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O Parque Indígena do Xingu e seu entorno

 

André Villas Bôas (Coordenador do Programa Xingu/ ISA) conta um pouco da história de ocupação predatória do entorno do Parque Indígena do Xingu (PIX), que ameaça seu futuro e pede esforços duradouros e articulados entre índios e não-índios. 

 

A parte substancial da área que compõe o Parque Indígena do Xingu (PIX) foi demarcada oficialmente em 1961. Os índios tiveram participação limitada nesse processo, que acabou deixando de fora do perímetro do Parque parcelas importantes dos territórios tradicionais de algumas das 14 etnias que nele vivem (Aweti, Ikpeng, Kalapalo, Kamayurá, Kayabi, Kuikuro, Matipu, Mehinako, Nahukwá, Suyá, Trumai, Waurá, Yawalapiti  e Yudjá). 

As cabeceiras dos principais formadores e afluentes do rio Xingu também foram excluídas dos limites oficiais do PIX. Assim, a calha desse rio, ao largo da qual os índios estão basicamente assentados, transformou-se numa espécie de “ralo” ambiental da região, na medida em que seus formadores recolhem e levam para o PIX os resíduos do que acontece fora dele.

Foi somente na década de 1980 que os índios começaram a perceber as conseqüências do adensamento da ocupação da região. No início da década de 90, fizeram-se sentir impactos mais contundentes – como desmatamento ilegal em áreas de mata ciliar, assoreamento e mudança na coloração dos rios e dificuldade crescente na pesca com flecha em determinados rios.

Em 1998, as queimadas em fazendas pecuárias localizadas a nordeste do Parque ameaçaram atingi-lo, o que provocou a mobilização dos órgãos públicos responsáveis. Também nessa época, o avanço das madeireiras instaladas a oeste do PIX começou a chegar perto dos limites físicos definidos pela demarcação. (A ocupação do entorno do PIX

Assim, os índios estão diante de sinais concretos de perigo, mais graves do que as primeiras invasões de pescadores e caçadores, ainda na década de 80. Entre os moradores do PIX, fortaleceu-se a percepção de que está a caminho um incômodo “abraço”: o Parque vem sendo cercado pelo processo de ocupação de seu entorno e já se evidencia como uma “ilha” de florestas na região do Xingu. Dessa percepção decorre um conjunto de ações que vem definir a questão ambiental como um dos principais focos de preocupação no PIX dos anos recentes.

Enfrentando a ameaça

Esse contexto motivou os índios a buscar apoio para o esboço de um projeto de fiscalização ostensiva dos limites do PIX, com o objetivo de proteger as áreas que propiciam um acesso direto ao Parque. Com assessoria do ISA para articular os apoios institucionais necessários e definir o conceito de trabalho, paulatinamente, uma infra-estrutura de Postos de Vigilância foi sendo criada, algumas vezes com a participação da Funai.

Hoje, existem dez postos localizados na intersecção dos principais rios com os limites do PIX e no ponto em que a BR-080 margeia esses limites. A questão da fiscalização é presença certa na agenda dos assuntos políticos do Parque, sendo discutida tanto em encontros de lideranças e assembléias da Atix (Associação Terra Indígena Xingu) como na interlocução com a Funai e os órgãos ambientais federal (Ibama) e estadual (Fundação Estadual do Meio Ambiente – Fema). No entanto, o sistema de postos, por si só, tem se mostrado insuficiente para enfrentar as situações criadas pelo entorno e vem sendo complementado por outras ações, reunindo diversas iniciativas: dos índios, da Funai e do Ibama, do governo de Mato Grosso e de ONGs.

Projeto Fronteiras

No ISA, há o Projeto Fronteiras, que visa ao desenvolvimento de um modelo de fiscalização capaz de viabilizar condições de os índios defenderem suas terras face a um contexto regional adverso, que pressiona seus recursos naturais de múltiplas formas, assolando o PIX, real ou potencialmente, ao longo de cerca de 900 km de perímetro (A Ocupação do Entorno do PIX).

Notando que as tradicionais formas indígenas de organização para o controle territorial não prevêem e não podem dar conta de processos de tamanha envergadura e complexidade, o Projeto entende que a fiscalização do Parque por parte dos índios depende de apoio e infra-estrutura adequados. Entende-se, ademais, que a montagem do sistema de Postos de Vigilância, embora importante, é insuficiente quanto à tarefa de instrumentalizar os índios para o enfrentamento dos problemas que vêm do entorno. As linhas de ação adotadas nesse sentido são as seguintes:

 

Monitoramento do entorno

Atualização, a cada três anos, do mapeamento da dinâmica de desmatamentos, através de fotos de satélite, e da identificação in loco de novos vetores de ocupação no entorno do PIX.

 

Reaviventação das picadas

Realização periódica, por parte dos índios, de limpeza e manutenção das picadas, placas e marcos que estabelecem os limites físicos do PIX. Esse trabalho permite que os índios acompanhem de perto o que acontece nas fronteiras do Parque e mobiliza as comunidades para as discussões acerca das ameaças externas. 

 

Articulação política

A operacionalidade do sistema de vigilância do PIX requer que os índios mantenham canais de interlocução e reivindicação junto aos órgãos públicos responsáveis pela normatização e fiscalização da ocupação do entorno do Parque que são, inclusive, quem detém o poder de polícia. O Projeto vem, por isso, fomentando a aproximação dos índios em relação à Funai e ao Ibama, instrumentalizando-os para esse debate. Frutos desse trabalho são o convênio assinado entre a Atix e a Funai no final da década de 90 e a aproximação do governo de Mato Grosso em relação ao PIX.

Estipulando o repasse anual de verbas, da Funai para a Atix, com a finalidade de manter a infra-estrutura dos Postos de Vigilância, esse convênio foi um passo inédito do indigenismo brasileiro. Embora as organizações indígenas tenham começado a despontar no Brasil já na década de 80, esse foi o primeiro convênio que a Funai assinou com uma entidade de representação dos índios. Representou o consentimento oficial para que os índios passassem a realizar e a gerir um trabalho que, tradicionalmente, sempre fora de responsabilidade do Estado: a vigilância de seu território.

 

Capacitação dos Chefes de Postos

Trata-se de um trabalho de cunho pedagógico, que procura oferecer aos Chefes de Posto subsídios necessários para o exercício dessa função (técnicas, conhecimentos etc.). 

 

Mapeamento e cadastro dos “vizinhos”

Há quatro anos vem sendo montado um banco de dados georreferenciados de todos os fazendeiros cujas propriedades fazem fronteira com o PIX, incluindo nome, endereço e telefone. Sabe-se que todo o perímetro do Parque está delimitado por grandes propriedades. A meta é o estabelecimento de uma convivência pacífica e permeada por princípios éticos entre os índios e seus vizinhos. É um pacto que pode tornar as fazendas uma espécie de “escudo protetor” contra a depredação do Parque, diminuindo, com isso, a necessidade de um esforço de fiscalização através de Postos de Vigilância.

Novos pleitos territoriais

Ao longo da década de 90, a preocupação dos índios com as ameaças externas resultou, ainda, num conjunto significativo de novos pleitos territoriais. Dois deles, atendidos, redundaram nas Terras Indígenas Wawi e Batovi. Por serem contíguas ao PIX, sua criação representa, na prática, um aumento da área por ele coberta. Outros três pleitos continuam em andamento na Funai.

O processo de mobilização das etnias do Xingu para enfrentar as ameaças que lhes chegam do entorno inclui um conjunto significativo de novos pleitos territoriais, que começaram a tomar corpo na década de 90. Essa movimentação iniciou-se com os Suyá (terra indígena Wawi) e os Waurá (TI Batovi).

 

TIs Wawi e Batovi 

No caso Suyá, houve um forte componente ambiental, pois foi a poluição das águas que chegam à sua aldeia que os impulsionou ao pleito. Sabedores de que lhes seria impossível obter o controle sobre o rio Suiá-Missu, já que ele se estende para muito além do Parque, os Suyá concentraram sua reivindicação no igarapé Wawi. Esse é um rio pequeno, cujas cabeceiras estão dentro do território do PIX e que corre próximo aos seus limites originais. O que houve, então, foi uma espécie de “acerto de conta”, por parte dos Suyá: de que, com a inclusão desse rio em suas terras, seria possível assegurar o controle sobre, pelo menos, toda uma sub-bacia. E assim fizeram. A terra Suyá (TI Wawi) foi demarcada, o mesmo ocorrendo em relação à reivindicação dos Waurá (TI Batovi). Ambas foram homologadas em 1998. 

 

Panará voltam “para casa” 

Outros grupos foram fazendo contas similares, visando recuperar o que fosse possível de seus territórios tradicionais. Foi esse o sentido do processo de saída do PIX dos Panará, que retomaram uma área próxima ao Rio Iriri. Retornando paulatinamente a sua terra de origem, em 1997 todos os Panará já haviam saído do Parque do Xingu. (Conheça o caso Panará).

 

Kaiabi, Kalapalo e fronteira sudeste 

Pleitos Kaiabi, Kalapalo e uma reivindicação coletiva, relativa à fronteira sudeste do Parque, estão atualmente em curso na Funai. No caso Kaiabi, a perda e degradação da região de onde são originários (bacia do rio Teles Pires) motivou uma reivindicação compensatória incidindo sobre a faixa de terra que está entre o limite oeste do PIX e a BR-080. 

Os Kalapalo, por sua vez, verificaram que a fronteira sul do Parque, na região do rio Kuluene, não abarcava uma região com grande incidência de pequizais, da qual eles tradicionalmente se serviam. Passaram então, a pleitear a inclusão de pelo menos uma parte dessa área no perímetro do PIX.

Em acréscimo, o processo de reativação das picadas, no bojo do Projeto Fronteiras (acima), conduziu os índios à percepção de que parte da fronteira sudeste do PIX tinha sido demarcada de forma muito complicada. Esse trecho da demarcação original tentou acompanhar o tortuoso percurso do rio, resultando numa linha, de aproximados 250 km, em ziguezague. Tentando reavivar esse limite, os índios deram-se conta de que a tarefa era impraticável, pois os ziguezagues impedem que se siga o eixo da picada. Surgiu daí uma reivindicação coletiva das etnias do Parque: que essa faixa de 250 km fosse transformada numa linha reta, para que eles pudessem ter uma orientação clara dos limites físicos do sudeste do PIX.

Política para fora do PIX

Se processos que ocorrem fora do PIX afetam diretamente seu interior, a sustentabilidade do Parque não depende apenas das atitudes dos índios e dos não-índios que, como a equipe do ISA, atuam dentro dele. Ou seja, é preciso desenvolver maneiras de fazer política para fora do Parque, identificando possíveis aliados e buscando sensibilizar os órgãos públicos pertinentes.

Na região do Xingu, estamos diante de um caso em que a relação entre a defesa da biodiversidade da Amazônia – uma das principais pautas da agenda política contemporânea – e a defesa da sociodiversidade, que diz respeito diretamente aos índios, é muito clara.

O Seminário de Avaliação da Biodiversidade da Amazônia Brasileira, realizado em Macapá em setembro de 1999, apontou várias regiões do rio Xingu como áreas críticas e concluiu que a defesa do rio é fundamental para a conservação da biodiversidade da Amazônia, sendo que parte da diversidade biológica existente nessa região está associada à ocupação indígena milenar na bacia do Xingu. Como exemplo, há o caso das áreas de terra preta verificadas dentro do PIX e no seu entorno. Embora ainda pouco estudadas, já se sabe que essas áreas são de origem antrópica e algumas de suas características ambientais devem-se à antiga presença de aldeamentos indígenas.

Do ponto de vista político, a importância dos índios na região do Xingu é inquestionável. Sua expressão na área da bacia do rio, que vai do Mato Grosso ao Pará, é muito grande. São 27 etnias, distribuídas por 26 terras indígenas, que correspondem a 38,5% da área da bacia. Todos esses aspectos hão de ser levados em conta quando se pensa num objetivo maior: a discussão de políticas públicas para disciplinar o processo de ocupação em torno das cabeceiras dos principais formadores do Xingu e minorar o impacto ambiental sobre o Parque e o próprio rio que é uma forte referência na problemática do futuro da Amazônia. 

Com esse objetivo em mente, a simples denúncia do processo predatório na região é insuficiente, se não vier acompanhada de dados que apurem e mostrem, mais precisamente, o que vem por lá ocorrendo e o que se pode disso esperar. Para tanto, foi iniciado pelo ISA um Diagnóstico Socioambiental da Região dos Formadores do Rio Xingu. Seu objetivo é a abertura de uma interlocução ampla e qualificada a respeito de políticas públicas para o modelo de desenvolvimento da região do rio Xingu. Como disciplinar esse modelo? Como fazer com que ele, em primeiro lugar, cumpra a legislação existente e, depois, também possa ir além dessa legislação que nem sempre cumpre as exigências da sustentabilidade socioambiental?

Apesar de algumas novidades positivas nesse sentido – como a perspectiva de criação do ICMS ecológico no Mato Grosso e certos programas dos governos estadual e federal – , a região do Xingu ainda é pautada pela mentalidade de que desenvolvimento é sinônimo de derrubada da mata, monocultura, criação de gado etc. O tempo de se iniciar uma discussão efetiva a respeito do modelo de desenvolvimento regional já se está exaurindo. (Equipe do ISA, a partir de entrevista com André Villas-Bôas – junho/ 2000).

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