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São vários os desafios para se obter
a sustentabilidade do Parque Indígena do Xingu.
Alguns destes têm suas raízes no histórico
de constituição de uma Terra Indígena
bastante diversificada internamente - tanto do ponto de
vista sociocultural como ecológico - em cujo entorno
o processo de ocupação vem se dando de modo
perigosamente desordenado. Por outro lado, há os
desafios que surgem do próprio fato dessas sociedades
indígenas terem hoje de se adaptar em situação
de confinamento geográfico.
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A esse quadro, acrescenta-se ainda uma significativa
alteração na política de gestão
do Parque. Aquele Estado mediador, provedor, paternalista
que atuou no PIX desde sua criação, em
1961, abre mão, cada vez mais, de muitas de suas
responsabilidades históricas. Assim, os índios
estão tendo que fazer algo com que nunca precisaram
preocupar-se: organizar-se politicamente para gerir
os assuntos que surgem de sua inevitável articulação
com o mundo exterior ao Parque.
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Se processos que ocorrem fora do PIX afetam diretamente
seu interior, a sustentabilidade do Parque não
depende apenas das atitudes dos índios e dos não-índios
que, como a equipe do ISA, atuam dentro dele. Ou seja,
é preciso desenvolver maneiras de fazer política
para fora do Parque, identificando possíveis
aliados e buscando sensibilizar os órgãos
públicos pertinentes e o público em geral
para o que vem acontecendo na região do Xingu,
tendo em vista que não se trata de problemas que
afetam exclusivamente os índios, mas também
a defesa da biodiversidade da Amazônia.
Com esse objetivo em mente, a simples denúncia
do processo predatório na região é
insuficiente, se não vier acompanhada de dados
que apurem e mostrem, mais precisamente, o que vem ocorrendo
e o que se pode disso esperar. Para tanto, foi iniciado
pelo ISA um Diagnóstico Socioambiental da
Região dos Formadores do Rio Xingu, cujo
objetivo é a abertura de uma interlocução
ampla e qualificada a respeito de políticas públicas
para o modelo de desenvolvimento da região do
rio Xingu. Como disciplinar esse modelo? Como fazer
com que ele, em primeiro lugar, cumpra a legislação
existente e, depois, também possa ir além
dessa legislação que nem sempre cumpre
as exigências da sustentabilidade socioambiental?
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Apesar de algumas novidades positivas nesse sentido
- como a criação do ICMS ecológico
no Mato Grosso e certos programas dos governos estadual
e federal -, a região do Xingu ainda é pautada
pela mentalidade que desenvolvimento é sinônimo
de derrubada da mata, monocultura, criação
de gado etc. O tempo de se iniciar uma discussão
efetiva a respeito do modelo de desenvolvimento regional
já se está exaurindo.
Além das articulações externas,
é preciso ter em mente os desafios postos no
interior do Parque. Sua população, que
se aproxima dos quatro mil habitantes, com uma taxa
de crescimento de cerca de 3% ao ano, não tem
para onde se expandir. Conseqüentemente, a vida
nas aldeias segue um padrão de progressivo sedentarismo,
em contraposição ao tradicional seminomadismo.
O entorno predatório, que tolhe o fluxo de fontes
de proteína animal para o interior do Parque
(caça, peixes etc.), encarrega-se de completar
um quadro onde a reprodução dos recursos
naturais passa a ser problemática, com tendência
a agravar-se.
A palha de inajá, por exemplo, usada
na construção das habitações
indígenas, já é rara em algumas
aldeias. Nas condições atuais, o manejo
tradicional de quelônios tem sido dificultado.
O uso descontrolado do fogo também exaure recursos
naturais. O mesmo vale para o comércio exterior
de artesanato, que estimula o uso de determinadas espécies
numa escala maior do que quando a produção
de objetos da cultura material voltava-se, exclusivamente,
para o uso e trocas internos.
Toda essa situação não
permite mais adiar o diálogo que nossa sociedade
demorou a iniciar com os índios do PIX. Quanto
tempo levou para nos darmos conta dos limites para a
reprodução de determinados recursos naturais?
Quantos não se extinguiram até que surgisse
a consciência da necessidade de se tomar alguma
atitude para que outros não continuassem a ser
extintos? É claro que a entrada dos índios
nessa discussão vem acompanhada de particularidades
importantes. Na sociedade ocidental, a relação
do homem com a natureza e com os recursos naturais tem
tantos níveis de mediação que se
perde a noção da origem dos mesmos. Neste
sentido, a posição dos índios,
que dependem da natureza mais diretamente e controlam
essa relação com maior facilidade, é
comparativamente favorável. Por outro lado, dadas
suas próprias condições tradicionais
de existência, muitos índios principalmente
as gerações mais velhas - têm dificuldade
em operar com a noção de finitude, isto
é, em aderir à idéia de
que se não mudarem sua estratégia de manejo
dos recursos naturais, alguns desses podem, simplesmente,
deixar de existir.
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