Desana
Nosso saber não está
nos livros!
Por Luiz Gomes Lana (Rio Tiquié/ AM, 1992):
Para nós, os Imiko-masã, A Gente
do Universo, isto é, os Desana, a humanidade inteira,
ou seja tanto os índios quanto os brancos, têm a
mesma origem. Quando Pamiri-gasiru, a Canoa-de-Transformação
chegou em Diá-peragobe wií,
[Cachoeira de Ipanoré, médio rio Uaupés,
região do alto rio Negro] os ancestrais da humanidade,
já em forma humana, começaram a sair pelo buraco.
O ancestral daqueles que iriam ser os brancos também estava
nesta canoa. Ele foi o último a sair. Yebá-gõãmi,
o nosso demiurgo, o mandou na direção do sul, dizendo
que lá ele poderia fazer a guerra, ele poderia roubar e
atacar as pessoas para sobreviver. Para nós, que somos
os irmãos maiores dos brancos, ele deu a ordem de ficarmos
calmos, vivermos unidos e de maneira pacífica. Mas para
o homem branco, ele deu a ordem de ganhar a sua vida pela violência,
de fazer a guerra, de matar.
Assim, quando os primeiros brancos chegaram na região,
os nossos avôs já sabiam que eles vinham para fazer
a guerra, porque Yebá-gõãmi havia
dito para o ancestral deles ganhar a sua vida pela violência.
Nós, nós somos calmos, nós não
fazemos a guerra! Nós vivemos de maneira pacífica.
Mas o branco gosta de violência. Ele gosta de fazer a guerra,
ele gosta de batalhar, ele gosta de matar, ele gosta de se apropriar
das coisas dos outros pela violência. A gente sabe muito
bem como ele é violento! Yebá-gõãmi
lhe deu uma espingarda como arma. A espingarda é o poder
do branco. Yebá-gõãmi lhe disse que
ele poderia obter todo o que queria com essa espingarda.
Com o branco, saiu também da Canoa-de-Transformação
o missionário. Os dois saíram juntos! É por
isso que, quando os nossos avôs viram o branco chegar com
a espingarda, eles já sabiam que ele estaria com o missionário.
E, de fato, quando o homem branco apareceu aqui, na nossa terra
[região do alto rio Negro], ele estava acompanhado do missionário.
Nós já sabíamos que o missionário
chegaria com o branco porque Yebá-gõãmi
o havia dito! Para o missionário, ele deu um livro [a bíblia]
para ele poder viver. Por isso, quando os nossos ancestrais viram
pela primeira vez o missionário com seu livro, eles já
sabiam que esse livro era o poder dele, a sua arma.
Nós sabemos muito bem que o livro [Bíblia]
é a arma do missionário. O outro branco possuía
como arma uma espingarda. Com essa espingarda ele pratica todo
tipo de violência. A gente vê muito bem que Yebá-gõãmi
falou a verdade! Ele tinha falado que o homem branco faria sua
vida roubando, matando, fazendo a guerra... É isso que
nós vemos hoje em dia. Nós vemos o branco entrar
na nossa terra à procura de ouro, de cassiterita... Ele
entra no nosso território com violência. Ele quer
ser o proprietário de todas essas coisas!
Para nós, que somos os irmãos maiores do homem
branco, Yebá-gõãmi deu o poder da
memória, a faculdade de guardar tudo na memória,
os cantos, as danças, as cerimônias, as rezas para
curar as doenças... Nós guardamos tudo isso na nossa
memória! Nosso saber não está nos livros!
Mas ao branco, que foi o último a sair da Canoa-de-Transformação,
ele deu o poder da escrita. Com os livros, ele poderia obter tudo
o que ele precisaria, ele havia dito. É por isso que o
homem branco chegou na nossa terra com a escrita, com os livros.
Assim, Yebá-gõãmi havia dito!
Yebá-gõãmi queria também
que a humanidade fosse imortal. Ele queria que a humanidade fosse
como são hoje em dia as aranhas, as cobras, as centopéias,
os camarões. Estes, quando velhos, trocam de pele e voltam
a ser jovens. Yebá-gõãmi queria também
que a humanidade trocasse de pele, mas ele não conseguiu.
Ele havia dado aos ancestrais da humanidade uma cuia de ipadu
[Erythroxylum coca var. ipadu] para lamber. Quando
eles viram aranhas, escorpiões e outros insetos venenosos
na beira da cuia, os ancestrais da humanidade não tiveram
coragem de se aproximar. Mas as aranhas, as centopéias,
os escorpiões não hesitaram e comeram o ipadu.
É por isso que eles trocam de pele quando velhos. É
o ipadu que lhes deu o poder de trocar de pele!
Havia também uma grande bacia de água. Yebá-gõãmi
mandou os ancestrais da humanidade tomar banho. O ancestral do
branco se precipitou, e se banhou. Se os índios, seus irmãos
maiores, tivessem sido os primeiros a tomar banho, a pele do seu
corpo teria virado branca, como é a pele do homem branco.
Mas quando os índios se decidiram a tomar banho, a bacia
virou e eles somente conseguiram molhar a planta dos pés
e a palma das mãos. É por isso que nós, os
índios, temos a planta dos pés e a palma das mãos
brancas! O branco, o nosso irmão menor, tem a pele branca
porque ele foi o primeiro a tomar banho na bacia. Foi isso o que
os nossos avôs contaram!

Sobre a narrativa
O depoimento de Luiz Gomes Lana foi coletado em português
pela antropóloga Dominique Buchillet (antropóloga,
Institut de Recherche pour le Développement en Cooperation
- IRD) em Brasília, junho de 1992, e publicado em francês
na revista Ethnies. Droits de lHomme et Peuples autochtones
(Paris: Survival International France, n° spécial
Chroniques dune conquête, 1993 n°
14, pp. 19-21).
Entre a bíblia e a espingarda: imagem desana do homem branco
Por Dominique Buchillet:
Os Desana, cuja autodenominação é Imiko-masã
Gente do Universo, são um dos 15 grupos indígenas
da família lingüística Tukano oriental que
moram, com outros povos das famílias lingüísticas
Arawak e Maku, na região do rio Negro, noroeste amazônico.
Somando aproximando 1.500 pessoas no Brasil, os Desana dividem-se
em umas 60 comunidades e sítios espalhados nas margens
do rio Tiquié e seus afluentes, como, por exemplo, os igarapés
Umari, Cucura e Castanha. Há também algumas comunidades
desana em afluentes do rio Papuri, como, por exemplo, nos igarapés
Turi, Ingá e Urucu da margem brasileira, e do rio Uaupés,
como o igarapé Japurá. Os Desana estão ligados
aos outros povos da região por um estreito sistema de relações
matrimoniais e/ou de trocas econômicas e cerimoniais.
Torami-kehíri, cujo nome português é
Luiz Gomes Lana, autor desse depoimento, pertence ao clã
Kehíripõra, os Filhos do Sonho,
que mora na comunidade de São João Batista no rio
Tiquié. Nascido em 1947, Luiz é o filho primogênito
de Firmiano Arantes Lana e de Emília Gomes (mulher tukano),
e é casado com Catarina Castro (mulher tukano) com quem
tem cinco filhos. Torami-kehíri e seu pai já
falecido Umusi Pãrõkumu (Firmiano Arantes
Lana) são autores da coletânea de narrativas míticas
Antes o Mundo não existia. Mitologia dos antigos
Desana-Kehíripõra (Unirt/Foirn, 1995, 2a.
edição; 1a. edição pela Livraria Cultura
Editora, 1980).
Após vários anos como capitão de São
João Batista, ele fundou em 1990 a Unirt (União
das Nações Indígenas do Rio Tiquié),
uma organização indígena filiada à
Foirn (Federação das Organizações
Indígenas do Rio Negro), da qual foi o presidente até
1994. Os principais objetivos da organização eram
a demarcação do território indígena
e a revitalização da cultura da região. Em
1992, ele construiu num terreno elevado, próximo de São
João, uma maloca no estilo tradicional, que deveria servir
de espaço de exposição e para a formação
cultural dos jovens.
De acordo com a tradição oral dos Desana, comum
a outros povos Tukano orientais, os ancestrais da humanidade subiram
o curso dos rios Amazonas, Negro, Uaupés e seus afluentes,
partindo do Oceano Atlântico numa canoa - a "Canoa-de-Transformação".
Durante a viagem, iam parando em numerosas casas de transformação,
nas quais faziam festas. A viagem sub-aquática na Canoa-de-Transformação
é assimilada à humanização e maturação
progressiva dos ancestrais da humanidade. Eles saíram por
terra, entre as cachoeiras de Ipanoré, no médio
rio Uaupés. Foi nesse lugar que a diferenciação
entre brancos e índios aconteceu. O ancestral dos brancos
foi então em direção ao sul, enquanto os
índios subiram o curso dos rios e afluentes procurando
um lugar bom para viver.
