Índios e ecologia
Mesmo
não sendo "naturalmente ecologistas", aos povos
indígenas se deve reconhecer o crédito de terem
manejado historicamente os recursos naturais de maneira branda,
provocando poucas perturbações ambientais até
a chegada dos conquistadores europeus.
Diferentes concepções
de "natureza"
Quem já pensou nos índios como homens "naturais",
defensores inatos da natureza, "naturalistas" está
a um passo de vê-los como mera extensão do meio ambiente:
deveriam ser "conservados" e mantidos à distância
do mundo "civilizado".
Essa visão deriva, no entanto, de uma concepção
da natureza que é própria ao mundo ocidental: natureza
como algo que deve permanecer intocado, alheio à ação
humana. O que os próprios povos indígenas têm
a dizer sobre o assunto é bem diferente.
As concepções da natureza certamente variam bastante
conforme o povo indígena que consideremos. Porém,
se algo parece comum a todos eles, é o fato de que a natureza
está sempre em interação com a ação
humana, não é jamais intocada.
Os Yanomami, por exemplo, utilizam a palavra urihi para se referir
à "terra-floresta": entidade viva, dotada de
um "sopro vital" e de um "princípio de fertilidade"
de origem mítica. Urihi é habitada e animada por
espíritos diversos, entre eles os espíritos dos
pajés yanomami, também seus guardiões.
A sobrevivência dos homens e a manutenção
da vida em sociedade, no que diz respeito, por exemplo, à
obtenção dos alimentos e a proteção
contra doenças, depende das relações travadas
com esses espíritos da floresta. Dessa maneira, a natureza,
para os Yanomami, é um cenário do qual não
se separa a intervenção humana.

Parceiros da preservação
ambiental
Apesar de não serem "naturalmente ecologistas",
os índios têm consciência da sua dependência
não apenas física, mas sobretudo cosmológica
em relação ao meio ambiente. Em função
disso, desenvolvem formas de manejo dos recursos naturais que
têm se mostrado fundamentais para a preservação
da cobertura florestal no Brasil.
Trata-se de um fato visível nas regiões onde o
desmatamento tem avançado com maior rapidez, como nos estados
do Mato Grosso, Rondônia e sul do Pará. Em levantamento
do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), por exemplo,
as Terras Indígenas aparecem como verdadeiros oásis
de florestas.
É fato que muitos povos indígenas, como os Suruí,
Cinta-Larga e os Kayapó, tenham se atrelado ativamente
a formas predatórias de exploração dos recursos
naturais hoje em vigor na Amazônia, fazendo alianças
principalmente com empresas madeireiras. Todavia, é preciso
reconhecer que eles o fizeram submetidos a pressões concretas,
contínuas, ilegais e como sócios menores desses
negócios.
Hoje e no futuro, é preciso procurar mecanismos para potencializar
as chances de os índios equacionarem favoravelmente o domínio
de terras extensas com baixa demografia. Um desses mecanismos
são as ainda incipientes formas de articulação
de projetos indígenas com estratégias não-indígenas
de uso sustentado de recursos naturais, sejam públicas
ou privadas.
Assunto polêmico são as sobreposições
entre Terras Indígenas
(TIs) e Unidades de Conservação (UCs).