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O CONTATO   
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O CONTATO
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A história do contato dos Waimiri Atroari com as sociedades não indígenas na região onde habitavam e habitam remete ao século XVII, com a expansão mercantilista e extrativista das coroas portuguesas e espanholas interessadas em delimitar seus espaços geopolíticos. Porém a história oficial do contato dos Waimiri Atroari inicia-se no final do século XVIIII (1884), com João Barbosa Rodrigues, que se intitula

o primeiro pacificador desse povo.

Barbosa Rodrigues percorreu diversas vilas próximas do território indígena com intenção de arregimentar guias, coletar registros e relatos sobre aquele povo. Ele os denominou Crichanás, justificando de essa era a etnia encontrada no período de suas expedições e que os "terríveis e traiçoeiros" indígenas que ali habitavam não mais existiam. Essa nova denominação era justificada pelo fato de que o pacificador queria construir uma nova imagem dos indígenas daquela região. Isso facilitaria a sua missão e, assim, poderia manter um contato mais amistoso entre os índios e não índios, que na época travavam relações de extrema hostilidade.

No início do século XX (1911), Alípio Bandeira, representante do Serviço de Proteção ao Índio (SPI, , extinto em dezembro de 1967) percorreu a região onde se localiza o rio Jauaperi, quando ocorreram novos contatos amistosos com esses indígenas, agora denominados de Uaimirys. Alípio Bandeira encontra, guardadas as devidas proporções e momento histórico, a mesma situação de hostilidade entre indígenas e não indígenas. Em 1912 instalou o primeiro posto de atração aos índios no rio Jauaperi. A partir dessa data, o SPI passa a coordenar os trabalhos e a política indigenista na região. Isso teoricamente, pois esse órgão governamental pouca autonomia teve para impor as políticas indigenistas vigentes nessa época.

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Os Waimiri Atroari viam seu território ser invadido por exploradores de recursos naturais (peles de animais, castanha, balata, pau rosa, entre outros) e, contra esses invasores, armavam-se de arco e flecha. A fama de valentia desse povo chegava até a capital da província do Amazonas e expedições militares eram organizadas para tentar retaliar toda a comunidade indígena. Nessa tentativa de afastar os

invasores de seu território, muito mais perdas, segundo os relatos e documentos, sofreram os Waimiri Atroari que os não indígenas.

O governo estadual, nesse período, tinha sua economia alicerçada nos produtos extrativistas. Dessa maneira, a população indígena tornava-se um incômodo para os coletores das "drogas do sertão", que viam nas terras indígenas um grande depósito desses produtos. Invasões em áreas ocupadas por indígenas eram incitadas e denúncias dessas invasões eram tidas como calúnias contra os coletores, feitas por pessoas que impediam o crescimento da economia estadual. Como aconteceu no final do século passado, quando os indígenas reagiram contra a invasão de seu espaço territorial agredindo e matando não índios, represálias eram organizadas para vingar os mortos e punir seus malfeitores. Essas represálias eram sempre desproporcionais para os índios. Eram combates desiguais a começar pelo armamento: de um lado arma de fogo de outro arco e flecha. De um lado 300 não indígenas contra um número bem menor de indígenas, de acordo com os relatos das baixas em ambas as partes. Era uma guerra injusta e desigual, um se defendia enquanto o outro atacava. Devido ao reduzido número de combatentes, a posição dos Waimiri Atroari era mais de defesa do território, da honra, da comunidade. Aldeias inteiras eram dizimadas em ataques-surpresa, mesmo assim os índios combatiam com extrema habilidade guerreira. Assim a reputação atribuída aos Waimiri Atroari de valentes, guerreiros, bravos, arredios ao contato, foi crescendo contribuindo para gerar um mito em torno da sua identidade societária.

No final da década de 1960, os governos do estado do Amazonas e do território federal de Roraima iniciaram as obras de construção da rodovia Manaus/Caracaraí, que ligaria por terra esses dois municípios. Tendo conhecimento das histórias envolvendo a sociedade Waimiri Atroari e a sociedade não indígena, o Departamento de Estradas e Rodagens do Amazonas (DER-AM) solicitou ao SPI que pacificasse os indígenas no menor tempo possível para evitar possíveis confrontos com os trabalhadores da estrada.

Atendendo ao pedido do DER-AM, a Fundação Nacional do Índio (Funai, sucessora do SPI), intensificou as atividades da Frente de Atração Waimiri Atroari (FAWA), sob a responsabilidade do sertanista Gilberto Pinto Figueiredo, para liderar os trabalhos de pacificação. Gilberto encaminhava os contatos seguindo a política indigenista da Funai. Visitava as aldeias, conversava gesticulando com os indígenas e trocava "brindes" (panelas, facas, terçados, machados, talheres, roupas) por objetos confeccionados pelos Waimiri Atroari. Criou vários postos de atração em lugares estratégicos para atingir o seu objetivo de atrair os índios para lugares distantes do traçado da estrada. O esforço do sertanista foi considerado moroso para o DER-AM, responsável pelas obras da Manaus/Caracaraí, que tinha urgência em concluir os trabalhos devido às pressões políticas estaduais (AM/RR) e federal. Dessa maneira foi solicitada sua substituição a Funai.

Com o afastamento de Gilberto Pinto Figueiredo, assume a responsabilidade pela atração dos indígenas o padre italiano Giovanni Calleri da prelazia de Roraima. A Expedição Calleri era composta por oito homens e duas mulheres. Pela primeira vez mulheres participavam desse tipo de trabalho e a presença feminina era justificada para dar um caráter "normal", familiar, à expedição.

A estratégia seria seguir através dos cursos d'água, que eram vistos pelo padre como território neutro respeitado pelos índios. Pe. Calleri acreditava ser mais fácil o contato com os índios cuja aldeia estivesse mais afastada das frentes de trabalho da estrada, visto que esses, ainda, "não haviam pressentido a chegada dos brancos". A intenção de começar as atividades via rio Alalaú, onde estariam localizadas as aldeias mais distantes, foi desfeita, tendo a expedição de modificar a trajetória e iniciar os contatos pelo rio Santo Antonio do Abonari. A mudança do plano foi justificada pela necessidade de amenizar os conflitos entre os Waimiri Atroari e os trabalhadores. A expedição durou cinco dias em área indígena e conseguiu manter contato com a comunidade de uma maloca, no entanto no final do quinto dia quase todos estavam mortos, sobrando apenas um mateiro.

Com o extermínio da equipe do Pe. Calleri, retorna aos trabalhos Gilberto Pinto Figueiredo e a responsabilidade pela construção da estrada é transferida do DER-AM para o Departamento de Estradas e Rodagens (DNER), que amplia o projeto inicial para uma rodovia federal - a BR 174 (Manaus a Boa Vista). O DNER incumbe ao Exército Brasileiro, até então sem tradição na construção civil, a missão de coordenar e executar as obras. Dessa maneira as obras da estrada são retomadas pelo 20 Grupamento de Engenharia e Construção - 60 Batalhão de Engenharia e Construção (60 BEC).

As relações entre funcionários da Funai e Exército mantiveram-se tensas durante o período de obras. De um lado a Funai estabelecia normas de conduta em terra indígena para todos que estivesse desenvolvendo trabalhos na estrada; de outro lado o exército transgredia essas normas e conduzia as operações de engenharia segundo seus critérios.

A urgência em concluir as obras intensificou as divergências entre essas duas instituições e atropelou as ações indigenistas até então desenvolvidas. Em decorrência desses desentendimentos, em 1974 morre Gilberto Pinto Figueiredo e todos que se encontravam no posto de atração. O 60 BEC intensifica as obras e conclui a rodovia cumprindo as metas dos governos federal e estaduais. Para garantir o tráfego e a segurança dos transeuntes contra ataques dos Waimiri Atroari, no trecho de estrada ao longo da terra indígena, o 60 BEC instalou guaritas de controle de entrada e saída de veículos nos limites norte e sul da área indígena.

Os planos desenvolvimentistas do governo federal para a Amazônia continuaram a atingir as terras Waimiri Atroari. Na década de 1970 o Projeto Radam constata a existência de cassiterita na área indígena. No início da década de 1980 a empresa Paranapanema demonstra interesse em explorar esse minério. Com o auxílio da FUNAI e do Ministério das Minas e Energia, através do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), consegue articular um processo que veio a culminar na extinção da Reserva Indígena Waimiri Atroari (criada em 13/07/71), transformando-a em Área Interditada Temporariamente para Fins de Atração e Pacificação dos Índios Waimiri Atroari (23/11/81) e excluindo, no novo decreto presidencial, a região da terra indígena onde se encontravam as jazidas. Ainda na década de 80, outro grande projeto atingiu as terras Waimiri Atroari. Tratava-se da construção da usina hidrelétrica de Balbina, pela Eletronorte, cujo lago atingiu 30 mil ha. na área indígena.

01:: foto: Paul Lambert, 1970

02:: foto: Agência O Globo, 1977

Maria Carmen R. Do Vale
Coordenadora do Subprograma de Educação, Documentação e Memória do Programa Waimiri Atroari
carmen@waimiriatroari.org.br
Fevereiro, 2002

 
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