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ARTE E COSMOLOGIA   
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ARTE E COSMOLOGIA

A falta quase absoluta de manifestações plásticas -- da pintura corporal à cerâmica --, sempre atribuída ao "esquecimento" da cultura tradicional, pode ser melhor entendida como uma vontade de omitir os signos que, aos olhos dos brancos, os caraterizariam como "índios". Em aldeias afastadas, como a do Iaco, são ainda praticadas.

Em troca, a arte oral e musical Yaminawá é muito rica. Além dos belos cantos xamânicos, conhecidos por poucos, homens e mulheres têm seus yamayama (chamados assim pelo bordão que une as estrofes), cantos líricos individuais de teor erótico e apaixonado, que descrevem os sentimentos do autor e as peripécias de sua vida. Eis alguns exemplos (versões livres, baseadas na tradução de Arialdo Correia):

Dorme, filha, cantarei a cantiga
que os nossos sempre cantaram;
para ver os mortos em sonhos;
para ver o pai voltando da pesca.

Sou infeliz; cresci sem ver meu pai,
só vi estrangeiros.

Meu pai morreu, quero também morrer logo,
e acabarão minhas mágoas.

Mas não irei ao Céu.

Virarei o rosto para não ver o urubu
e ficarei mais embaixo,
lá onde os meus mortos moram.

(Nazaré, aprox. 35 anos)

Canto porque te amo; mas tu me amaste só quando era moça,
quando não havia casa e dormiamos no chão, quando ia embora e voltava nos teus braços chorando.

Mas não gosto de um homem que quer provar todas as mulheres...

...

Meninos devem casar
com uma mulher mais velha, que os faça adormecer;
quando cresçam, gostarão dela.

Infeliz de mim;
meu rosto já está velho, e os meninos não me desejam,
eu queria perguntar às mais novas
o que fazem para atraí-los...

(Luzia, aprox. 45 anos)

Gostava de ti, irmãzinha,
gostava de te ver deitada,
me alegrava tua voz.

Como gostava de ti, irmãzinha --
na hora do amor puxavas meu sexo,
e eu te deitava na madeira mole
da árvore caída: vamos fazer amor
como fazem dois estranhos.

Quando morrer quero
que me enterrem contigo.

(Clementino, aprox. 75 anos)

A narrativa tem um gênero dominante: o dos shedipawó, "histórias dos antigos". Há alguns excelentes narradores, que fazem do relato um espetáculo ritmado, com jogos de vozes e efeitos de som; mas as histórias são conhecidas por todos. As mulheres e mesmo as crianças gostam também de narrar, porém com um repertório em geral restrito a relatos de tema humorístico ou zoológico. Os shedipawó Yaminawá poderiam ser descritos como mitologia historificada: os mesmos acontecimentos que outros povos situam num início dos tempos ou atribuem a seres mais ou menos divinos aparecem em boca dos Yaminawá como aventuras de um antigo, um indivíduo dramático e concreto.

Os Yaminawá parecem pouco interessados na exegese: não há desse modo um discurso articulado a respeito deste ou de outros mundos -- além das próprias narrações.

Os shedipawo têm três cenários habituais: o fundo das águas, a mata fechada e o céu. O céu Yaminawá é sempre um lugar de decepção: os seres humanos se perdem a caminho dele, as tentativas de estabelecer contato com seus habitantes acabam em fracasso. A selva é o lugar da guerra e das metamorfoses: os seres trocam suas identidades, se devoram e casam entre si; sob cada forma visível há um "espírito" (nhusi, yoshi) capaz de transmigrações. O mundo das águas participa desse mesmo panorama, mas nele põem os Yaminawá o seu olhar mais esperançoso: lá estão as grandes cobras d’água, as Ronoá, que oferecem aos homens suas riquezas: o ferro, as mercadorias, a ayahuasca.

 
Oscar Calavia Sáez
oscar@cfh.ufsc.br
Universidade Federal de Santa Catarina
fevereiro de 1998
 
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