 |
::01 |
 |
Os índios que habitam o Parque Indígena
do Xingu possuem um histórico do contato com a
sociedade não-indígena peculiar em relação
à maioria dos outros índios no Brasil, uma
vez que tiveram como principal agente mediador do contato
um etnólogo (Karl von den Steinen), ao invés
de bandeirantes, fazendeiros, garimpeiros ou missionários.
Ademais, não foram assistidos diretamente pelo
SPI (Serviço de Proteção aos Índios),
mas pela Fundação Brasil Central, representada
pelos irmãos Villas Bôas. E, no caso do Alto
Xingu, muito antes do contato desenvolveram um complexo
interétnico de rituais e trocas especializadas,
criando fortes vínculos que dificultaram a inserção
do universo cultural dos brancos.
Foram as duas expedições do etnólogo
alemão Karl von den Steinen, de 1884 e 1887,
que deram aos brancos o conhecimento da existência
dos povos indígenas dessa região. Partindo
de Cuiabá e atravessando o rio Paranatinga, no
divisor de águas Xingu-Tapajós, a equipe
alcançou os Baikairi de Paranatinga e manteve
breve contato com os Suyá na primeira viagem.
Na segunda, subiu o Kurisevo e deteve-se entre os povos
do Alto Xingu.
Depois de Stein, sucederam-se visitantes à
região, como Hermann Meyer (que publicou escritos
sobre a viagem em 1897, 1898, 1900), Hintermann (1925),
Petrillo (1932) e Max Schmidt (1942). Tais expedições
estimularam a procura por instrumentos de metal (como
facas, tesouras, machados) e a disseminação
de doenças contagiosas entre os xinguanos.
De um modo geral, os povos que habitavam a região
mais ao sul do atual Parque não alteraram muito
a sua posição desde os tempos de Steinen,
com exceção dos Bakairi e dos Trumai,
sem dizer daqueles que se extinguiram como grupo: Kustenau,
Naravute, Tsuva e Aipatsé. Os Bakairi serviram
de guias das primeiras expedições etnográficas,
sendo por isso responsabilizados pelos alto-xinguanos
pela introdução de moléstias e
acusados de feitiçaria. Além disso, os
Bakairi, que viviam em pelo menos oito aldeias na bacia
xinguana, passaram a procurar instrumentos de metal
junto a membros de seu povo fora dela, que viviam a
sudeste (no Rio Paranatinga). Progressivamente, foram
se fixando junto deles, num movimento estimulado pelo
SPI com a criação de um posto em 1920,
de modo que em 1923 se retiraram totalmente dos formadores
do Xingu (Cf. Barros, 2001).
Os Trumai, por ocuparem o território
compreendido entre os formadores do Rio Xingu e a região
às margens deste rio, sofreram repetidos ataques
de grupos que habitavam tais áreas, como os Suyá
e os Ikpeng. O etnógrafo Karl Von den Steinen
os encontrou já bastante fragilizados em 1884.
Depois de habitarem em diferentes sítios, em
uma história acidentada, hoje possuem quatro
aldeias principais situadas a meio-caminho entre os
postos Leonardo Villas-Bôas e Diauarum.
A área mais ao norte do Parque, a seu
turno, estava no raio de ação dos Suyá,
que tinham suas aldeias no rio Suiá-missu, afluente
da margem direita do Xingu. Também nela começavam
a se instalar os Yudjá, vindos do norte (Steinen,
na sua descida do Xingu em 1884, encontrou-os no Pará,
no trecho entre as cachoeiras de von Martius e de Piranhaquara).
É provável que os Yudjá estivessem
se deslocando havia mais de dois séculos desde
as margens do Amazonas, das quais se afastaram pela
pressão e perseguição dos colonizadores
no final do século XIX.
Na primeira metade do século XX, os xinguanos
continuaram a ser alcançados somente por terra,
pelo sul. É também no sul que os índios
procuraram os instrumentos de ferro, no posto instalado
no Paranatinga. As expedições de pesquisa
rareiam, mas é desse período o primeiro
estudo voltado para um povo específico do Alto
Xingu, os Trumai, que foram visitados pelo etnógrafo
Buell Quain em 1938, o qual, entretanto, não
completou a pesquisa e cujos dados, depois de sua morte,
foram analisados e publicados por Robert Murphy.
Nesse período, os Suyá passaram
por reveses que reduzem drasticamente sua população.
Os Yudjá, ora aliados, ora adversários,
armados por um seringalista, atacaram a aldeia suyá
em algum momento após 1915. Tempos depois, durante
uma coleta de pequi no local onde hoje está o
Posto Diauarum, os Suyá sofreram um ataque dos
Menkrãgnoti, do qual só escapam alguns
homens, que ficaram praticamente sem mulheres. Em busca
de parceiras, os Suyá atacaram então os
Wauja, mas sofreram a retaliação deste
povo, que promoveu uma expedição contra
eles, com ajuda dos Mehinako, Trumai e Kamaiurá.
Em 1946, a FBC (Fundação Brasil
Central), fruto da Marcha para Oeste promovida
pelo regime do Estado Novo, começa a se instalar
na região, iniciando a era dos irmãos
Villas Bôas. Para Cláudio, Leonardo e Orlando
Villas Bôas, os povos do Xingu representavam "índios
de cultura pura, que deveriam ser preservados
das frentes de expansão econômica que estavam
sendo inauguradas na região. Nesse sentido, iniciam,
com o apoio de Marechal Rondon, do sanitarista Noel
Nutels e do antropólogo Darcy Ribeiro, entre
outros, e forte oposição do governo e
dos fazendeiros de Mato Grosso, uma campanha para a
demarcação das terras indígenas
locais.
Nesse período, ergue-se uma base da Força
Aérea Brasileira em Jacaré, no rio Kuluene,
entre a foz do Kurisevo e do Batovi. São abertas
as primeiras pistas de pouso nos formadores do Xingu
e pesquisadores, funcionários da FBC, médicos,
cinegrafistas, entre outros agentes, passam a entrar
na área trazidos por aviões do Correio
Aéreo Nacional. A via de acesso por terra, com
passagem pelo Posto de Paranatinga, perde a importância.
Antropólogos do Museu Nacional, como Eduardo
Galvão e Pedro Lima, retomam a pesquisa etnológica.
Também etnólogos estrangeiros voltam a
pesquisar na área, como Robert Carneiro e Gertrude
Dole entre os Kuikuro.
Ironicamente, apesar das facilidades que estavam
sendo criadas, ocorre em 1954 um surto de sarampo que
afeta todas as aldeias alto-xinguanas, provocando a
morte de 114 pessoas. Dos cerca de 3.000 alto-xinguanos
que havia no tempo de von den Steinen, a população
chega a um de seus pontos mais baixos: 574 pessoas.
Apesar dos esforços, as condições
de saúde ainda continuavam precárias,
tanto que o ponto mínimo da população
alto-xinguana ocorre em 1965, quando desce a 542 pessoas
(Cf. Heckenberger, 2001).
Se a região tinha sido até então
ocupada por índios que migravam, não propriamente
de modo espontâneo, mas forçados por condições
adversas nas suas regiões de origem, agora passavam
a ser buscados nas áreas vizinhas e transferidos
para o Parque, caso representassem obstáculo
à abertura de estradas e à colonização.
Foi o que aconteceu com os Kaiabi, Ikpeng, Panará
e Tapayuna, todos colocados na porção
norte do Parque.
Os Kaiabi viviam na região regada pelos
altos cursos dos formadores do Tapajós: o Juruena
e o Teles Pires. Na bacia do Juruena, estavam no Alto
Arinos e seu afluente, o Rio dos Peixes; na do Teles
Pires, estavam no alto desse rio e no seu afluente,
o Rio Verde. Fortemente pressionados por diferentes
frentes de expansão desde as últimas décadas
do século XIX, como a da extração
da borracha, a do garimpo e a dos colonos agrícolas,
viram-se estranhos em sua própria terra e sua
população decresceu. Tendo entrado em
contato com o pessoal da FBC, que avançava na
direção de seu território pelo
Rio Manitsauá-missu e que lhes dispensava bom
tratamento, parte dos Kaiabi aceitou o convite para
transferir-se para o Xingu. Sua transferência
se deu em diferentes levas, em 1955, 1966 e 1970, e
sua produção agrícola passou a
abastecer os postos de Diauarum e Leonardo. Os missionários
católicos de Diamantino, entretanto, se opuseram
à migração dos Kaiabi para o Xingu.
Assim, uma parte ficou em suas terras de origem, o que
possibilitou o reconhecimento de uma Terra Indígena
Kaiabi.
 |
::02 |
 |
Os Ikpeng (também conhecidos como Txikão)
teriam feito parte de um conjunto étnico maior
com os índios Arara. Tomando a direção
do sul, teriam saído na primeira metade do século
XIX do Rio Iriri, afluente do Baixo Xingu. Viveram depois
na bacia do Teles Pires, nas vizinhanças dos Kaiabi,
Panará e Apiaká. No final do século
XIX, chegaram ao Rio Batovi, atacando os Wauja, Nahukwá
e Mehinako. Alcançaram também os rios Paranatinga
e Novo, mantendo-se nas proximidades dos Bakairi.
Em 1960, os Wauja e seus aliados atacaram os Ikpeng
com armas de fogo e mataram doze homens. Além
disso, metade da população ikpeng morreu
em um surto de gripe. Os sobreviventes se refugiaram
no alto rio Jatobá, afluente do Ronuro, onde
os irmãos Villas Bôas os encontraram em
1964. Defrontados com a penetração garimpeira
desse território, aceitaram transferir-se para
o Parque em 1967. Levados para o Posto Leonardo, tiveram
casamentos com os Wauja, Kamayurá e Mehinako.
Em 1979, ergueram sua própria aldeia na parte
central do Parque, entre os Trumai e os Kaiabi.
Outros dois povos, Tapaiuna e Panará
(ambos da família lingüística Jê),
também foram trazidos pelos sertanistas para
dentro do Parque Indígena do Xingu, mas, depois
de alguns anos, voltaram a se retirar. Os Panará
reconquistaram parte de seu território tradicional,
homologado como TI Paraná, e os Tapayuna mudaram-se
em 1987 para as aldeias Metyktire e Kremoro, do povo
Metyktire, na TI Capoto/Jarina, onde permancem.
 |
::03 |
 |
Desde a criação do Parque, em 1961,
Orlando Villas Bôas ocupou a direção
por 17 anos, estabelecendo um programa de assistência
médica aos índios por meio de um convênio
com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),
existente até hoje. Tomou ainda uma série
de medidas que procuraram impedir ao máximo o contato
dos habitantes do PIX com o exterior, numa atuação
controvertida, acusada por alguns de excessivamente paternalista,
sobretudo pela transferência dos povos Kayabi, Ikpeng,
Tapayuna e Panará para o Parque, como se este representasse
a única opção para seu futuro.
O estabelecimento do posto indígena como
mediador das relações entre as aldeias
teve repercussões complexas, impondo um centro
fixo ao um sistema descentralizado. Desencorajou as
hostilidades entre os povos do Alto Xingu e as etnias
ao norte do Parque, convertendo-se em um polo de referência
política. Mas também interferiu na estrura
de poder interno às aldeias, ao promover uma
nova categoria social: aquele que protagoniza a mediação
entre o grupo e o posto (e os brancos em geral, uma
vez que o posto também se constitui no centro
de "redistribuição" dos visitantes).
Os que passam a ocupar esse papel não necessariamente
coincidiam com o de líder da aldeia. Houve assim
uma tendência à duplicação
das posições de controle e mediação,
sendo que os mediadores aldeia/posto recebiam mais apoio
da administração, pois possuíam
maior domínio da língua portuguesa e maior
facilidade de adaptação às novas
condições, entre outros fatores (Cf. Castro,
1977).
De todo modo, a gestão da FBC possibilitou
uma assistência diferente daquela proporcionada
aos demais povos indígenas no Brasil, orientada
com um forte componente pessoal e apoiada no prestígio
que haviam angariado junto à sociedade nacional,
ao conseguir manter o Parque relativamente isolado das
influências que costumam alterar com rapidez as
culturas indígenas e das invasões que
os põem numa situação de dependência.
Promoveu assim uma postura mais respeitosa do restante
da sociedade aos índios do PIX, diferente do
que ocorria em outras partes do país e do mundo.
|