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Diferentes estimativas | População indígena no Brasil | Quanto eram? Quantos serão?

Diferentes estimativas

 

Como não há um censo indígena no Brasil, os cômputos globais têm sido feitos – seja pelas agências governamentais (IBGE, FUNAI ou FUNASA), pela Igreja Católica (CIMI) ou pelo ISA – com base numa colagem de informações heterogêneas, que apontam para estimativas globais que oscilam entre 350.000 e mais de 700 mil.

Variam os critérios censitários e as datas; há povos sobre os quais simplesmente não há informações; sabe-se pouco sobre os índios que vivem nas cidades... Até o número de povos varia, seja porque índios isolados vêm a ser conhecidos, seja porque novos povos passem a reivindicar a condição indígena (identidades emergentes).

Abaixo, a antropóloga e demógrafa Marta Azevedo (Programa Rio Negro /ISA) analisa os problemas e as perspectivas para o aprimoramento das fontes de dados demográficos sobre as populações indígenas no Brasil:

 

A falta de dados

Estudar as sociedades indígenas do ponto de vista demográfico envolve dificuldades de duas origens distintas. De um lado, a falta de dados confiáveis: na maioria dos casos, consegue-se uma cifra de população total por uma determinada área geográfica, sem caracterização por sexo, idade, número de mortes por idade e número de filhos nascidos vivos por idade da mãe, para citar as principais variáveis demográficas. Por outro lado, a metodologia da análise demográfica disponível é adequada para populações de grande porte, o que não é o caso da maior parte dos povos indígenas residentes no Brasil de hoje. A questão gerada pelo segundo caso pode ser contornada com um acúmulo de dados históricos ou com processos de correção e adequação estatística que ainda não foram muito testados ou usados para o caso brasileiro.

A inexistência de fontes de dados confiáveis para as populações indígenas não é um problema isolado do Brasil. Na publicação Estudios Sociodemograficos de Pueblos Indígenas(1) - conclusões do seminário realizado no Chile em 1993 -, algumas constatações foram feitas comparando-se estudos sobre as populações autóctones de diferentes países latino-americanos. Existe pouca ou nenhuma possibilidade de comparação entre os diferentes censos demográficos nacionais, devido à disparidade de critérios de definição da categoria “índio”. Apesar disso, alguns avanços metodológicos nos censos específicos indígenas, como é o caso do censo da Colômbia de 1993, e algumas análises que usam como referência os censos demográficos e outros tipos de registros, como cálculos de fecundidade baseados no método do filho tido no ano anterior ao censo, são instrumentos úteis para o cálculo de informações específicas sobre populações indígenas e suas preocupações, assim como nos induzem a realizar futuras investigações, como por exemplo a investigação sobre os povos autóctones do Canadá.

Os métodos antropológicos, ou o uso combinado de diferentes métodos, permitem analisar com profundidade as condições de vida dos grupos indígenas nos contextos em que vivem, suas relações com a população do entorno, explicando assim alguns comportamentos demográficos específicos.

Os índios e os censos oficiais

As características demográficas das populações indígenas brasileiras nunca foram alvo de interesse específico dos censos demográficos (não comentarei aqui as PNADs - pesquisas nacionais por amostra de domicílios, também feitas pelo IBGE - , que não pesquisaram os povos indígenas, talvez porque esses não fossem considerados como mão-de-obra possível, ou relevantes economicamene para o país). Embora não tenham sido pesquisados enquanto etnias diferenciadas (existem hoje cerca de 200 povos falando línguas diferentes, no Brasil), o quesito “cor da pele” delimita de maneira precária a existência de índios.

O censo de 1991 foi o primeiro a colocar a variável indígena como item específico no questionário da amostra relativo ao quesito “cor”. É, portanto, nesse quesito que os índios vão estar enquanto população diferenciada; em outros países, como os EUA, é o quesito “race” que pesquisa essas populações (no questionário do censo de 1990, estão classificados os povos autóctones em 3 grupos: índios americanos - escreve-se por extenso o grupo a que pertence; eskimos; aleutas; sendo que a definição é feita pelo recenseado e não pelo recenseador).

Desde os primeiros censos brasileiros, onde os índios eram contados como pardos, havia sempre a ressalva (que se manteve no censo de 91) de que só seriam recenseados “os índios que habitam postos da FUNAI ou missões religiosas”, sendo que os “aborígenes que vivem em tribos arredias ao contato” não foram nunca recenseadas. Esse tipo de classificação de indianidade, que toma como critério o tempo de contato com a sociedade não-índia, não existe mais nem em outros países, nem no Brasil (desde a Constituição de 1988). Pela última Constituição, todos os povos indígenas brasileiros são cidadãos, e portanto recenseáveis. No México, pesquisam-se esses povos autóctones nos censos através do quesito “língua falada” (não estrangeira), prevalecendo assim um critério linguístico e não racial e nem de cor da pele.

Apesar disso, é possível pesquisar as populações indígenas nos censos e comparar esses dados com os de registros vitais, coletados a partir das certidões de nascimentos e óbitos, obrigatórias em todo o país. Tomando-se o município como unidade territorial para essa pesquisa pode-se inferir alguns tipos de contagens e características. É possível cruzar as informações do quesito cor, com religião, língua (censo 1940), residentes e natos no município. Além disso tem-se a informação de domicílios rústicos (entre os quais estariam os indígenas). Por exemplo, no censo de 1940, para o município de São Gabriel da Cachoeira/ AM (que não sofreu divisões desde essa época):

população total brancos pretos amarelos pardos
13.182 1.011 68 8 12.043

Com o objetivo de conhecer melhor as características sócio-demográficas dos imigrantes (alemães, italianos e japoneses) que aqui chegavam, o censo de 1940 pesquisou também a informação sobre línguas faladas da população. Os resultados desse censo permitem verificar a incidência de línguas nativas faladas por uma população bastante significativa, principalmente nos estados do norte, apesar de não terem sido recenseados os índios sem contato ou com pouco contato com as frentes de colonização. Porém, análises desse censo sobre esse fato não foram até o momento desenvolvidas, pois o interesse eram as outras línguas “estrangeiras” faladas e não as línguas nativas. A partir desse censo, pode-se cruzar a informação “cor da pele - parda” com o quesito “língua falada”, tendo-se distinguido a língua guarani e outras línguas indígenas para pessoas de 5 anos e mais. Obteve-se, para o Brasil todo, uma população de 46.208 pessoas que falavam guarani ou outra língua aborígene; não existem dados por município; no estado do Amazonas, a população era de 10.381 homens e 9.182 mulheres (de 5 anos e mais). É possível, a partir disso, fazer inferências, comparando-se com outros levantamentos específicos do SPI (Serviço de Proteção ao Índio) e, posteriormente, FUNAI. Em 1960 e 80, o censo levanta apenas o quesito “cor”, sendo que os índios foram incluídos em “pardos”; em 1970, o quesito “cor da pele” não constou da pesquisa.

Várias questões decorrem das definições dos conceitos usados nos questionários dos censos e da sua metodologia de coleta de dados. Muitos trabalhos já comentaram e analisaram a escolha política dos censos brasileiros de identificar as ditas “minorias étnicas” a partir do quesito “cor da pele”, e não escolher, por exemplo, “línguas faladas” (como é o caso do censo mexicano), ou “identificação étnica por povo” (como é o caso de censos como o americano e o canadense), ou mesmo realizar censos especiais para essas populações ao mesmo tempo que o censo demográfico nacional vai a campo (como é o caso de países como a Colômbia, Venezuela e Paraguai). A variável ‘pardo’, no quesito “cor da pele”, é residual. Isso quer dizer que todos os caboclos no norte, os mulatos, mestiços em geral são classificados como pardos, sem possibilidades de desagregação para análises mais detalhadas. A introdução da variável ‘indígena’, no censo de 1991, no referido quesito também pode ser discutida, na medida em que não é “cor da pele”, assim como pardo, mas uma categoria genérica, instituída pela colonização portuguesa para identificar todos os povos nativos que aqui habitavam.

Os resultados obtidos para a população indígena contabilizados por esse censo de 1991 precisam ser analisados levando-se em conta a metodologia da coleta de dados. O quesito “cor da pele” encontra-se no questionário da amostra; os censos brasileiros possuem dois tipos de questionário: um mais geral, onde são pesquisadas características gerais da população, como idade e sexo, e incide sobre o universo populacional, outro onde são pesquisadas variáveis mais específicas, como número de filhos, tamanho e tipo de famílias, níveis de educação, níveis de renda, tipos de profissão etc., que permitem análises sobre as características sócio-demográficas da população. O cálculo da amostra é feito de maneira estatística, com base nas características e nas projeções da população obtidas por pesquisas anteriores do IBGE. A amostra do censo brasileiro é considerada bastante representativa do universo populacional. O problema para a população indígena é que, além de não se possuir pesquisas anteriores sobre seu tamanho e características, essa população é fragmentada em pequenas (com relação ao resto da população) unidades, o que dificulta a expansão e generalização dos resultados, tendo-se como base áreas geográficas pequenas.

Para obtermos os dados sobre cada etnia a partir dessa variável seria preciso um trabalho meticuloso de desagregar os dados da amostra por município e, depois, por setor censitário, e verificar para cada TI (terra indígena - consideradas setores censitários especiais) qual a população e suas características, o que reduziria o grau de precisão dos resultados devido ao tamanho pequeno da maior parte desses povos. Foram calculados os resultados para todas as unidades da federação, não só aqueles onde estão localizadas TIs, para analisar os dados levando-se em conta aqueles índios que se encontram em áreas urbanas. A qualidade das informações obtidas é bastante boa, se levarmos em conta a metodologia adotada. A população indígena total contabilizada foi de 306.245, algo próximo dos totais veiculados pelas outras fontes indigenistas para essa mesma data.

A partir desses resultados preliminares, o que se espera agora é que tanto antropólogos quanto demógrafos comecem a se interessar por realizar análises demográfico-antropológicas dessas populações. Muitos cálculos podem ser feitos com os dados do censo, apesar de todas as limitações apontadas, e, considerando-se que o censo 2000 continuou a contar essa população, é imperativo que se realize um debate sobre as diferentes fontes de dados e suas qualidades e potencialidades para análises.

Dados variantes

Outras fontes de dados sobre a população indígena são geradas por instituições como a Fundação Nacional de Saúde e o Instituto Socioambiental (ISA), cada uma delas com uma metodologia e objetivos diferentes. O ISA tem efetuado um acompanhamento preciso do processo de identificação e demarcação das terras indígenas. Para tal trabalho, é necessário fazer estimativas do contigente populacional dos povos que habitam essas terras. Essas estimativas são feitas apenas com o objetivo de informar o processo de demarcação e acompanhar a evolução da população total de cada TI ou de cada etnia. Para isso, é necessário usar diferentes fontes de dados, uma vez que a instituição não tem como objetivo fazer recenseamentos ou análises demográficas, o que se torna “um verdadeiro quebra-cabeça”, como diz Beto Ricardo (2).

A Fundação Nacional de Saúde, atual Funasa, a partir de 1991, vem procurando efetuar coletas de dados populacionais com enfoque para os epidemiológicos, para a melhoria da oferta dos serviços de saúde. A partir de 2000, com a estruturação dos Distritos Sanitários Especiais de Saúde Indígena, espera-se que essa atividade de coleta e registros de dados epidemiológicos melhore consideravelmente para o Brasil como um todo.

A Lei 6001 de 1973, Estatuto do Índio, em seu capítulo III, artigo 12, postula que os registros vitais, ou seja de nascimentos e óbitos e casamentos civis de índios “não integrados” serão efetuados pelo órgão de assistência ao índio, ou seja pela FUNAI. Portanto, essa seria uma fonte de dados valiosa para se conhecer os dados das populações indígenas, mas, na maior parte dos casos, os postos indígenas não estão equipados com a infra-estrutura necessária para essa atividade, ficando, assim, bastante comprometido o uso dessa fonte de dados. Apesar disso, a Funai, através de seu setor de acompanhamento à demarcação de terras e também do setor de assistência à saúde, tem efetuado levantamentos populacionais bastante abrangentes, embora sem muitas variáveis para se poder analisar os diferentes componentes demográficos.

A igreja católica, desde a fundação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em 1973, vem também efetuando levantamentos populacionais dos povos indígenas onde possui bases missionárias e atividades indigenistas. O Cimi alertou para o aumento do contingente populacional dessas populações já no início da década de 1980, tendo feito um levantamento bastante amplo em diferentes regiões do Brasil, apesar de não possuir rendimento para análises demográficas, já que não são pesquisadas as variáveis como idade, sexo, nascimentos e mortes em um mesmo período de tempo para diferentes povos.

Na tabela abaixo, estão os resultados da população indígena dos estados da Amazônia legal, por fonte, incluindo os resultados do IBGE, dados veiculados pela FUNAI, setor de saúde, em 1996, e dados veiculados pelo ISA em sua publicação Povos Indígenas no Brasil - 1991/1995. Pode-se observar, porém, que alguns resultados por estado estão aquém daqueles obtidos pelas outras fontes - por exemplo: Roraima, Acre, Mato Grosso, Rondônia e Amapá. Já para outros estados, o oposto ocorreu: a população indígena contada pelo censo foi bastante superior àquela veiculada pelas outras fontes, como, por exemplo, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Nesses últimos, a população é grande nas áreas urbanas. Portanto, a categoria indígena deve ser entendida e analisada de maneira diferente: são pessoas que se auto-identificaram enquanto indígenas, que estão dispersas pelos grandes centros urbanos. Para analisarmos tal fenômeno de (res)surgimento de índios urbanos (ou descendentes de índios), seria preciso uma pesquisa qualitativa detalhada - qual a motivação que levou essa população a se identificar como índio, que tipo de característica foi tomada em conta na hora dessa identificação e assim por diante.

Tabela comparativa de levantamentos da população indígena das UFs da Amazônia Legal

UF ISA FUNAI IBGE
Mato Grosso 18.450 21.172 16.548
Rondônia 4.012 6.923 4.135
Acre 9.107 9.489 4.748
Amazonas 57.901 65.433 67.882
Roraima 32.771 31.265 23.422
Pará 10.563 18.381 16.134
Amapá 3.859 4.723 3.244
Maranhão 12.859 13.768 15.671
Tocantins 4.482 4.417 5.049
Total 154.004 175.571 156.833

Desafios para o futuro

Com relação aos censos oficiais do IBGE, poderíamos recomendar que se melhorasse a metodologia de coleta de dados, fazendo um treinamento específico para aqueles recenseadores que fossem trabalhar nas TIs, consideradas setores censitários especiais e ainda que se fizesse um questionário especial para as populações indígenas, com a colaboração de profissionais especializados, que possa ser aplicado junto com o censo, para que pudéssemos realmente começar a ter dados comparáveis e ao mesmo tempo específicos para as políticas públicas direcionadas aos povos indígenas. Será imperativo também repensar o critério operativo de identificar os povos indígenas, não como variável do quesito cor da pele, mas como totalidades sociais distintas, a exemplo do que vem ocorrendo com os censos norte-americanos ou canadenses.

Para outras instituições, como Funasa, que geram informações populacionais sobre esses povos passíveis de análises sobre sua dinâmica demográfica, recomendaríamos repensar o critério geográfico, incluindo a base geográfica das TIs, municípios, e áreas urbanas, devido à cada vez maior presença de índios nas cidades e considerando que já se sabe que os índios ocupam bairros específicos delimitados, o que gera uma rede que opera e facilita esse movimento migratório e relações sociais com suas comunidades de origem.

Recomenda-se, finalmente, a realização de censos indígenas, integrando ou complementando os censos globais, elaborados com ampla participação das comunidades indígenas em todas as suas fases (desde a elaboração do instrumento de coleta de dados) em convênios com organismos que a elas prestam assistência técnica ou econômica (Marta Azevedo, dezembro/ 2000).

NOTAS

(1) Publicação realizada com o apoio das instituições: Celade, CIDOB, FNUAP, ICI, 1993.

(2)Beto Ricardo: “A sociodiversidade nativa contemporânea no Brasil” in Povos Indígenas no Brasil - 1991/1995, São Paulo: Instituto Socioambiental, 1996.

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