| Os Werekena
entraram em contato com o homem branco provavelmente
no início do século XVIII, havendo várias
referências a este povo em relatos e documentos
desse século. Em 1753, o Padre Jesuíta Ignácio
Szentmatonyi (ver Wright 1981:603-608) noticiava que os
Verikenas habitavam o Rio Issié
(Xié), falando sua própria língua,
muito parecida com a dos Mallivenas. Indicava também
que o chefe deles havia sido convidado dois
anos antes para descer o rio e adotar o cristianismo.
Outras fontes (Caulin 1841: 70-75; Cuervo 1893, t. III:
244, 322-323, 325, 327; Arellano Moreno 1964:389) indicam
a presença de aldeias Werekena em 1758-60 nos rios
Guainía (acima da foz do Cassiquiari), Tiriquin,
Itiniwini (atual São Miguel e seus afluentes Ichani,
Ikeven ou Equeguani e Mee), Atacavi, Alto Atabapo e Caflo
Maruapo (afluente do Cassiquiari), região onde
ainda hoje vivem os Werekena, na Venezuela. Estas mesmas
fontes indicam a presença desses índios,
em 1767, na confluência do Cassiquiari com o Guainía
e na boca deste canal com o Orinoco, trazidos pelos colonizadores
do Itiniwini e do Caño Muruapo.
O Padre José Monteiro de Noronha ([1768]
1856: 79-80), indica a presença dos Uerequena
em 1768, no Rio Xié, convivendo com outros povos:
Baniba (Baniwa), Lhapueno (?), Mendó
(?) e outros. Viveriam também no Rio Içana,
juntamente com os Baniba, Tumayari (?), Turimari (?),
Deçana, Puetana (?) e outros. Para este padre,
os Uerequena chamados comumente, por corrupção
do vocábulo, Ariquena, tem por distintivo hum
furo mui largo entre a cartilagem, e a extremidade inferior
das orelhas em que metem molhos de palha. Entre eles
se acharam muitos, que antecedentemente a comunicação
e conhecimento dos brancos, tinham nomes hebraicos,
huns puros e outros com pouca corrupção,
como: Joab, Jacob, Yacobi, Thome, Thomequi, Davidu,
Joanau e Marianau. Estas informações
sobre os Werekena serão repetidas ao longo do
século XVIII, com algumas modificações
e acréscimos, pelos viajantes da região.
Nos anos de 1774-1775, grupos de Uariquena
estariam morando em Barcelos, provavelmente descidos
em anos anteriores pelos colonos portugueses, conforme
o relato de Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio (1825:
104-114). Este militar português também
fez referência à presença de Uerequena
no Rio Içana, enquanto que no Xié informou
que viviam os Assauinaui (provavelmente
trata-se de uma fratria Baniwa, os Dzauinai). Dos Uerequena,
afirmou novamente que são célebres
pela comunicação, que antecedentemente
tiveram com os brancos, e usarem os nomes hebraicos,
como são: Joab, Jacobi, Thome, Thomequi, Davidu,
Joanau, e Marianau. He esta nação antropófoga
é célebre por usar de escrita de cordões,
na forma dos quipos dos antigos peruvianos, com o que
transmitem os seus pensamentos a pessoas distantes,
que entendem, e sabem decifrar aqueles nós, e
cordões, que também lhe servem para uso
aritmético.
No ano de 1784, Manoel da Gama Lobo dAlmada,
militar português, não aponta ter avistado
qualquer indígena nas margens do Rio Xié,
mas dá sinais de que havia muitos embora
não os nomeie entre as cabeceiras deste
rio e o Tomo, afluente da margem direita do Guainia:
entrei pelo rio Xié e naveguei por
ele aguas acima até a um braço oriental
dele, chamado Uheuaupuiy [provavelmente igarapé
Teuapuri], pelo qual subi até dar em um torrão
de terra baixa aonde achei por entre matos a trilha
de um caminho estreito e fundo mas bem seguido. (...)
hera preciza toda a boa ordem na marcha porque havia
muita gentilidade, a quem estávamos ouvindo todas
as madrugadas tocarem os seus trocanos, espécie
de tambores. Duas vezes nos saíram espias
deles armados de Curabis que são umas pequenas
flechas ervadas com que nos atiravam; mas com alguns
tiros de vanguarda os fizemos retirar e seguimos pacificamente
a nossa marcha.
Alexandre Rodrigues Ferreira ([1885-88] 1983:253-254)
viajou pelos rios Xié e Içana em 1785,
informando-nos que foi advertido no Xié pelo
índio piloto de que o gentio Uerequena
as tinha [sentinelas] sempre avançadas neste
passo [cachoeira], para ser informado das canoas que
chegavam, e segundo as forças que nelas reconheciam,
e de que davam parte às espias, assim se resolviam
a abalroá-las ou não. Interessante
observar que o naturalista, chegado à cachoeira
de Cumati, anota no seu diário que della
para cima ha bastante piassaba, anunciando desde
já o interesse econômico pelos mananciais
desse rio.
No Rio Içana, Alexandre Rodrigues Ferreira
indica também a presença dos Uerequena,
juntamente com os Banibas, Termaisaris, Turimaris, Duanaes,
Puitenas e outros. Dos Uerequena, apesar de não
tê-los visto pessoalmente, repete as afirmações
de Monteiro de Noronha sobre a comunicação
por cordões e seus nomes hebraicos, e diz fazerem
um largo furo entre a cartilagem e a extremidade inferior
das orelhas para nele introduzirem molhos de palha
(ibid: 249). Numa memória escrita posteriormente,
em 1787 (1974: 69-73), o naturalista revela uma série
de características dos Uerequena, certamente
advindas de informações fornecidas por
terceiros, tais como os que acompanharam a tropa
chefiada por Miguel de Sequeira Chaves realizada em
1757, para reprimir um ataque de índios
rebelados (provavelmente no Baixo Rio Negro), na qual
havia alguns Warekena domesticados. Dentre
essas características, pode-se destacar, além
do furo na orelha, o fato de que eram antropófagos,
de que costumavam praticar a eutanásia com velhos
e enfermos irremediáveis e de que possuíam
currais de prisioneiros.
No início do século XIX, o cônego
André Fernandes de Souza ([c.1822] 1848: 411ss.)
repetia as informações sobre os Werekena
advindas de Monteiro de Noronha e Alexandre Rodrigues
Ferreira: os índios da nação
Uerequena são antropófagos e tem o distintivo
de trazerem as orelhas furadas nas cartilagens inferiores,
em que metem pedaços roliços de pau, de
modo que alguns já lhe chegam as orelhas aos
ombros a força do uso dos paus. Habitantes
do Rio Içana, os Uerequena conviveriam com os
Baniu, Tumayari, Turimari, Deçana e Puetana.
Não nos fornece nenhuma referência aos
habitantes do Rio Xié. Refere-se também
a Marcelino Cordeiro, o qual teria feito incursões
contra os índios, capturando-os à força
como prisioneiros, tendo havido reações
por parte dos índios.
Todos esses relatos, apesar de serem algo duvidosos
quanto à precisão da descrição
física e cultural dos Werekena, pois revelam
que são majoritariamente informações
de terceiros sobre esse povo, parecem deixar claro,
porém, que tinham uma população
razoavelmente grande, apesar dos descimentos e epidemias
terem provocado baixas e intensas migrações.
Os relatos também apontam que deviam
ocupar um território entre o Içana, o
Xié e o Guainía, mantendo estreitas relações
(inclusive guerras) com seus vizinhos, pelo menos até
meados do século XIX, período em que as
informações históricas são
muito precárias sobre aquela região. A
partir deste período voltam a surgir algumas
referências a respeito dos Werekena em textos
de natureza diversa, que apontam para uma diminuição
populacional do grupo, na medida em que os brancos aumentam
sua presença na região.
A longa história de contato entre comerciantes
de produtos extrativos e os índios do Rio Negro
também foi iniciada no século XIX. Comprova-no
um ofício enviado pelo Presidente da Província
do Pará ao Ouvidor do Rio Negro em 1821, a respeito
da civilização e aldeamento dos
índios, no qual invoca-lhe punir
severamente os comandantes e autoridades que maltratarem
os gentios, e aqueles mercadores que os enganarem em
suas permutações, desacreditando assim
a moral que se lhes pretende insinuar. Ou seja,
o chefe de Estado procurava, já em 1821, coibir
os excessos contra os índios feitos pelos mercadores
e também pelas autoridades civis e militares.
Muitas vezes na história daquela região
ficaria difícil distinguir comerciantes de autoridades,
pois todos constituíam as duas faces da mesma
moeda, que era a exploração violenta e
abusiva do trabalho indígena.
Tanto do lado brasileiro como venezuelano,
a partir do início do século XIX, muitos
índios foram envolvidos na exploração
extrativa do cacau, da salsaparilha, da piaçaba,
do puxuri, da balata e depois da borracha, entre outros
produtos, sendo submetidos a trabalhos compulsórios
pelos comerciantes. Isto deu início a migrações
forçadas e fugas de vários índios
que foram transportados pelos comerciantes para trabalharem
nos diversos mananciais de produtos extrativos (Cf.
Wright, 1992:263-266).
Viajando pelo Rio Negro em 1848-50, o naturalista
inglês Alfred Russel Wallace fornece outras indicações.
Em seu relato de viagem ([1853] 1979:149; 308), informa
que os Ariquenas estariam estabelecidos
no Rio Içana, juntamente com os Baniua, Bauatanas,
Ciuci, Quatis, Juruparis, Ipecas, Papunauas, que correspondem
a fratrias baniwa. Quanto ao Rio Xié, afirma
que os indígenas que habitam suas margens
são pouco conhecidos e selvagens e desenvolve-se
nele um incipiente comércio. Entretanto,
nenhuma observação sobre quem e como seriam
esses indígenas selvagens do Xié,
e qual seria esse comércio incipiente, que poderia
ser de piaçava, cuja produção era
já significativa nessa época e
encontrada nas páginas de seu relato. Aos Ariquena
habitantes do Içana, reporta apenas que do
mesmo modo que os cobeuas, atacam as outras tribos para
capturarem prisioneiros. Seus conceitos religiosos e
superstições assemelham-se bastante aos
dos Uaupés.
Poucos anos depois de Wallace, entre 1852 e
1854 aproximadamente, o Frei Gregório José
Maria de Bene, padre capuchinho, e o Diretor dos Índios
Jesuino Cordeiro, comerciante no Alto Rio Negro, segundo
os documentos registrados por B. F. Tenreiro Aranha
na Revista do Arquivo do Amazonas (1906: 67-68), apontavam
os Uriquena como habitantes do Rio Içana,
juntamente com os Baniua, Piuns, Cadauapuritaua, Murureni,
lurupari, Siussi, Quaty, Ipeca, Tapibira, Tatutapia,
Caetitu, lujudeni, Uaripareri (todas fratrias baniwa).
Segundo Tenreiro Aranha, o citado Diretor dos Índios
conhecia também o Xié, mas o historiador
amazonense não fornece, à luz dos documentos
que apresenta, nenhum dado referente à população
que ali residia.
Em 1857, o capitão de artilharia Joaquim
Firmino Xavier (apud Avé-Lallement, [1860] 1961:
1 22ss.), vem assumir no Alto Rio Negro a tarefa de
domiciliar índios na fronteira, ou
seja, colonizar com índios (...) o
Rio Içana (...) e o Xié (...),
índios com quem se encontrou pessoalmente, o
que talvez permita inferir quem sejam aqueles selvagens
pouco conhecidos de Wallace e visitados por Jesuino
Cordeiro no Xié. Outra testemunha desse século
é o conde italiano Ermano Stradelli, que desceu
o Rio Negro, desde Cucuí, em 1881. Segundo ele,
o Xié estava quase deserto. É possível
que a população indígena estivesse
vivendo nas cabeceiras e em pequenos igarapés,
justamente para evitar o contato destrutivo com os brancos.
A leitura dessas fontes parece indicar que
os Werekena viajariam, ou manteriam uma vida itinerante
entre o Içana, Xié e o Gualala, provavelmente
pelo Rio Tomo e diversos varadores, itinerância
ativada ainda mais pelas pressões da penetração
dos brancos, tanto do lado venezuelano quanto brasileiro.
Tal hipótese talvez possa explicar as referências
que se fazem a esse povo, em épocas distintas,
no Içana, no Xié e no Guainía.
Quanto aos movimentos migratórios referidos neste
documento, porém, seriam causados em grande parte
como evidencia não só o relato
de Firmino Xavier, mas o do próprio Avé-Lallement
pela repressão que os militares vinham
fazendo contra os movimentos messiânicos surgidos
naquela época entre os índios do Içana
e Xié (a esse respeito ver o item histórico
do contato da página Etnias do Içana),
como também pela obrigatoriedade desses índios
trabalharem nas obras da fortaleza de Cucuí.
Certamente, em anos imediatamente anteriores a 1857,
os militares tenham provocado muita violência
contra os índios, inclusive aos Werekena, pois
nada mais poderia explicar o temor que haviam adquirido
em relação aos oficiais, provocando tamanha
evasão populacional, que implicou o abandono
de casas recém-construídas, roçados
e áreas de caça, pesca e coleta, enfim,
fatores essenciais a sua existência física
e cultural (ver Wright, 1981: 289ss).
Longas migrações foram levadas
a cabo pelos índios devido às fugas, certamente
relacionadas, entre outros motivos, à superexploração
dos comerciantes. O que parece certo é que houve
baixas populacionais em todos os grupos do Içana
e Xié nesse período, grassando entre os
índios, de forma profunda e duradoura, o pavor
de avistar qualquer homem branco se aproximando de suas
aldeias. Nesse sentido, esses relatos reforçam
a hipótese de que violências de ambos os
lados da fronteira provocavam a diminuição
não só da população indígena,
mas sua migração compulsória ora
para o Brasil ora para a Venezuela.
Muitos desses aspectos da história no
século XIX desdobraram-se no século XX.
A presença dos comerciantes intensificou-se e
a exploração do trabalho indígena
nos seringais, piaçabais e balatais atingiu em
cheio os índios do Rio Negro. Um velho Baré,
por exemplo, conta que seu pai, nascido em 1888, trabalhou
com o comerciante português Antonio Castanheira
Fontes, que no início deste século era
o maior comerciante do Baixo Rio Negro,
e chegou a ver na casa do comerciante português
um toco de pau-brasil com correntes para amarrar os
fregueses e surrá-los com chicote.
A partir do início do século
XX, muitas famílias que haviam debandado para
a Venezuela retornaram para o lado brasileiro, motivadas
não só pelas revoluções
que ocorriam lá, mas também pela violência
de comerciantes que exploravam a produção
extrativa dos índios no Guainia e Casiquiari.
Uma vez no Brasil, os índios novamente tiveram
que enfrentar a exploração dos comerciantes,
em busca de piaçava, de borracha e de sorva,
além dos militares de Cucuí.
O sanitarista Oswaldo Cruz, num relatório
que escreveu sobre o vale do Amazonas no início
do século XX, menciona a migração
forçada de índios oriundos do Alto Rio
Negro para o Baixo Rio Negro, pois afirma
que quando os proprietários de seringais
do Rio Negro têm necessidade de novos fregueses
vão procurá-los muitas vezes além
de S. Gabriel, no Rio Caiairi (Uaupés), muito
habitado, e além, nos limites da Venezuela (1913:106).
Esta migração, neste período e
posteriormente, passou também a ter, em parte,
um conteúdo voluntário, pois muitos índios
vieram provavelmente ao Baixo Rio Negro
em busca de seus parentes escravizados ou seus descendentes
que permaneceram na área. Muitas famílias
também conseguiram fugir dos patrões e
retornar às suas regiões, sobretudo as
que escaparam das epidemias que grassavam nessas zonas
de exploração, como a malária.
Curt Nimuendajú, no seu relatório
de viagem pelo Alto Rio Negro feito para o SPI (Serviço
de Proteção aos Índios), em 1927,
faz um relato sobre os comerciantes e suas relações
com os índios que, com as devidas proporções,
poderia ser perfeitamente aplicado à situação
atual da região:
Todos os que negociam com índios
sabem perfeitamente que, salvos raras exceções,
nenhum deles paga voluntariamente o que deve, mas só
debaixo de maior ou menor pressão exercida pelo
credor. Em vez porém de lhe negar a vista, o
comerciante, pelo contrário, trata de arrumar
quanto antes uma dívida nas costas do índio,
já calculando de adquirir desta forma o direito
de cativar o devedor e de obrigá-lo ao pagamento
da maneira como o negociante bem entender, ficando o
índio assim muitas vezes em condições
piores que as do cativeiro, legal, pois não representa
para o seu senhor um objeto de valor intrínseco
que faz parte de sua fortuna, senão somente o
valor da dívida ([1927] 1982:183).
Na mesma direção, o cientista
José Cândido de Melo Carvalho dá
esse depoimento em 1949, quando viajou por toda região
do Alto Rio Negro: Todos com quem conversei neste
trecho (Médio Rio Negro) são unânimes
em afirmar que certos brancos desta região exploram
demasiadamente os índios, obrigando-os a levarem
uma vida de verdadeira escravidão (1952:23).
A tradição oral indígena não
oferece qualquer contestação a essas histórias
narradas por viajantes e pesquisadores.
Ocorreu também que muitos comerciantes
brancos, como Germano Garrido, casavam na região
com mulheres indígenas, muitas do povo Baré,
provocando grande miscigenação na área
do Rio Negro, e criando vínculos de parentesco
e compadrio entre os comerciantes brancos e os índios,
abrindo assim espaço para alguns cunhados
indígenas que atuavam com pequenos intermediários
entre eles e os fregueses.
Conheça também o relato do
baré Braz de Oliveira França sobre
a história do contato com a sociedade não
indígena.
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