando os instrumentos estão juntos
e são tocados, o ancestral volta à vida,
de modo que aqueles que os tocam assumem as identidades
dos ancestrais clânicos e entram em contato direto
com seus respectivos pais (originários). Esse
processo anula a separação vigente entre
passado e presente, mortos e vivos, ancestrais e descendentes,
restabelecendo a ordem primordial dos mitos de origem.
Os ritos normalmente envolvem um clã ou o segmento
de um clã, que age como um grupo isolado e assim
pode estabelecer a sua identidade enquanto unidade coletiva
indiferenciada em contraposição ao mundo
de fora, mas segmentada internamente por uma hierarquia
ordenada.
Os instrumentos Yurupari somente podem
ser vistos e manuseados pelos homens adultos. De acordo
com os mitos, originalmente eram as mulheres quem possuíram
as flautas enquanto os homens se encarregavam do processamento
da mandioca e outras tarefas femininas. Os mitos acrescentam
outro detalhe importante: quando as mulheres tinham
a posse das flautas, os homens menstruavam e, quando
tiraram as flautas delas, fizeram com que as mulheres
menstruassem. Esses mitos, e os rituais que os dramatizam,
podem ser entendidos como um discurso complexo e ambíguo
sobre os respectivos poderes e capacidades de homens
e mulheres, tal como aquele que se refere aos poderes
xamânicos femininos, já mencionados. Isso
implica que os órgãos reprodutivos e as
capacidades reprodutivas complementares de homens e
mulheres, isto é: as suas "flautas",
são simultaneamente idênticas e opostas,
iguais e desiguais, invertidas e equivalentes.
Há dois tipos de ritual de Yurupari,
um evento anual mais sacralizado e elaborado que marca
o começo do ano, e o outro realizado periodicamente
durante o ano para marcar a maturação
de diferentes espécies de frutos de árvores.
No segundo, os homens de uma comunidade presenteiam
os de uma outra - geralmente os seus irmãos -
com grandes quantidades de frutos silvestres, trazendo-os
para o interior da casa acompanhados dos sons berrantes
dos trombetes enquanto as mulheres e crianças
permanecem atrás de telas nos fundos. Ao anoitecer,
as telas são removidas e as mulheres voltam a
se juntar aos homens. Eles dançam a noite inteira
até amanhecer e então distribuem os frutos
entre os presentes.
Os mais grandiosos ritos de Yurupari, quando
instrumentos diferentes e mais sacralizados são
tocados, estão vinculados aos movimentos do sol
e da constelação de Plêiades, realizando-se
no final do verão e começo da estação
chuvosa, que é a época em que abundam
os frutos do mato. Eles elaboram ainda mais os temas
de crescimento, maturação e periodicidade,
bem como a integração entre os ciclos
temporais humanos e cósmicos, mas aqui o enfoque
imediato está no crescimento e amadurecimento
de jovens que passam por um processo de iniciação
que os conduz a sua integração como adultos
no grupo.
No começo do ritual, os meninos são
apartados de suas mães e trazidos para a extremidade
masculina da casa, longe da vista das suas mães,
que são confinadas na parte traseira. Sob o cuidado
de guardiões rituais e um kumu oficiante,
recebem ayahuasca para beber e são-lhes mostrados
os instrumentos Yurupari pela primeira vez, enquanto
eles ficam sentados imóveis e agachados como
fetos no chão. À medida que os instrumentos
são tocados sobre as suas cabeças, corpos
e genitais, os rapazes são chicoteados pelos
kumu nos seus corpos e pernas, ações
que transmitem a vitalidade e as forças espirituais
dos ancestrais e fazem com que os meninos cresçam
resistentes, fortes e viris. Os homens dão então
um banho nos meninos junto com os instrumentos no rio,
despejando água das flautas sobre as cabeças
dos iniciados. Essa ação alude ao ancestral
Anaconda vomitando as primeiras pessoas da sua boca
- e também ao primeiro banho dos bebês
depois de nascer, como descrito anteriormente. Mas dessa
vez o nascimento é um renascimento orquestrado
pelos homens mais velhos e, como o ancestral Anaconda
que entrou no mundo através da "porta da
água" no Leste, os iniciandos renascidos
agora entram na casa pela porta dos homens. No final
do ritual, os iniciandos permanecem em reclusão
por um mês em um compartimento especial longe
da vista das mulheres. Rigidamente supervisionados pelo
kumu, eles tomam banho todos os dias, observam
uma dieta rigorosa e aprendem a fazer cestos. A reclusão
termina com uma grande dança. Como sinal de que
estão prontos para se tornarem maridos e pais,
os iniciandos presenteiam com os seus cestos as suas
parceiras femininas, que pintam os corpos deles com
tinta vermelha em retribuição.
Como muitos ritos de iniciação,
este é repleto de símbolos de morte, renascimento
e regeneração. No começo do ritual,
os meninos são pintados de preto e ritualmente
"mortos" com doses de rapé de tabaco;
após seu renascimento no rio, são mantidos
em reclusão como bebês recém-nascidos,
então emergem para serem pintados de vermelho.
No mito associado ao ritual, Yurupari, na forma
de anaconda, engole os iniciandos, os digere dentro
de sua barriga (cujo equivalente no ritual é
o período de reclusão), então os
devolve a seus pais, vomitando-os como ossos. Para puni-lo,
os pais incendeiam Yurupari para que ele morra.
Mas ele não morre: sua alma sobe ao céu
e de suas cinzas nasce uma palmeira, protótipo
das frutas da floresta e matéria-prima dos instrumentos
Yurupari.
Como na agricultura de coivara, na qual a fertilidade
e a vida humana vêm da queima anual da floresta,
esse conjunto de mito e ritual significa que vida e
morte se sucedem como as estações, que
os humanos mortais alcançam a imortalidade através
de seus filhos, que a periodicidade das mulheres é
como a das estações, que o crescimento
dos homens e das árvores resultam de um único
processo, e que, no final das contas, a fertilidade
dos seres humanos e do cosmos estão interligadas
em um grande sistema. Ao expandir a maloca a proporções
cósmicas, ao abolir as separações
entre os seres humanos e o mundo dos espíritos,
e ao articular as capacidades reprodutivas de homens
e mulheres, os rituais de Yurupari englobam e
colocam em movimento boa parte da cosmologia acima esboçada.
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