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HISTÓRICO DO CONTATO   
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HISTÓRICO DO CONTATO

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A dificuldade em determinar quais são efetivamente as primeiras notícias a respeito dos grupos que mais tarde vieram a compor as atuais comunidades Waiwai reside no fato, recorrente na Amazônia Indígena, de que os etnônimos atribuídos a diferentes coletivos indígenas variaram muito no decorrer dos anos. Uma das primeiras informações, ainda que simples referência, data do século XVII (R. Harcourt 1603 [1928]) e outra do século XVIII (Sanders 1721 in Ijzermann 1911 citado em Bos 1985).

No século XIX três viajantes fizeram relatos sobre os Waiwai. O primeiro foi o geógrafo inglês Robert Hermann Schomburgk, que realiza suas viagens entre os anos 1835 e 1839, e depois novamente em 1843, na Guiana Inglesa e na região do rio Orenoco. Ele encontra os Waiwai nos dois lados da fronteira Brasil / Guiana Inglesa, delimitada pela Serra Acaraí, com duas aldeias ao sul no rio Mapuera e uma ao norte no rio Essequibo, separadas por distância correspondente a dois dias de caminhada. O viajante avalia a população destas três aldeias em 150 pessoas. Nos relatos de Schomburgk se encontram vários dados que indicam a existência de uma ampla rede de relações de troca entre os diferentes grupos desta região. Infelizmente os dados diretos em relação aos Waiwai são poucos, mas indiretamente lhe é contado, pelos grupos vizinhos (como os índios Mawayana e Taruma, por exemplo), que os Waiwai eram conhecidos na região por suas habilidades no plantio de algodão e na caça e, especialmente, pelos seus cães de caça, além de seus cobiçados raladores de mandioca.

O próximo viajante, o geólogo britânico Barrington Brown (1876, 1878), encontra em novembro de 1870 os índios Taruma, Wapixana e Mawayana voltando de uma expedição comercial com os Waiwai, que, sem contato com os brancos, obtinham mercadorias – como ferramentas, panos e miçangas – trocando-as por seus raladores de mandioca e cães de caça com esses grupos vizinhos. Por esta via indireta, Brown recebe a informação de que os Waiwai estão naquele momento somente ao sul da serra Acaraí.

Em 1884, o terceiro viajante, o geógrafo francês Henri Coudreau (1899), encontra os Waiwai no Mapuera, perto da região ao sul da serra Acaraí, enquanto a área ao norte da serra era ocupada somente pelos Taruma. Coudreau avaliou a população dos “Ouayeoue” (Waiwai) em três ou quatro mil pessoas, aproximadamente, sendo sete aldeias de 300 habitantes, mas este número é considerado exagerado (por Fock 1963, por exemplo). Como já nos relatos de Schomburgk, também Coudreau aponta para a existência de uma ampla rede de trocas dos Waiwai com vários outros grupos desta região, relatando relações comerciais dos Waiwai ao norte com os Wapixana, os Atorai e os Taruma, no leste com os Pianokoto (Tiriyó), e nos rios Trombetas-Mapuera com os Mawayana e os Xerew, entre outros. Depois de sua morte, sua esposa, Olga Coudreau (1900), deu seguimento às expedições. Ao contrario do marido, que escreveu que os Waiwai e os Mawayana não possuíam bens europeus, ela descreve suas habilidades de troca por estes cobiçados artigos, como miçangas, espelhos, facões, pentes e machados.

No final do século XIX, os Waiwai continuavam em contato com os índios Taruma, estabelecendo também relações pacíficas com os Tiriyó do Trombetas-Paru de Oeste, enquanto estavam em guerra com os povos habitantes do médio Mapuera, do grupo Parukoto (Fock 1963: 5). A área de ocupação waiwai correspondia, portanto, à zona de cabeceiras do Mapuera, limitada ao norte pela serra Acaraí. Ao sul de seu território, habitavam outros povos, hoje integrados aos Waiwai e que subiram progressivamente para o norte, repelidos pelo avanço das frentes extrativistas na bacia do Trombetas. De norte a sul, eram os seguintes povos: Tutumo, Mawayana, Xerew e Katwena (Yde 1965: 319, mapa).

Como o caminho das viagens de reconhecimento nesta área se dava geralmente de norte para o sul, com os viajantes saindo da Guiana e não do Brasil, as informações se referem apenas aos índios da região fronteiriça. Por serem mais acessíveis a estas expedições, que transmitiam doenças, assim como pelos contatos comerciais com os Taruma e Wapixana, os Waiwai sofreram, por volta de 1890, um forte abalo demográfico, devido à propagação de doenças antes desconhecidas entre eles. Isto provocou um aumento dos casamentos intertribais. Antes deste período já ocorriam freqüentemente casamentos entre Waiwai e outros povos e depois, no final do século, os Waiwai intensificaram este processo com os índios Parukoto (principalmente os Xerew e os Mawayana) ao sul, e com os Taruma, ao norte (Fock 1963: 267).

No século XX

No início do século XX, os Waiwai se dividiam em duas áreas: ao norte, na serra Acaraí, e, a leste, o grupo do alto Mapuera. A primeira década é marcada por conflitos intertribais, que realçaram a separação dos dois subgrupos e que, ao mesmo tempo, provocaram forte diminuição da população. Os conflitos ocorreram entre os Waiwai e os Parukoto. Já em dezembro de 1913, quando Farabee visitou os Waiwai, as guerras haviam cessado e os antigos inimigos Parukoto eram integrados a eles, sendo, porém, os Parukoto em maior número (cf. Howard 2001: 234-235).

Nos anos 1919, 1922 e 1923 o missionário Fr. Cuthbert Cary-Elwes S.J. visitou os Waiwai e também fala da proeminência de suas atividades comerciais com os Taruma e os Wapixana (cf. Colson e Morton 1982). Os Waiwai e os Parukoto, do norte e leste, continuavam habitando a região montanhosa, mas o grupo do norte começava a ocupar também o alto Essequibo, na Guiana Inglesa, onde são mencionados por Walter E. Roth no início de 1925. Antes que Roth pudesse ir encontrar os Waiwai, como planejado em sua viagem, os Waiwai foram ao seu encontro, tendo corrido a notícia de um viajante que estava na área com mercadorias como sal, anzóis e machados. As relações comerciais com os Taruma haviam cessado, pois, como afirma esse autor, os Taruma dessa área estavam praticamente extintos e os remanescentes integrados aos Waiwai (Roth 1929: IX, X).

De 1925 a 1950, aproximadamente, inicia-se um movimento de migração dos Waiwai rumo ao alto Essequibo. Abandonam a região de serra e cabeceiras para viver à margem de rios maiores. A comissão de limites anglo-brasileira, em 1935, confirma este movimento: a maioria dos índios Waiwai estava no Essequibo, Guiana Inglesa, enquanto o Mapuera era habitado por outros povos (Xerew, Mawayana etc.) do grupo Parukoto, misturados com alguns Waiwai. Com efeito, Waiwai e Parukoto tinham uma língua e modos de viver parecidos. Os Parukoto, procedentes do médio Mapuera, tinham introduzido entre os Waiwai por exemplo o uso de canoas, característico dos grupos amazônicos (Fock 1963: 8-9).

Até 1950 a situação dos Waiwai não sofreu grandes modificações a não ser territoriais, conforme puderam constatar vários visitantes de missões etnográficas e oficiais: em 1938, a expedição Terry-Holden, do American Museum of Natural History (ver Aguiar 1942); e em 1947, Peberdy, representante do governo da Guiana (Peberdy 1948).

Presença missionária

No início de 1950, ocorreram grandes transformações na vida dos Waiwai com a intervenção de uma “frente missionária” no alto Essequibo: a Unenvangelized Fields Mission / UFM (Cruzada de Evangelização Mundial), atraindo para a Guiana Inglesa a grande maioria da população do Mapuera e do Nhamundá. O repórter evangélico Homer E. Dowdy relata em seu livro Christ’s Witchdoctor: From Savage Sorcerer to Jungle Missionary que no início deste empreendimento estão os missionários Neill, Rader e Robert Hawkins, três irmãos do Texas cujo objetivo era instalar-se nas regiões indígenas não evangelizadas para, em nome de sua missão, salvar as almas para Cristo, trazendo-lhes o evangelho. Antes de fazer o contato com os Waiwai, os dois irmãos mais velhos, Neill e Rader, conviveram 10 anos com os Macuxi à beira do Rio Branco no Brasil.

Em 1948, quando quiseram contatar os Waiwai, os Hawkins não receberam autorização do governo brasileiro e por esta razão resolveram viajar para a Guiana Inglesa, onde também lhes foi negada primeiramente a autorização (Dowdy 1963: 33). Apenas no ano seguinte, em janeiro de 1949, quando o agente então responsável fora transferido, seu sucessor lhes concedeu a autorização para visitar os Waiwai no Essequibo.

A “Missão entre os Waiwai” foi fundada por vários missionários, e em 1949 poucos Waiwai viviam no lado inglês. Mas no lado brasileiro, na região fronteiriça, a população indígena era considerável. Desde o início o interesse dos missionários consistia em fazer incursões em território brasileiro (baixando o Mapuera e avançando até o rio Nhamundá) e atrair várias centenas de índios para a missão no território da então Guiana Inglesa (Frikel 1970: 29-30). Para atrair os índios, os missionários enviaram mensageiros indígenas para oferecer-lhes itens muito apreciados como anzóis, espelhos, facas e miçangas, bem como para contar-lhes que “o mundo acabaria numa enorme fogueira e que poderiam mostrar o caminho para a salvação de uma vida melhor” (Almeida 1981). Com esta atração, a população desta área aumentou de 80 pessoas para mais de 250, em apenas três anos, formando um conglomerado de grupos, incluindo os Waiwai, os Mouyennas (Mawayena), os Xerew, Piskaryenna e os Hixkaryana (Yde 1960: 83, e 1965: 1 e 9). A concentração rapidamente resultou em uma única aglomeração, Kanashen ou Konashenay aldeia artificial criada pela Missão, cujo nome deveria traduzir a idéia de que “Deus ama você aqui” para a atrair os índios a irem viver neste lugar.

Corre uma série de relatos e versões sobre a assim chamada “conversão” dos índios Waiwai, exemplificada de maneira paradigmática pela trajetória de Ewka, um xamã e líder carismático que se tornou uma referência importante tanto para os índios quanto para os não-índios, como demonstram diferentes experiências etnográficas e fontes que datam de distintos tempos. Segundo Dowdy, que dá a Ewka (e a seu livro) o título de Pajé de Cristo, trata-se da trajetória de um xamã selvagem que virou um missionário da selva, marcando a história dos índios Waiwai, que junto com seu líder teriam trocado o medo dos espíritos kworokyam pela fé em Cristo.

Dowdy relata as primeiras relações de Ewka com kworokyam – “o centro da vida espiritual dos Waiwai” (1963: 23) – que se manifestou para o jovem xamã em um sonho com os porcos do mato. Sob a guia do(s) espírito(s) do porco do mato, Ewka se iniciou nos conhecimentos xamânicos, assumindo o pacto de não comer a carne deste animal em troca de sua ampla ajuda, por exemplo, nas curas e na caça. Quando os missionários chegaram, Ewka prontificou-se a ensinar-lhes o idioma waiwai e, nas inúmeras horas de ensino da língua, ouviu as descrições do Deus dos missionários e de Seu Filho Jesus. Aos olhos dos missionários, que estudaram os modos e jeitos Waiwai (incluindo sua língua) para catequizá-los e fazê-los seguir o caminho de Deus (que traduziram por “Kaan yesamarî”), não passou despercebida a importância da troca de ekatî- alma e, em particular, a troca de yekatî yewru, alma-olho - para os Waiwai e por isso traduziram o Espírito Santo por “Kiriwan Yekatî”, ou seja, o “Espírito Bom” de Deus. Pregavam que tinham que estar em constante processo de troca com este para não serem punidos no purgatório e poder, ao contrário, subir para o céu. Com prestigiosos presentes como, por exemplo, motores de popa e shorts vermelhos, os missionários consideravam que poderiam conquistar Ewka especialmente se ele pudesse ver que Jesus era o espírito bom, infinitamente maior que os espíritos ruins que segundo os missionários eram representados por kworokyam e que eles traduziram por Diabo. Desta consideração dos missionários surgiu a proposta feita à Ewka de que ele não apenas matasse um porco do mato, mas também comesse a sua carne, pois assim poderia provar para si e para todos que os espíritos nada podiam com alguém que estava protegido por Deus. Assim ocorreu, dando início, segundo Dowdy, a conversão primeiramente de Ewka e depois dos grupos que o seguiram. Já em 1956, quase cada semana havia uma confissão pública da nova fé em Cristo durante as reuniões e cultos semanais instituídos em Kanashen nas quartas, sextas e aos domingos.

As relações que os Waiwai travaram com os missionários se deram em diversos âmbitos e por isso este processo não deveria ser simplesmente chamado de “conversão” ao Cristianismo, mas visto no contexto de uma complexa rede de relações com potências exteriores, fundamentais para a aquisição da própria cultura. Cabe relembrar aqui que, desde os primeiro viajantes, os relatos apontam para um especial interesse dos Waiwai em travar relações com grupos alheios e para a existência de uma ampla rede de trocas com vários outros grupos desta região, como os Wapixana, os Tiriyó, os Mawayana e os Xerew, entre muitos outros. Neste contexto se situa seu acentuado interesse em estabelecer relações com os missionários e seu entusiasmo em aceitar a proposta missionária de atuar como mensageiros indígenas fazendo contato com outros grupos indígenas como, por exemplo: os Xerew do Baixo Mapuera em 1954, os Mawayana do Alto Mapuera em 1955-56, os Tiriyó e Wayana no Suriname em 1957, os Kaxuyana no Rio Cachorro e os Hixkaryana no Rio Nhamundá em 1957-58, dois grupos Yanomami (Xirixana e Waika) em 1958-59 e 1960-62, vários grupos do Tumucumaque (como Tunayana, Wajãpi, Wayana e Kaxuyana) em 1963-65, os Katwena e Cikyana do Trombetas em 1966-67 e os Waimiri-Atroari do Rio Alalaú em 1969-70 (cf. Howard 2001: 285-286). Trata-se de algo que já vinham fazendo antes do contato com os missionários e que, após o contato, puderam fazer com um apoio especial, tendo-se em vista as ferramentas materiais e imateriais da missão.

Em 1971, a missão Kanashen é expulsa da Guiana pelo governo do país, de tendência socialista. Os índios dispersam-se, ficando apenas algumas famílias na área. Uma pequena parte migra para o Suriname, na Missão Araraparu, enquanto a maior parte volta para o Brasil. Os líderes e pastores indígenas Kiripaka e Yakuta, irmão de Ewka, organizaram neste mesmo ano a mudança de 15 famílias para o rio Anauá, no Estado de Roraima. Os demais, chefiados por Ewka, voltam em 1974 ao Mapuera, local de origem. Os missionários expulsos da Guiana se dividiram e passaram a acompanhar o movimento dos índios no lado brasileiro. Uma parte deles se fixou com os Waiwai em Roraima e se integrou à organização missionária MEVA. Outra parte, em 1976, estabeleceu-se no Mapuera, como integrante da MICEB (Missão Cristã Evangélica do Brasil). Nesta época, as expedições de contato em busca de outros grupos indígenas seguem sendo realizadas, inclusive fundando novos lugares de moradia, como é o caso da expedição de contato em busca dos Karapawyana do Rio Jatapu em 1974-1980, fundando quatro anos mais tarde a nova comunidade Waiwai do Jatapuzinho, seu afluente.

01 :: Foto: Yves Billon, 1971.

Evelyn Schuler Zea
Antropóloga, pesquisadora do NHII (Núcleo de História Indígena e do Indigenismo)/USP
evelynsz@gmail.com
Acrescido de informações dadas por Catherine V. Howard e Carlos Machado Dias Jr.

Outubro de 2006

 
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