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Segundo
o povo kinja (autodenominação Waimiri
Atroari), antigamente todos os seres mitológicos
e animais que habitavam a Terra eram gente e viviam
no meio de kinja. Um dia "choveu" muita
pedra e todos pensaram que o mundo iria acabar,
no entanto havia uma casa cujo esteio central
era de piria (pau d'arco), madeira muito dura
que agüentou as pancadas das pedras.
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Nessa maloca moravam várias
famílias e a partir delas surgiram os ascendentes
dos atuais Waimiri Atroari.
Sua gênese é portanto
assinalada pelo marco antes e depois da "chuva"
de pedras. Atualmente dizem que são descendentes
(segunda geração) desse povo que sobreviveu
protegido pelo piria dentro da maloca.
Os antigos Waimiri Atroari são
chamados de tahkome (masculino) e nysakome (feminino).
Tahkome é um termo que também pode se
referir a um passado muito distante (ao tempo que existiam
os tahkome), onde todos conviviam em igualdade de condições,
eram todos humanos, apesar de alguns terem poderes sobrenaturais.
Nesse tempo passado não havia
os animais e as pessoas viviam das frutas e tubérculos
existentes na natureza. Mawa, que também era
gente, vivia na terra e fornecia à kinja todas
a provisões necessárias. Foi Mawa um dos
responsáveis por transformar gente (que transgredia
regras) em animais e por alguns produtos cultivados
em seus roçados.
Um dia, cansado da convivência
na Terra e para impedir o céu de cair, Mawa pediu
ao jaboti para flechar o céu para que se formasse
uma escada e assim se tivesse acesso a esse lugar. Através
da corda de sucessivas flechas, que ligou a terra ao céu,
Mawa conseguiu chegar ao espaço superior, estabelecendo
nesse local sua moradia. Algumas pessoas tentaram subir
também, no entanto Mawa cortou a corda e derrubou
todos. Os que ficaram pendurados nas árvores transformaram-se
nas diversas espécies de macacos. Mawa é
o regulador das forças da natureza, por isso está
presente em várias narrativas sobre o dia e a noite,
o surgimento do trovão e o dilúvio.
Na terra vive kinja, que escolhe lugares
onde edifica sua moradia. Ao redor de sua casa planta
o roçado e, após o roçado, existe
a floresta. A floresta é o espaço da caça,
no entanto é um lugar perigoso para os Waimiri
Atroari, sendo evitado por crianças e mulheres
desacompanhadas. É onde moram os Irikwa (mortos-vivos),
os Iamai (entidade parecida com um morcego) e os Ianana.
Todos seres terríveis que se alimentam do sangue
e da carne de kinja. Irikwa e Iamai não podem
ser vistos pelos humanos. Caso aconteça, a pessoa
virá a perecer, sentindo suas energias vitais
se esvaindo lentamente.
Ianana mora no tronco de angelim.
Matava e comia kinja. Um dia kinja descobre sua moradia
e a incendeia. Seu filho sobrevive, é levado
para a aldeia e criado como um kinja. Ele tinha muita
sorte na caça causando grande curiosidade em
todos. Contava como caçava, mas muitos não
acreditavam. Andando pela floresta, desacreditado, encontra
com sua avó, que lhe conta toda sua história,
fazendo com que ele retorne para a floresta.
No mundo aquático encontram-se
os peixes, outra fonte de proteína importante
para os Waimiri Atroari. Nesse domínio vivem
os xiriminja, entidades semi-humanas que habitam o fundo
dos rios e lagos. Xiriminja ofereceu suas filhas em
casamento aos kinja. Nessa época os homens não
tinham pênis, foi a filha do xiriminja quem ofereceu
esse órgão aos kinja. O estreitamento
das relações entre esses dois povos trouxe
como benefício o enriquecimento da cultura material
e imaterial dos Waimiri Atroari. Xiriminja ensinou a
cestaria (com seus vários desenhos), alguns cantos
e danças do maryba de iniciação
masculina e a plantar as mudas de diversas plantas comestíveis
que ofertou.
Apesar de ocuparem espaços
distintos, os seres mitológicos e humanos mantêm
estreita relação entre si. Os domínios
se interpenetram, constituindo o Todo do universo waimiri
atroari.
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