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Um dos motivos centrais da cosmologia no Alto-Xingu
é a diferença entre os modelos originais
dos seres, presentes nos mitos, e suas atualizações
posteriores. Por exemplo, costuma-se dizer que o pequizeiro
original dava frutos muito maiores, com polpa abundante
e caroços pequenos; que as primeiras flautas
eram espíritos aquáticos, mas seu descobridor
as escondeu, fabricando réplicas de madeira,
que jamais puderam reproduzir a voz potente do original.
Os primeiros seres humanos foram entalhados em madeira
pelo demiurgo, que também tentou ressuscitá-los;
como fracassou, a morte definitiva passou a ser comemorada
no na cerimônia do Kwarup, onde troncos dessa
mesma madeira servem de símbolo do morto. Os
gêmeos Sol e Lua, além de modeladores dos
índios alto-xinguanos, são também
seus modelos, já que a maioria de suas aventuras
míticas consiste na realização
inaugural de práticas mais tarde adotadas pelos
humanos: luta, escarificação, xamanismo.
Assim, o mito não é apenas uma
coleção de eventos originários
que se perderam na aurora dos tempos; ele orienta e
justifica constantemente o presente. A geografia da
região é pontilhada de sítios onde
as ações míticas se desenrolaram;
as cerimônias se explicam pela iniciativa de seres
míticos; o mundo é povoado de seres imortais
que remontam à origem do mundo; os criadores
da humanidade ainda vivem no Morená. Em síntese,
o mito existe como referência temporal, mas, acima
de tudo, conceitual.
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As cerimônias estão estreitamente
vinculadas com o universo mítico. No Alto Xingu,
há duas espécies principais de rituais.
Existem as festas que recebem o nome de um espírito,
geralmente aquele identificado como causador da doença
que acometeu o promotor da festa, e que se restringem
ao âmbito da aldeia. Os participantes ativos desse
tipo de ritual - dançarinos, cantores e músicos
- representam visual ou musicalmente esse espírito.
As cerimônias da outra categoria envolvem várias
aldeias do Alto Xingu, como a celebração
dos aristocratas mortos (mais conhecida por seu nome
kamaiurá, Kwarup) e o duelo de dardos (Jawari,
em kamaiurá). Esta última classe de cerimônias
foi instituída pelos gêmeos Sol e Lua.
As aldeias participantes, no mito, são compostas
de animais que vivem em meios diferentes, como animais
terrestres versus pássaros, ou peixes versus
animais terrestres.
Em geral, o que se faz nesses rituais interaldeias
é algo que está descrito em um mito, mas
que não é apenas uma simples repetição
ou encenação sua. O que o rito celebra,
de fato, é a impossibilidade de uma repetição
idêntica: "agora só vai ter festa",
disse o demiurgo ao fracassar na tentativa de ressuscitar
os primeiros seres humanos que morreram, inaugurando
assim a mortalidade (a descrição dessa
celebração está no item "o
longo ritual do Kwarup"). Em suma, o ritual
é um modelo icônico reduzido dos sucessos
sobrehumanos descritos no mito.
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A fabricação primordial dos humanos,
de acordo com a mitologia alto-xinguana, foi obra de
um demiurgo que deu vida a toras de madeira dispostas
em um gabinete de reclusão, ao soprar-lhes fumaça
de tabaco. Assim foram criadas as primeiras mulheres,
entre elas a mãe dos gêmeos Sol e Lua,
arquétipos e autores da humanidade atual. Em
homenagem a essa mulher foi celebrada a primeira festa
dos mortos, que é a mais importante do Alto Xingu
e que consiste, portanto, em uma reencenação
da criação primordial, sendo também
o momento privilegiado de apresentação
pública dos jovens recém-saídos
da reclusão pubertária. Assim, é
um ritual que enreda a morte e a vida; as moças
que saem da reclusão são como as primeiras
humanas, mães dos homens.
Os primeiros humanos foram portanto fabricados
em uma câmara de reclusão. As moças
de madeira transformaram-se em gente depois de encerradas
em gabinetes de palha semelhantes àqueles que
abrigam os adolescentes dentro da casa dos seus pais.
Ecoando esse mito de origem, a fabricação
da pessoa no Alto-Xingu envolve diversos períodos
de reclusão, todos concebidos como momentos de
fabricação do corpo: a couvade (restrições
impostas aos casais com filhos recém-nascidos),
a puberdade, a doença, a iniciação
xamanística e do luto. Essa fabricação
do corpo é também uma modelagem da personalidade
ideal, sobretudo no caso da reclusão pubertária,
a mais importante.
Em contraste a com esses períodos fabricação
corporal, marcados pela reclusão e a liminaridade,
a exibição do corpo atualiza marcas de
status social (sexo, idade, papel ritual) e caracteriza
a vida pública, o pátio da aldeia, o confronto
com outras aldeias da região e o pátio
cerimonial. Tal contraste parece marcar fortemente a
vida no Alto Xingu, que se desenrola como oscilação
entre esses dois momentos complementares, cuja dinâmica
resulta na construção da pessoa nessas
comunidades. O pátio, a fala do pátio,
a luta corporal, a dança, a exibição
(tipicamente masculina) da própria individualidade
no centro da aldeia só existem articulados com
o gabinete de reclusão, seu silêncio e
seu segredo, a fabricação demorada do
corpo a regras de contenção alimentar
e sexual.
A cosmologia e os rituais dos outros povos do
Parque são específicos, de modo que sugerimos
uma visita a suas respectivas páginas: Ikpeng,
Kaiabi, Suyá
e Yudjá. Ademais,
as páginas dedicadas a cada etnia do Alto Xingu
também destacam suas singularidades em meio a
esse repertório comum.
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