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Durante vários meses,
os Waimiri Atroari se preparam para a festa de
iniciação masculina. Essa festa
acontece quando crianças atingem a idade
de três a quatro anos. Os pais das crianças
de um mesmo grupo local se reúnem com os
eremy para definirem quando será
a festa. Decidida a data, o pai da criança
tece um calendário feito com várias
taquaras cortadas em lascas e ligadas umas as
outras com uma fina
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corda de cipó titica. Essas lascas de taquara
representam os dias que faltam para os convidados chegarem
ao local dos festejos. Nesse calendário também
há uma marca, feita com faca, identificando o
dia da coleta da banana para madurar e poder preparar-se
o mingau.
Terminado o calendário, os
pais saem de sua aldeia para convidar seus paxira
(parentes mais distantes que moram em aglomerados distintos
do grupo que promove a festa). Os parentes do mesmo
aglomerado se deslocam para a aldeia onde haverá
a festa para auxiliar nos preparativos.
As mulheres cuidam de toda a culinária
festiva, sendo que as mães e as avós (materna
e paterna) organizam as atividades da cozinha. Os homens
se ocupam da confecção dos artefatos:
flechas e cestos. As flechas serão oferecidas
aos eremy como "pagamento" por seus serviços
e aos paxira em agradecimento pelo seu comparecimento.
Os cestos servem para ofertar os alimentos, em especial
as carnes moqueadas, e também, quando colocados
na cabeça do menino, para solicitar que eles
sonhem bastante e sejam muito maty (bom caçador
e pescador).
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::02 |
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Os
pais das crianças dividem-se entre as diversas
comunidades que irão convidar, permanecendo
nessas até a data de deslocar-se em direção
à aldeia anfitriã. Expedições,
com todos os habitantes das diversas aldeias,
são organizadas pelas trilhas que interligam
os diversos grupos locais. Durante o período
de caminhada pela floresta, os homens vão
caçando, moqueando e guardando a carne
para
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a festa. No acampamento, somente frutas silvestres
e os pedaços menos nobres das carnes são
consumidos. Cestos cargueiros, confeccionados de palmeiras
patauá, vão sendo enchidos de carne e
esses são carregados pelos pais dos meninos até
a chegada na maloca da festa.
Chegando próximo à mydy
taha, os paxira armam acampamento para aguardar
a chegada da alvorada do dia da festa, geralmente o
dia seguinte. Próximo do amanhecer, os eremy
começam a cantar e a acordar todos. Flautas e
cantos são ouvidos de longe e todos na mydy
taha põem-se em estado de alerta para aguardar
os seus convidados.
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::03 |
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Os meninos a serem iniciados são
conduzidos para fora da maloca e sentados em um banco
confeccionado especialmente para a ocasião. Algumas
vezes suas irmãs adolescentes e solteiras os
acompanham nessa recepção. Todos os paxira
adentram o espaço da aldeia cantando, sendo que
o pai e os eremy vêm à frente liderando
a multidão. Festejam circulando os meninos, entregam
a caça para os anfitriões e se dirigem
ao espaço interior da maloca, onde serão
recepcionados com beijus e mingau de buriti.
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::04 |
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A festa não pode ser
organizada sem a presença do eremy.
É ele quem define, juntamente com o pai
da criança, o período em que se
realizará a festa e é, também,
quem irá conduzir todos os trabalhos durante
o ritual. Para ser eremy não é
necessário somente querer. É necessário
estar disposto a passar por um longo período
de aprendizado com um cantor mais experiente,
ter disciplina e uma boa
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memória. Essa atividade é exercida por
ambos os sexos. São eles quem evocarão
os cantos ligando o universo festivo ao cosmogônico.
Suas cantigas falam dos animais, alimentos, heróis
míticos e mitológicos, sendo cantadas
em uma língua que não é mais falada
atualmente. Seu conhecimento também contempla
a fitoterapia, o uso de remédios, cuidados com
doentes e acompanhamento nos partos junto com os familiares.
Há também outros tipos
de festas, como o ritual dos mortos-vivos e inauguração
de moradia. O Irikwa maryba (ritual dos mortos-vivos)
é realizado quando algum espírito maligno
está se aproximando da aldeia com o objetivo
de acalmá-lo e afastá-lo; ou quando da
morte de algum parente, para que sua alma não
fique vagando pelo mundo dos vivos. Irikwa é
uma entidade que não traz bons agouros. Vive
na floresta e o kinja que a avistar é fadado
a definhar até perecer, não havendo tratamento
para esse tipo de contágio. O irikwa maryba
é feito sempre que necessário, de maneira
que não há uma periodicidade em sua realização.
A mydy maryba (festa da casa
nova) acontece quando o grupo local termina os trabalhos
de cobrir e fechar as laterais da maloca. Participam
dessa festa os diversos grupos domésticos e locais
que foram convidados pelos mydy iapremy a auxiliarem
nos trabalhos de construção da nova maloca.
Essa festa é realizada para solicitar bons fluidos
para a nova moradia, para que irikwa não chegue
perto, e também para que o material utilizado
em sua execução tenha longa durabilidade.
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