|
Como revela a pesquisa de Michael Heckenberger
(2001), pode-se recuar à pré-história
do Alto Xingu até o final do primeiro milênio
de nossa era. No período entre os anos 800 e
1400 uma população aí se estabeleceu,
deixando entrever por certos vestígios, tais
como uma cerâmica característica e aldeias
circulares, que se tratava de ancestrais dos atuais
Aruak xinguanos, que teriam migrado a partir do ocidente.
Entre os anos 1400 e 1600, erguem-se grandes
aldeias fortificadas, cercadas por valetas escavadas
(com as dimensões até de 2,5 km de comprimento,
15 m de largura e 3 m de profundidade), que envolviam
uma superfície de 20 a 50 hectares, com aterros
ao lado da praça central e dos caminhos radiais,
dando a impressão, pela distribuição
da terra preta, que a população era mais
densa no centro que na periferia. Vale lembrar que trabalhos
de terraplanagem são característicos de
povos Aruak de outras regiões do continente.
No final desse período, torna-se manifesta a
presença de uma população de cultura
diferente, numa área mais a leste, à margem
direita do Kuluene (ou Xingu), que a tradição
oral dos atuais Karib xinguanos reconhece como sendo
de seus ancestrais. Convergindo com essa hipótese,
o etnólogo Robert Carneiro (2001) relata um mito
kuikuro referente à origem do lago Tahununu,
em cujas margens asseguram ter habitado. Os locais de
habitação eram claramente diferentes do
modelo atual, constituídos por uma ou duas grandes
malocas circulares; assim como era diferente a maneira
de fazer cerâmica.
O período entre os anos de 1600 e 1750
começa com os efeitos indiretos da presença
européia no continente sobre os habitantes indígenas
do Alto Xingu, e termina com o enfrentamento face a
face destes com os bandeirantes. Conseqüentemente,
as fortificações aruak definham. Nessa
época, os Tupi ancestrais dos Kamayurá
e Aweti chegam na área.
O período 1750-1884 começa com
as ditas incursões bandeirantes e termina com
a primeira visita de Karl von den Steinen. Um depoimento
de um chefe kuikuro (Atahulu) dado à lingüista
Bruna Franchetto em 2000 (Franchetto, 2001) aborda de
maneira muito sugestiva esse período, focalizando
os massacres feitos pelas incursões bandeirantes,
seguidas de uma fase em que os brancos devolveram os
poucos prisioneiros indígenas que haviam levado
com eles e ainda lhes deram presentes, e, finalmente
a chegada de Kálusi, isto é, Carlos (Karl
von den Steinen). Nesse período se aproximam
os Trumai e os Bakairi, consolidando o sistema multiétnico
alto-xinguano, e ainda outros povos que se mantiveram
periféricos a esse sistema, como os Suyá
e os Ikpeng.
|