::01 |
 |
O movimento de centralização e descentralização marca tanto a ocupação territorial – que se baseia fortemente na autonomia dos grupos locais, mas também em jogos políticos na conjuntura atual, que envolve o contato e a negociação permanente com não-índios [ver item Relações atuais com não-índios] – quanto a concentração e a dispersão da população em diferentes momentos históricos na região que abrange o Rio Essequibo na Guiana [ver box: Waiwai na Guiana], os Rios Anauá e Jatapuzinho em Roraima, os Rios Jatapu e Nhamundá no Amazonas, e o Rio Mapuera no Pará.
A bibliografia atesta que nos últimos 50 anos o convívio constante com não-índios – inicialmente com missionários norte-americanos da Unevangelized Fields Mission (UFM), posteriormente com a Missão Evangélica da Amazônia (MEVA) e com agentes da Funai, Funasa, além de contatos esporádicos com pesquisadores e a população ribeirinha, entre outros – inaugurou um processo de concentração das casas coletivas que outrora estavam dispersas entre os dois lados da Serra do Acarai, divisa do Brasil com a Guiana. Mas o surgimento de novos padrões de assentamento implantados pelos missionários – que resultaram em grandes aldeias como, por exemplo, a de Mapuera – não significa que a importância da autonomia dos grupos locais tenha deixado de existir ou de fazer sentido, muito pelo contrário. Ao que tudo indica, esse processo de centralização está atualmente sendo seguido por outro de re-dispersão, como demonstram a migração e criação de novas comunidades Waiwai, como as de Catual, Soma, Samaúma, para citar apenas alguns entre muitos outros exemplos.
O espaço oficialmente reconhecido consiste nas seguintes três Terras Indígenas, que abrangem parte dos Estados do Amazonas, Pará e Roraima:
- TI Nhamundá-Mapuera (PA), com 1.049.520 ha e 2.218 pessoas em 2005;
- TI Trombetas/Mapuera (AM/RR/PA), com 3.970.420 ha e 500 pessoas em 2005;
- TI Wai-Wai (RR), com 405.698 ha e 196 pessoas em 2005.
OS WAIWAI NA GUIANA
A população Waiwai na Guiana atualmente ocupa duas aldeias na região sul do país. A primeira delas é a aldeia de Masakinyari (“lugar do Mosquito”), localizada mais ao sul, no alto curso do rio Essequibo. O número de seus habitantes varia entre 130 e 170, variação que depende da estação do ano, das extensas visitas inter-aldeias e do número de famílias Wapixana, que flutua constantemente. Os moradores de Masakinyarï mantêm contato constante com comunidades Waiwai no Brasil localizadas do outro lado da Serra de Acaraí.
Até a década de 1950 havia muitas pequenas aldeias Waiwai e de outros grupos ao longo do alto Essequibo. A junção de algumas delas formando aldeias maiores se devia em parte à presença da Unevangelized Fields Mission, responsável pela fundação da aldeia de Konashenay (“Deus ama você aqui”). Essa aldeia cresceu ao ponto de chegar a ter 500 habitantes, até que sua população voltou a se dividir em grupos menores.
A atual aldeia de Masakinyarï conta com membros da aldeia de Sheparyimo (aldeia do “Cachorro Grande”), que existiu do início dos anos 1970 até meados dos 1980, e da população remanescente da aldeia de Akotopono (aldeia da “Velha Arma Grande”), que existiu da década de 1980 até a criação da nova aldeia de Masakinyarï, em 2000. Pouco antes da criação da nova aldeia, muitas famílias e quase todos os Wapixana que ali moravam se mudaram para um lugar no rio Kuyuwini, perto de um local conhecido como pista Parabara. Uma trilha dessa pista para as savanas de Rupununi ao norte permite um maior acesso a aldeias Wapixana e Makuxi, assim como para as cidades de Lethem e Bon Fim, e, no Brasil, para a cidade de Boa Vista.
Essa aldeia em Parabara conta com aproximadamente 70 habitantes, metade dos quais são Wapixana. Contudo, a aldeia possui um nome Waiwai, Erepoimo (aldeia do “Grande Assador de Potes”), que era como chamava um pequeno acampamento Waiwai no alto Essequibo nas décadas de 1940 e 1950.
Ambas as aldeias possuem vínculos familiares com membros de aldeias Waiwai no Brasil, razão pela qual há pouca diferença cultural entre essas aldeias nos dois lados da fronteira, a não ser as diferentes relações com os respectivos estados da Guiana e do Brasil. Os guianeses da costa geralmente se referem às aldeias Waiwai no extremo sul do país como “Gunn’s Strip” (Pista de Gunn) em referência a uma pista de pouso localizada em uma pequena savana desta região, ou como “Konashen” (or Kanashen), em referência à antiga aldeia missionária.
Stephanie Weparu Alemán
Antropóloga, Iowa State University
|