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Para os Yawalapiti, o mundo mítico é
um passado que não se liga ao presente por laços
cronológicos restritos. Assim, o mito existe como
referência temporal e espacial, mas principalmente
comportamental. As cerimônias são a ocasião
por excelência de replicar esses modelos, mas sua
relação privilegiada com o mundo do mito
simboliza sobretudo a impossibilidade de sua repetição,
a não ser de modo imperfeito. O ritual é
portanto um momento em que o cotidiano está mais
próximo do modelo ideal mítico, sem no entanto
atingi-lo. (Os principais rituais do Alto Xingu estão
abordados na página Parque
Indígena do Xingu).
Segundo a mitologia yawalapiti (que compartilha
o repertório cosmológico alto-xinguano),
a fabricação primordial dos humanos foi
levada a cabo pelo demiurgo Kwamuty, que, soprando fumaça
de tabaco sobre toras de madeiras dispostas em um gabinete
de reclusão, deu-lhes vida. Ele criou assim as
primeiras mulheres, e entre elas a mãe dos gêmeos
Sol e Lua, protótipos e autores da humanidade
atual. Essa mulher foi a primeira mortal em cuja honra
se celebrou a primeira festa dos mortos, itsatí
(ou kwarup, em kamaiurá), a principal
cerimônia inter-aldeias do Alto Xingu (relatada
na página dedicada ao Parque).
Quando nasceram os gêmeos Sol e Lua dessa
mulher, vivia-se um tempo de caos, dominado pela noite
e a podridão (as aves defecavam sobre as pessoas),
não havendo fogo nem roças. Os vagalumes
eram a única luz acessível aos homens.
Os gêmeos conseguiram então obter o dia
do "dono do céu" (añu wikiti),
o urubu invisível de duas cabeças, atraindo-o
por meio de uma isca podre. Este urubu comanda os pássaros,
que deram o dia (a luz) aos homens, sob a forma de adornos
feitos com as penas da arara vermelha (o sol mítico
usa cocar e braçadeiras feitos de penas dessa
ave).
A maioria dos rituais yawalapiti originou-se
da visita de um humano a um dos domínios - terra,
água e céu - que constituem esferas bem
marcadas na classificação yawalapiti,
definindo as linhas mestras da classificação
animal e recebendo valores cosmológicos distintos.
A terra é diversificada, conforme a vegetação
e a referência a eventos míticos. A distinção
principal nesse domínio é entre a "selva"
(ukú), onde moram animais e espíritos,
e a aldeia (putaka), morada dos humanos. Nos
rios (uiña) e lagoas (iuiá),
além dos peixes, moram a maioria dos espíritos
importantes para os Yawalapiti. No céu (añu
naku; añu taku) residem as almas dos
mortos; lá é o império dos pássaros,
chefiados pelo urubu bicéfalo, "dono do céu".
Na "barriga da terra" (wipiti itsitsu), embaixo
do chão, mora uma mulher-espírito, gorda,
com um seio só; ela amamenta os mortos femininos
e copula com os masculinos; é a "dona da terra".
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A categoria "gente" (ipuñiñiri),
segundo a cosmologia yawalapiti, distingue "índios"
(warayo) e "brancos" (caraíba),
tanto pela aparência física (que faz com
que japoneses e chineses sejam classificados como warayo-kumã:
"outro índio", "índio misterioso") como
pela cultura material. Dentre os índios, os grupos
do Alto Xingu são tidos como uma unidade (putáka),
em contraste com os outros povos. Os warayo em
geral distinguem-se dos putáka por terem
um regime alimentar diferente - todos comem apapalutapa-mina,
"animais terrestres" -, por serem "bravos" (Kañuká)
e imprevisíveis, bem como pelo corte de cabelo
e adornos diferentes. Warayo é um termo
usado pejorativamente pelos yawalapiti quando alguém
demonstra ausência de vergonha (parikú).
Além de compartilharem uma série
de costumes, concepções e rituais inter-societários,
outro marco distintivo dos índios do Alto Xingu
é um ideal de comportamento respeitoso e recatado,
cujas categorias-chave, na versão yawalapiti,
são parikú (vergonha) e kamika
(respeito). Parikú refere-se a um
estado psicológico do indivíduo, comumente
acionado quando há uma transição
ou confusão de papéis - como entre reclusos
ou entre possíveis esposos- ou inferioridade
hierárquica - como entre genro e sogro, ou no
caso das mulheres em meio aos homens. Já kamika
é atributo de certas relações e
papéis sociais, remetendo ao comportamento pacífico
e previsível, bem como à generosidade
e respeito aos afins e àqueles hierarquicamente
superiores. É respeito, mas é também
"medo", no sentido da evitação de coisas
perigosas. Ao contrário do kamika típico
dos alto-xinguanos, associado ao adjetivo mañukawã
("manso", "calmo"), há o comportamento kánuká,
violento e imprevisível, típico dos warayonaw
(índios de fora do Alto Xingu).
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