No padrão alto-xinguano, a aldeia yawalapiti
é circular, tendo as casas comunais circundando
uma praça limpa de mato. No centro da praça
(uikúka) ergue-se uma casa freqüentada
apenas pelos homens e destinada a ocultar as flautas
sagradas apapálu. É nesta casa,
ou em bancos diante dela, que os homens se reúnem
para conversar ao crepúsculo, e onde eles se
pintam para as cerimônias. A casa das flautas
é de construção semelhante às
residências, tendo, contudo, apenas uma ou duas
portas, voltadas para o centro, sempre menores que as
portas das casas. As flautas ficam penduradas na viga
mestra e durante o dia devem ser tocadas em seu interior;e
à noite (quando as mulheres já se recolheram)
os homens podem tocá-las no pátio.
A praça é também o lugar
onde se enterram os mortos de ambos os sexos, em um
túnel que liga dois buracos, aonde assentam dois
esteios que seguram a rede do morto (que fica no túnel),
para os mortos amulaw (categoria hereditária
de prestígio associada à posições
e funções de liderança e chefia),
ou em cova simples (pawá uti, "um buraco")
para os mortos não amulaw. No centro da
uikúka são também realizados
os banhos rituais de liberação do luto;
é lá onde o chefe profere seus discursos
e exortações; lá são distribuídos
os alimentos durante as cerimônias; lá
são recebidos os visitantes de outros grupos,
especialmente os mensageiros formais, que convidam para
cerimônias intergrupais dos povos do Alto Xingu.
O centro ainda é o lugar onde os membros dessas
diferentes aldeias se defrontam corporalmente, na modalidade
esportiva karí (ou huka huka, na
terminologia kamaiurá, como a luta ficou mais
conhecida).
As mulheres raramente vão ao uikúka,
ao não ser em certas cerimônias, quando
se invertem papéis sexuais (como o Amurikumálu,
que se chama Yamurikumã, em kamaiurá,
comentado na seção Parque
Indígena do Xingu), ou quando se trata de
moças reclusas que são apresentadas à
sociedade pela primeira vez. O centro é o lugar
visível por excelência, em contraste com
o gabinete de reclusão. Ir ao centro é
tornar pública a pessoa social - a saída
das moças e moços reclusos é um
movimento da periferia (no interior dos gabinetes de
reclusão, que ficam no interior das casas) para
o centro. (sobre a reclusão pubertária
no Alto Xingu, veja o item "Aldeia e sociedade" na seção
dedicada ao Parque).
::01 |
 |
Envolvendo a praça central, erguem-se
as casas (pá) cobertas de sapé
e formando idealmente um círculo (putáka
ríku). Uma casa abriga um núcleo geralmente
composto de uma família extensa virilocal (de
pais e irmãos com suas respectivas esposas) ou
de um grupo de homens que trocaram irmãs. Cada
casa forma uma unidade de cooperação econômica
relativamente independente das outras. Nesse espaço
se dorme, se cozinha, se morre, têm-se relações
sexuais, nascem os filhos e os adolescentes ficam reclusos.
O espaço interno da casa não comporta
divisões, exceto os gabinetes onde ficam os adolescentes
em reclusão pubertária, os casais com
filhos recém-nascidos e os viúvos no período
de luto. As famílias armam redes contiguamente;
as separações se fazem principalmente
no uso dos esteios que sustentam a extremidade interior
dessas redes, sendo um esteio para cada família
nuclear. Formando um leque, as redes são penduradas
ao longo das paredes, deixando o espaço central
para circulação próximo às
portas, que se abrem no eixo maior da casa, uma voltada
para a praça e outra para o exterior. É
perto dessas portas que se sentam aqueles que precisam
de luz para realizar alguma atividade, pois o interior
da casa é muito escuro.
No centro da casa, ao lado da porta traseira,
há um fogo comunal para a fabricação
de beiju, mas cada casal possui também um fogo
próprio, junto às suas redes, para cozinhar
e se aquecer. A água é guardada em grandes
panelas que ficam geralmente junto aos esteios centrais
da casa, perto da porta da frente.
A vida na aldeia começa entre 4:30 e
5:00 horas, quando as mulheres vão buscar água;
pouco depois, os rapazes vão tomar banho - este
banho na manhã fria é considerado benéfico
para o lutador -, e um pouco mais tarde vão os
mais velhos. Em seguida os homens partem para a roça,
lançando gritos agudos que marcam o mergulhar
na mata; ou então organizam uma pescaria. Ao
meio-dia, ou pouco antes, retornam para a refeição.
As mulheres passam a manhã processando a mandioca
trazida no dia anterior (ou na madrugada do mesmo dia),
e à tarde costumam ferver o mingau nukaya
(feito do suco venenoso dessa matéria-prima).
À tarde os homens descansam, fazem trabalhos
manuais ou vão pescar/caçar. No crepúsculo,
as famílias costumam ficar nas portas das casas,
conversando e manipulando mutuamente os corpos em atividades
como depilação, catar piolho e pentear
os cabelos. Os jovens se pintam e se enfeitam. Os homens
mais velhos dirigem-se ao centro, convocados pelo dono
da aldeia, para "fumar". Às 19:00 horas todos
começam a se recolher e as famílias nucleares
se reúnem em volta de seus respectivos fogos,
adormecendo por volta das 22:00.
|