| Os Yaminawá
praticam uma agricultura de subsistência quase
monopolizada pela macaxeira e a banana. Dispõem
em geral de caça abundante; a pesca, ao menos
na aldeia do rio Acre, é pobre durante boa parte
do ano. Sua integração econômica
no mundo branco é secundária e marginal;
os salários e as aposentadorias obtidos do FUNRURAL,
de projetos educativos ou desenvolvimentistas estão
em geral comprometidos, a crédito, com comerciantes
de Assis Brasil. Salários como diaristas, ou
o produto da venda de banana, peixe ou caça,
servem em geral para financiar as viagens e estadias
em Assis Brasil e Rio Branco. Os empreendimentos de
criação de bovino ou suíno ou de
plantação de arroz são individuais
e pouco significativos, assim como as atividades extrativas.
A pressão dos brancos sobre os seus territórios
-- em geral fronteiriços com áreas de
preservação -- resume-se à ação
individual de pescadores ou caçadores. A eventual
pavimentação da ligação
rodoviária Acre--Peru por Assis Brasil--Iñapari
pode alterar essa situação.
As aldeias Yaminawá são um agregado de
pequenos casarios, cada um dos quais pode reunir um
"velho" com suas filhas e genros, ou dois "velhos" cunhados
cujos filhos casam entre si, ou um grupo de irmãos
com suas famílias. O conjunto das casas familiares,
palafitas construídas sobre os barrancos do rio
no estilo das casas seringueiras, equivale à
maloca coletiva do tempo antigo, e é designado
pelo nome daquela, peshewa. O chefe do grupo
pode nuclear um assentamento maior, congregando à
sua volta várias famílias e jovens solteiros;
mas esta concentração costuma ser passageira.
Os Yaminawá se dividem em um número indeterminado
de kaio, que seriam clãs de caráter
"totêmico" e de linha paterna, e cujo conjunto
em geral coincide com o dos etnônimos: Xixinawá,
Yawanawá, Bashonawá, Xapanawa... No aspecto simbólico
essa divisão parece um desdobramento do dualismo
comum entre os grupos Pano: a tradição
indica que as relações com os animais
epônimos observam alguma das regras que definem
a conduta com os consangüíneos. Mas não
deve se exagerar a transcendência nem a objetividade
dessas unidades "parentais": dependendo do contexto,
um Yaminawá pode ser contabilizado em kaio diferentes.
A residência pode também modificá-lo:
um kaio predomina em cada aldeia e acaba funcionando
essencialmente como etnônimo. Freqüentemente
segregadas em função de conflitos, as
diversas aldeias acabam operando também como
grupos exogâmicos: poderíamos dizer que
as rixas acabam sendo uma condição prévia
da aliança matrimonial.
Mais de perto -- quando se observa um pequeno
grupo residencial, e sobretudo quando se interroga as
mulheres -- o aspecto da sociedade Yaminawá é
dualista: os habitantes de uma peshewa são
classificados em duas metades (por exemplo, Xixinawá
e Yawanawá), respectivamente consangüíneos
ou afins do ponto de vista de um ego. Os "desagregados"
Yaminawá expõem, assim, visões alternativas
de uma mesma organização. Uma -- a que
privilegia as "metades" -- depende de um ponto de vista
local, "sociológico" e predominantemente feminino;
a outra -- a que insiste na pluralidade de grupos -nawa
-- é global, histórica e parte habitual
de um discurso masculino.
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