| Qual seria,
então, o sujeito e o fio da história desse
povo? Devemos pensá-los como um feixe de linhas
que se entrecruzam. Os Yaminawá do rio Acre situam o
começo da sua história em duas grandes
aldeias: uma sobre o rio Moa -- não o afluente
do Juruá, mas um outro menor, do rio Iaco --
e outra entre os rios Iaco e Tahuamanu. Dali se deslocaram
para as cabeceiras do Chandless, onde tiveram seus primeiros
contatos pacíficos com os brancos, no caso caucheiros
peruanos ou bolivianos. No rio Shambuyacu, no Peru,
conviviam com Sharanawa, Marinawá e Mastanawa, que intermediavam,
geográfica e comercialmente, com os brancos,
como faziam mais ao noroeste os Shipibo. As relações
com esses outros grupos Pano levavam regularmente ao
conflito e à fuga dos Yaminawá mata adentro.
Eles por sua vez exerciam a mesma função
em relação a outros grupos nawa
mais "selváticos", que acabaram incorporando.
Depois de um longo período em que alternam
as aproximações pacíficas e as
correrias -- protagonizadas em muitos casos por índios
Manchineri aliados aos seringalistas -- os Yaminawá
vão estabelecendo relações diretas
com patrões brancos, entre o rio Acre e o Iaco.
Em 1968 um grupo de algo mais de cem Yaminawá -- debilitados
por repetidas epidemias -- se instalam no seringal Petrópolis,
assumindo certo grau de dependência dos brancos,
fato inédito até então. Os informes
da FUNAI, que se instala no Acre em 1975, descrevem
uma situação clássica: alcoolismo,
prostituição, desorganização
do grupo e exploração econômica.
É estabelecido nesse ano um Posto Indígena,
que quebra o monopólio do seringal. Com esse
apoio, os Yaminawá se instalam rio acima, na área
Mamoadate, que congrega duas aldeias Yaminawá (Bétel
e Jatobá) e uma Manchineri (Extrema). Em 1989,
provavelmente em função de desavenças
internas e da vontade de se aproximar mais do mundo
branco, um grupo considerável dirigido pelo chefe
José Correia Tunumã migra para o rio Acre,
onde já morava outro grupo de Yaminawá. Consolida-se
assim a Terra Indígena Cabeceiras do Rio Acre,
interditada em 1988, cuja declaração de
posse permanente, oficializada em 6/3/92, alcança
um área total de 78.512 hectares, no município
de Assis Brasil, fronteira com o Peru. Em 1998, teve
sua homologação publicada no Diário
Oficial da União
Há outras aldeias com as que os Yaminawá
reconhecem vínculos próximos de parentesco.
A primeira, conhecida como "A Escola", em
território boliviano, a umas duas horas de canoa
a partir de Assis Brasil, é uma aldeia organizada
em volta de uma missão protestante, com uma população
próxima dos duzentos habitantes Yaminawá do subgrupo
Yawanawá. Em Brasiléia, no Bairro Samaúma,
habita um contingente Yaminawá desgarrado do grupo do
Iaco desde 1987, por causa de um conflito interno. Desde
a cisão têm sido conhecidos com o nome
de Bashonawá. Os Bashonawá de Brasiléia, carentes
de terras, vivem em uma situação precária
sem roças nem fontes fixas de renda.
Nos rios Iaco e Purus há mais Yaminawá.
No primeiro encontra-se o sítio Guajará,
que conta com uma comunidade. A montante, a Terra Indígena
Mamoadate congrega na aldeia Bétel pouco mais
de cem Xixinawá. No rio Purus, existe o grupo de Paumari,
em que se contam oitenta ou noventa indivíduos
Kaxinawa e Xixinawá, e famílias nucleares dispersas
e misturadas com "peruanos". Próximo à
fronteira peruana do Purus, alguns deles têm se
deslocado para Sepahua, no rio Urubamba, e estão
vinculados a uma missão católica dominicana.
Em território peruano existem ainda algumas comunidades
Yaminawá no rio Purus e outras na área do alto
Juruá, nos rios Mapuya e Huacapishtea. Os Yaminawá
brasileiros têm vagas notícias a seu respeito.
Outros grupos conhecidos como Jaminawa no Brasil, como
os da aldeia Igarapé Preto, carecem de relação
com os Yaminawá aqui descritos. Os Yaminawá costumam
se instalar em estreita relação com outros
povos indígenas: no Brasil, especialmente com
os Manchineri, de língua da família arawak.
Relações maritais são freqüentes
entre ambos os grupos, mas não são consideradas
matrimônios legítimos. Do mesmo modo, a
visível mestiçagem com os "brancos"
não tem dado lugar a uma categoria de "mestiço":
a alteridade dos brancos é assimilada dentro
do conjunto de alteridades que já organiza as
relações entre os diversos grupos nawa.
Deve-se advertir o leitor da precariedade destes
dados, por causa das freqüentes rearticulações
dos grupos. Pouco depois do final da minha pesquisa
de campo, em 1993, o assassinato de um Yaminawá em Brasiléia,
pelas mãos de um Bashonawá residente nessa cidade,
acabou provocando uma cisão no grupo do rio Acre.
Dois grupos numerosos -- que freqüentavam a cidade
de Rio Branco -- foram realocados nos anos seguintes
em Santa Rosa -- no Alto Juruá -- e no rio Caeté;
um contingente considerável tem-se instalado
de modo mais ou menos permanente na capital. A população
total de Yaminawá no Brasil é difícil
de avaliar: os grupos aqui descritos devem reunir uma
cifra aproximada de 500 indivíduos.
Os Yaminawá contam no Peru com uma população
de 324 pessoas, segundo o censo de 1993. Na Bolívia,
de acordo com o livro Amazonia Peruana (1997),
são 630 indivíduos.
Os contatos dos Yaminawá com os missionários
têm sido esporádicos ou indiretos, primeiro
com os missionários católicos dominicanos
do Peru que se aventuravam nos seringais, depois com
os missionários evangélicos da Missão
Novas Tribos do Brasil, instalados junto aos Manchineri
na Terra Indígena Mamoadate, no rio Iaco. Na
Aldeia da Escola, na margem boliviana do rio Acre, tem
lugar uma catequização mais sistemática.
Até agora as missões não parecem
ter tido grandes conseqüências quanto à
cultura tradicional.
Nos últimos dez anos a presença
dos Yaminawá em Rio Branco tem se intensificado, seja
na Casa do Índio, seja em áreas de favela,
seja em precários acampamentos no centro da cidade
ou sob a ponte. As conseqüências são
graves: desnutrição de crianças,
sério risco de doenças sexualmente transmisíveis,
conflitos que acabam na delegacia ou na cadeia, sem
contar com o alto índice de alcoolismo que já
vem do tempo do seringal e na cidade se vê agravado
pela má alimentação. Essa atração
letal pela cidade é a face escura da colaboração
dos Yaminawá com as entidades indigenistas: o compromisso
político tem levado com demasiada freqüência
as lideranças Yaminawá para a cidade, privando
a comunidade de um centro de referência e de uma
instituição essencial para resolver os
conflitos. A FUNAI, sem possibilidades de atacar a raíz
do problema, tem reagido deslocando os sucessivos grupos
dissidentes para outras áreas, algumas -- como
Santa Rosa e Caeté -- muito distantes. Essa dispersão
é muito negativa para a defesa dos direitos territoriais
já adquiridos pelo grupo.
Os Yaminawá estão vinculados à
UNI-Acre desde a sua criação.
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