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O peixe, o beiju e mingaus (estes dois últimos
feitos a partir do processamento da mandioca "brava")
constituem os principais itens da alimentação
dos povos do sul do Parque. As etnias das regiões
norte e central comem carne vermelha e possuem uma agricultura
mais variada. De todo modo, a pesca e a agricultura
representam o núcleo das atividades produtivas.
No Alto Xingu, a produção de mandioca
é feita em roças cultivadas pelas famílias
nucleares, mas que contam com o apoio de todo o grupo
doméstico e são coordenadas por seu líder,
o chamado dono da casa. Os homens preparam
a roça e as mulheres retiram a mandioca do solo.
Na aldeia, a mandioca é processada pela mulher,
que dela extrai a poupa e o polvilho, ambos ingredientes
fundamentais para o preparo do beiju. A retirada do
suco venenoso da mandioca se faz pela prensagem da massa
dentro de uma pequena esteira de talos enrolada. Outro
alimento que se obtém da mandioca é o
mohete (em kamaiurá), caldo grosso e adocicado
que resulta da fervura da água que lavou a polpa.
Depois de secos, a polpa de mandioca e o polvilho
são armazenados dentro da casa em grandes recipientes
arredondados, que são utilizados de modo indiferenciado
por todos. O beiju é assado pelas mulheres em
chapas de cerâmica. Come-se beiju a toda hora:
com peixe assado ou ensopado, apenas com pimenta, puro
ou dissolvido na água, ou ainda sob a forma de
mingau.
O peixe, a seu turno, representa a principal
fonte regular de proteína animal. São
várias as técnicas utilizadas, cada qual
exigindo diferentes formas de cooperação.
A técnica do timbó, que consiste no envenenamento
de águas previamente represadas, envolve a participação
da maioria dos homens da aldeia. Os peixes mortos, quer
pelo efeito do veneno, quer flechados, são moqueados
no próprio local da pescaria. Menor número
de homens participa da pesca com rede de nylon, cujas
operações dispensam cooperação
mais ampla. Já as várias formas de pesca
com arcos e flecha, pequenas redes nativas, armadilhas
e anzol são realizadas por um ou dois indivíduos,
ou entre os membros da família nuclear.
Enquanto na seca o peixe faz parte da dieta
de todo dia, nas chuvas sua relativa escassez é
compensada com alimentação mais variada,
como milho, mamão, abóbora, melancia,
entre outros. A agricultura ainda inclui o cultivo de
outras plantas tanto para fins cerimoniais (como urucum
e fumo), como para atender à produção
de diversos bens artesanais (como cabaça e algodão).
A caça de algumas aves e pequenos animais,
assim como a coleta de frutos silvestres, colaboram
também para uma alimentação variada,
mas desempenham papel secundário no que diz respeito
à produção de alimentos. Com relação
à caça, o trabalho masculino é
quase sempre individual, sendo os principais objetivos
garantir alimento para a harpia, substituir o peixe
na dieta de pessoas atingidas por tabus alimentares
e obter penas para a produção de artesanato.
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Na coleta, o trabalho é usualmente coletivo
e envolve a participação de mulheres e
crianças. Os principais produtos são mel,
pequi, jenipapo, mangaba, formigas, ovos de tracajá
e lenha. Dentre eles, a castanha extraída do
pequi destaca-se dos demais como alimento cerimonial
distribuído por ocasião das cerimônias
inter-aldeias. O fruto do pequizeiro abunda o auge das
chuvas, em janeiro e fevereiro, e cada aldeia costuma
ser circundada por extensas plantações
dessa árvore. O pequi é processado na
época da coleta e é em parte armazenado
sob a água até a época do Kwarup
(na estação seca), quando, junto ao peixe
moqueado e ao mingau de mandioca e beiju, constitui
o alimento cerimonial por excelência. O pequi
é comido cru, asssado ou diluído no mingau
de mandioca.
Entre os outros povos do Parque, os Kaiabi destacam-se
por uma agricultura sofisticada, cultivando diversas
espécies de amendoim, macaxeira, cará,
batata-doce, mangarito e banana. Além de produzir
outros tipos de beiju, os Kaiabi também fazem
grande variedade de mingaus com produtos da roça
e frutas. Os Yudjá, a seu turno, são conhecidos
pela produção do caxiri (mingau de mandioca
fermentada), que atualmente também é consumido
pelos Kaiabi, Suyá e Trumai. Entre estes quatro
povos e os Ikpeng há um maior consumo de caça,
incluindo animais como o porco e a anta, que não
são consumidos pelos alto-xinguanos.
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Em relação à produção
de artefatos e indumentária, os artigos de metal,
dos quais depende a quase totalidade das atividades
produtivas masculinas, não substituíram
integralmente o artesanato indígena usado pelas
mulheres na produção de alimentos. Assim,
panelas e caldeirões de metal competem com as
cuias usadas no transporte e armazenamento de água,
sem entretanto, ameaçar a posição
das panelas de cerâmica, obtidas através
da troca com o grupo wauja.
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Grande parte dos materiais empregados na elaboração
do artesanato é de origem nativa madeira,
embira, fibra de buriti, algodão etc. Mas usam-se
também produtos industrializados, como contas
e miçangas de porcelana e vidro, fio de lã
e de algodão, lata, prego, corante etc. Dentre
esses itens, o fio de lã compete com o de algodão
nativo e tende em alguns casos (como para a confecção
de redes de dormir) a substituí-lo integralmente.
Outros, como as contas e miçangas, altamente
valorizadas na elaboração de colares e
cintos, não diminuíram a importância
dos similares nativos de contas de caramujo
produzido pelos Kalapalo e Kuikuro.
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O artesanato representa ainda uma importante alternativa
econômica de comércio para fora do Xingu.
Além das iniciativas familiares, a Atix (Associação
Terra Indígena do Xingu) assumiu o desafio de intermediar
essas transações com as comunidades kaiabi,
yudjá e suyá, procurando definir estratégias
que possam ampliar o relacionamento com o mercado especializado
em artesanato indígena no Brasil. A orientação
desta iniciativa, que conta com parceira do ISA, é
conciliar geração de renda com a sustentabilidade
ambiental das matérias-primas utilizadas na confecção
dos principais produtos comercializados, como a preocupação
com o impacto exercido sobre as aves para a confecção
da arte plumária.
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Além do comércio com artesanato,
recentemente muitas aldeias têm se desenvolvido
outros projetos de alternativas econômicas voltados
para o mercado externo. Dois exemplos são os
projetos de apicultura e de produção de
óleo de pequi, ambos em parceria com o ISA. No
caso da Cooperativa do Mel, participam do projeto as
aldeias suyá, trumai, ikpeng, yudjá e
kayabi. Cada uma produz e colhe o mel, que é
enviado para uma casa "Central do Mel", no
posto Diauarum, onde é embalado e enviado para
Canarana, de onde é comercializado para o Rio
de Janeiro e São Paulo. Em média, a produção
resulta em duas toneladas de mel por ano.
Já a produção de óleo
de pequi envolve as aldeias ikpeng, trumai, kamaiurá,
yawalapiti, kalapalo, wauja, suyá, matipu, nafukuá,
kuikuro e mehinako. O tipo de pequi produzido no Xingu
não é encontrado em outras regiões,
sendo ainda um produto diferenciado pelo manejo agrícola
que envolve, bem como pelo significado social e cosmológico
da espécie para esses povos. A idéia é
unir esforços de todas as aldeias para que se
possa chegar a uma escala suficiente para venda a uma
grande empresa de cosméticos, sem abrir mão
da produção artesanal.
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