Baré
Narrativa do Baré Bráz de Oliveira França
(Rio Negro/ AM - 1999):
Aicué curí uiocó, paraná-assú
sui, peruaiana, quirimbaua piri pessuí [Vai
aparecer do rio maior, o maior e mais poderoso inimigo de vocês].
Foi com essa mensagem que Ponaminari, o grande mensageiro de Tupana,
tentou prevenir todos os povos que dominavam estas terras antes
de 1500. Talvez os pajés e os chefes imaginassem que este
poderoso inimigo fosse uma epidemia, ou a ira dos ventos, revolta
das matas, ou mesmo vingança de Curupira. Mas em nenhum
momento eles imaginaram que o inimigo seria o homem branco, vindo
do meio do mar, conforme testemunharam os olhares Tupiniquim,
Tupinambá e quem sabe outros povos nativos da costa Atlântica.
Muitos anos depois, essa mesma história se repetiria nas
terras dos valentes Xavante, Kaiapó, Juruna e Kayabi no
Centro-Oeste, entre os Tarumã, Baré e Manao, na
confluência dos rios Negro e Solimões, e entre os
Tukano, Baniwa, Desana e outros no extremo norte, no alto rio
Negro.
Possivelmente, esses brancos foram recebidos com grande surpresa
e admiração, mostrando-se por sua vez, com cara
de bons amigos, oferecendo presentes, tentando se comunicar através
de gestos e sinais. Em seguida, voltaram a seu país de
origem, para comunicar ao rei a descoberta de novas terras, habitadas
por indianos bugres ou indianos selvagens. Com essa notícia,
o rei de Portugal deve ter, naturalmente, enviado para estas terras
vários navios com milhares de pessoas, com autorização
para ocupar e dominar o maior espaço possível do
território então ocupado por seus verdadeiros donos,
a custa de qualquer preço.
Enquanto isso, o povo jamais poderia imaginar a tamanha barbaridade
que o homem branco seria capaz. Não sabiam que a partir
de então estava decretado o genocídio, o etnocídio,
os massacres e as opressões dirigidos àqueles que
passaram a ser chamados de índios.
No rio Negro, habitado ao longo de todo o seu curso pelo povo
Baré, e em seus afluentes pelos Tukano, Desana, Arapasso,
Wanano, Tuyuka, Baniwa, Warekena e outros, ocorreram as mesmas
violências. Povos e aldeias inteiras foram dizimados pelos
invasores franceses, holandeses e portugueses. Comerciantes brancos,
credenciados pelos governadores das províncias, eram portadores
de carta branca para praticarem qualquer ato criminoso contra
os povos indígenas. Nem mesmo o grande cacique guerreiro
Wayury-kawa (Ajuricaba) conseguiu livrar seu povo
dos carrascos invasores, pois a luta era totalmente desigual:
enquanto os índios lutavam com suas flechas e zarabatanas,
os brancos disparavam poderosos canhões contra homens,
mulheres e crianças que tentavam impedi-los de entrar em
suas terras. Mas mesmo dominado, preso e ferido, Ajuricaba preferiu
a morte, jogando-se acorrentado ao rio.
Hoje, 500 anos depois, ainda lembramos das tristes histórias
contadas pelos nossos avós. Eles diziam que os primeiros
comerciantes que apareceram no rio Negro traziam consigo mercadorias
como fósforo, terçados, machados e tecidos, com
que tentavam convencer os índios a produzir borracha, castanha,
balata, piaçaba, cipó titica e outros produtos naturais.
Como essas mercadorias despertavam pouco interesse entre os índios,
eles passaram a usar a violência, atacando aldeias e aprisionando
homens e mulheres para levá-los aos seringais, castanhais,
sorvais ou piaçabais localizados nos rios Brancos, Uacará,
Padauiry e Preto. Muitos nunca mais voltaram desses lugares, uns
porque não resistiam aos maus tratos dos patrões,
outros porque eram vítimas de doenças contagiosas,
como febre amarela, gripe, varíola ou sarampo. Ainda hoje,
há descendentes dos Baré, Tukano, Baniwa e Warekena
que vivem nesses rios, em uma vida de escravidão. Há
pessoas de mais de 60 anos que sequer conhecem o rio Negro, mas
apenas a lei do patrão.
Até as primeiras décadas do século XX,
era de praxe o branco ter a seu serviço homens
e mulheres indígenas, seja para simples trabalhos domésticos
ou para trabalhos mais sacrificados, como servir como remadores
nas grandes canoas que saíam de Tawa (São Gabriel)
até Belém do Pará, levando produto e trazendo
mercadoria, numa viagem que demorava de seis a dez meses. Muitos
remadores não conseguiam retornar, mortos durante a viagem
pelo patrão. Aqueles que iam para extrair borracha ou outros
produtos eram obrigados a produzir uma determinada quantidade
para entrega e, caso não atingissem sua cota, eram açoitados
no terreiro do barracão. Os que eram obrigados a assistir
esse espetáculo deviam dar risadas para não terem
o mesmo destino.
Nessa mesma época, apareceram os primeiros missionários.
Eles tinham o propósito de aldear os índios, com
a intenção de livrá-los das garras dos patrões
e submetê-los a crer em Deus através da evangelização
católica. Essa investida, no entanto, foi pior do que qualquer
sofrimento físico, pois obrigaram os índios a abandonar
várias de suas práticas culturais, como as curas,
as festas de Dabucury, os rituais de preparação
dos jovens e suas formas de homenagear e agradecer o grande criador
do universo. Tudo isso virou ato diabólico na lei dos missionários.
Nos grandes prédios das missões, foram criadas escolas
onde os índios eram obrigados a falar a língua portuguesa
e a rezar em latim.
Nas primeiras décadas do século também
se instalou na região do baixo rio Uaupés, na Ilha
de Bela Vista, a família Albuquerque. Um desses que se
fez conhecer por Manduca, não por ser bom, mas por ser
perverso e bêbado, recebeu o título de Diretor de
Índios pelo antigo SPI. Manduca Albuquerque fazia questão
de divulgar sua fama pelos rios Uaupés, Tiquié e
Papuri. Toda a população desses rios tinha que ser
seu produtor de borracha e farinha. Nessa época, ele comprou
um dos primeiros motores da região, com que transportava
sua produção e seus homens, mas os índios
tinham que remar mesmo quando o motor estava funcionando e só
podiam viajar sentados ou deitados. Conta-se que um dia ele viajou
com seu motor até Manaus, quando alguns índios decidiram
matar um de seus capangas mais perversos. Quando Manduca chegou,
ao saber da notícia, mandou seus capangas prenderem todos
os homens e mulheres de um determinado lugar para conversar com
ele. Quando esse pessoal chegou, ele já estava em estado
de embriaguês e ordenou que todos fossem amarrados ao pé
de uma laranjeira onde havia um enorme formigueiro, até
o dia seguinte. Ordenou então que todos embarcassem para
que ele, pessoalmente, os levasse de volta. Nessa viagem, em meio
a uma grande bebedeira de cachaça, ordenou que três
de cada vez caíssem na água. Então começou
a disparar com seu rifle 44 na cabeça de cada um, e assim
matou todos.
Nas décadas de 50 e 60, nos rios Uaupés, Tiquié,
Içana e Xié o produto industrializado chegava através
dos chamados regatões (comerciantes ambulantes), que também
se aproveitavam da mão-de-obra barata dos índios.
Na sua mercadoria, sempre tinha a cachaça, com a qual embriagava
os homens, para abusarem sexualmente das mulheres, casadas e solteiras,
como forma de pagamento das dívidas contraídas pelos
pais e maridos.
Apesar de todo esse passado de violência e massacres,
podemos registrar alguma coisa como vitória: a demarcação
das cinco terras indígenas no alto rio Negro, confirmando
mais uma vez a profecia do grande mensageiro de Tupana, o Purnaminari.
Em uma de suas visitas a seu povo, muito irritado, disse: - Puxí
curí peçassa amun-itá ruaxara, maramên
curí pemanduari ixê, aramém curí peiassúca,
peiaxiú paraná ribiiuá upê, pemucamém
peruá, pericú-aram maam peiara, Tupanaumeém
ua peiaram. [Vocês agora vão ser dominados
por outras pessoas, até quando vocês se lembrarem
de mim, aí então vocês irão ao rio
tomar banho e chorar mostrando suas caras, para que assim eu vos
reconheça e Tupana devolva aquilo que sempre foi de vocês].
Analisando essa grande profecia, vemos que o povo de Tupana
não era unicamente o povo Baré. Concluímos
que os povos tinham que passar por esse longo período de
sofrimento. Mas depois que se reconhecessem, começariam
então a reconquistar seus direitos originários,
agiriam como índios, brasileiros, amazonenses, sangabrielenses.
A grande conquista do reconhecimento dos mais de 10 milhões
de hectares de terras demarcadas no rio Negro resultou de uma
luta que foi conseqüência desse passado. Mesmo assim,
se alguns dos nossos antepassados nos vissem no estado em que
estamos e lhe perguntássemos por que eles há 500
anos viviam livres e tranqüilos, certamente nos responderiam:
Nós não éramos índios!
Baré-mira iupirungá (Origem do povo Baré)
Kuíri açú ambêu penãram,
maiê taá baré-míra iupirungá
[Agora eu contar para vocês a história da origem
do povo Baré], diziam os nossos historiadores do passado.
E começavam a história dizendo:
Antigamente, ainda no início do mundo, entrou no rio
Negro, vindo do rio maior um grande navio, cheio de gentes no
seu interior e cada um com seu par. Apenas um homem viajava neste
mesmo navio, pelo lado de fora pois o mesmo não foi aceito
dentro por não estar acompanhado. Ao passar pela foz do
rio Negro viajava tão próximo das margens do rio,
que os passageiros viram que havia muitas pessoas na margem, inclusive
o homem que viajava pelo lado de fora, o qual não resistindo
à tentação, logo se jogou para fora e nadou
para a margem do rio. Ao alcançar a beira, ele foi agarrado
por um grupo de mulheres guerreiras, que tinham o costume de aceitar
apenas mulheres em seu grupo. Quando tinham necessidade de ter
filhos, aprisionavam machos de outras tribos e dessa relação,
se nascesse mulher elas criavam, e se fosse homem elas o matavam.
Esse seria o destino do homem que nadou até o navio, para
quem deram o nome deMira-Boia(Gente-Cobra), se não
fosse sua estrutura física ser um pouco diferente dos que
elas já conheciam, por isso resolveram poupar-lhe a vida
depois de terem submetido Mira-Boia a um rigoroso teste de masculinidade.
As guerreiras então, prepararam uma grande festa na primeira
lua cheia, grande fogueira no centro do pátio foi feita,
muitas frutas e mel silvestre foram coletados. A festa com os
rituais rolaram durante oito dias. No final da festa, o grupo
tomou a seguinte decisão: Mira-Boia ficaria morando com
um grupo com a condição de gerar um filho com cada
uma delas. Teria que dormir três noites com uma mulher que
estivesse na época do seu período fértil.
Terminando essa missão, ele seria executado, assim como
todo filho que nascesse homem.
Mira-boia então passou a conviver como grupo por um longo
período, nessas condições, até que
gerasse filho com a última mulher, e essa última
era a Tipa[Rouxinol], uma jovem muito bela que estava
no primeiro período de menstruação. Ela,
por ser a mais nova, a mais bonita e muito querida pelo grupo,
teve o privilégio de morar com Mira-Boia até que
sua gestação aparecesse visualmente para o resto
do grupo. Devido a isso Tipa e Mira-Boia passaram a viver uma
vida a dois e quando ela percebeu que já estava gestante,
descobriu também que estava perdidamente apaixonada pelo
companheiro. O mesmo acontecia com Mira-Boia. Como o destino do
nosso herói seria a morte, ela conseguiu convencer o seu
já considerado marido para uma fuga. No primeiro período
de lua nova ele e ela fugiram, aproveitando o momento em que as
guerreiras saíram para caçar e coletar mel e frutas,
o que serviria de consumo nos dias da festa da execução
do homem que dera para o grupo muitas guerreiras de sua geração.
Foram viver distante dos demais grupos. Acredita-se que esse local
tenha sido nas proximidades de Mura no baixo rio Negro.
Depois de mais ou menos 30 anos, a família já
estava grande, Tipa e Mira-Boia todos os dias pela tarde curtiam
sua felicidade juntos com os filhos e filhas de sua geração.
Com isso eles viram que podiam ser uma família muito maior.
Foi então que Tupana ordenou que viesse até eles
o seu Mensageiro, o qual se chamou Purnaminari para lhes dizer
o seguinte:
- "Aquilo que vocês estão pensando agrada
a Tupana, por isso ele me enviou, para ensinar vocês a trabalhar
e com isso garantir a comida de vocês todos os dias".
Ele então passou a morar com eles por um longo período,
ensinando-os a fazer canoa, remo, roça, armadilha para
pegar caça, peixe e treinar o novo grupo para guerra.
Quando o pequeno grupo já sabia de tudo que lhe foi ensinado,
Purnaminari organizou uma grande festa com Dabucury, Adaby e Curiamã
para preparar o povo na sua caminhada, dizendo: "Agora que
vocês já sabem de tudo o que eu lhes ensinei para
viver, voltem para a terra de Tipa e tomem todas as mulheres do
antigo grupo de Tipa para serem mulheres de vocês, aí
então vocês serão grandes e respeitados e
serão conhecidos por Baré-Mira (povo Baré)".
Purnaminari, o mensageiro de Tupana, voltou várias vezes
para visitar e instruir seu povo. O grupo cresceu bastante a ponto
de dominar totalmente a região do baixo e médio
rio Negro. Ao chegarem na Cachoeira de Tawa (São Gabriel)
permaneceram ali até que Purnaminari decidisse o novo destino
do seu povo. No entanto, nessa cachoeira Kurukui e Bururi desentenderam-se
e brigaram muito entre si, por isso resolveram separar-se, ficando
Kurucuí de um lado e Buburi de outro lado do rio. Essa
separação acabou provocando desobediência
às regras de Purnaminari, que ordenou ao povo não
se misturar com outros grupos, porém Kurucui e Baburi acharam
que para pode aumentar os seus grupos tinham que ter muitas mulheres.
Foi quando eles guerrearam com grupos menores para tomar suas
mulheres e se multiplicarem.
Assim Tipa e Mira-Boia fizeram e conseguiram serem pais de um
grande povo que, até a chegada dos brancos,
habitava o rio Negro desde a foz até as cachoeiras.

Sobre a narrativa e os Baré
A narrativa acima foi coletada e editada por Geraldo Andrello
(antropólogo, ISA/ Unicamp). O narrador, o Baré
Braz de Oliveira França, foi presidente da Federação
das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn)
entre 1990 a 1997. É o atual administrador-adjunto da Administração
Regional da Fundação Nacional do Índio (Funai)
de São Gabriel da Cachoeira.
Os Baré do Alto Rio Negro
Por Dominique Buchillet (antropóloga, Institut
Française de Recherche Scientifique pour le Dévélopment
en Cooperation - IRD):
Os Baré, um grupo indígena de origem Aruak, vivem
principalmente no Brasil, nos cursos médio e superior do
rio Negro, nos rios Içana e Xié (dois afluentes
do alto rio Negro) e na Venezuela, na região do canal Cassiquiara.
Considera-se que eles somam aproximadamente 1500 no Brasil. O
nome Baré deriva de bári, branco, um
termo que servia para diferenciar os brancos dos negros (Perez
1988). Os Baré englobariam vários grupos indígenas
citados nas fontes históricas como os Mandahuaca, Manaca,
Baria, Cunipusana e Pasimonare, não considerados propriamente
povos diferentes, mas clãs exogâmicos separados
de um tronco comum há aproximadamente 150-120 anos
(ibid.: 466).
No momento da conquista os Baré ocupavam um território
de mais de 165 mil km2, incluindo o curso médio e superior
do rio Negro, a região do canal Cassiquiare e o rio Mavaca
(ibid). Os Baré foram um dos primeiros grupos indígenas
do rio Negro afetados pelo contato. De fato, desde 1669, eles
estavam reunidos com os Baniwa e os Passé na Fortaleza
São José do Rio Negro (atual Manaus), forte militar
que servia de base para as incursões na região do
rio Negro, em busca de escravos.
Ao longo dos séculos foram, juntamente com outros grupos
indígenas, reunidos em diversas fortalezas e vilas, onde
eram submetidos ao trabalho servil. Sua língua vernacular
foi gradativamente substituída pela língua geral
e o português, assim como suas crenças, costumes
e tradições foram adaptados, aos poucos, ao modelo
português.
Até recentemente, eram considerados brancos pela Funai,
mas atualmente estão em um processo de reivindicação
de sua identidade étnica e de revitalização
da cultura ancestral.
