localize-se: Povos indígenas no Brasil> Quem, onde, quantos> Quem são>
Identidades emergentes | Definições gerais | Sobre os nomes dos povos

Identidades emergentes

 

Introdução

Nos últimos anos, aumenta o número de populações que passam a reivindicar pública e oficialmente a condição de indígenas no Brasil. Trata-se de famílias que, miscigenadas e territorialmente espoliadas, deslocadas e concentradas ao longo do tempo, reencontram, no presente, contextos políticos e históricos favoráveis à retomada de identidades coletivas indígenas (um povo, um nome).

O processo não é exclusividade do Brasil; casos semelhantes são conhecidos em outros Estados nacionais contemporâneos como, por exemplo, a Bolívia e a Índia. Em nosso país, aparece mais claramente em décadas recentes, quando histórias regionais passam a ser reestudadas, os direitos indígenas, mais reconhecidos e respeitados, e as organizações de apoio aos índios atingem um estado mais efetivo de consolidação.

Os pesquisadores utilizam expressões variadas para se referir ao fenômeno: "identidades emergentes", "índios emergentes", “etnogênese”, “viagem da volta" ou "comunidades indígenas ressurgidas". Três elementos podem ser apontados como característicos dele: 

(1) aparece, quase sempre, em conexão com pleitos territoriais; 

(2) resulta de complexos processos históricos regionais de relacionamento entre índios e não-índios; e 

(3) os povos que adotam essas identidades manifestam uma baixa distintividade em relação às populações não-indígenas das regiões onde vivem (tanto em termos culturais como de "aparência física").

Por conta disso, o assunto é complexo e polêmico. Muitas vezes, leva a uma postura que é fruto da ignorância, do preconceito e/ ou de disputas pela posse da terra: "esses aí dizem que são índios mas não são". 

Novos casos

Os casos mais conhecidos estão nos estados do nordeste. Mas outros também existem. Somente no ano 2000, o CIMI (Conselho Indigenista Missionário), organização de apoio aos índios vinculada à Igreja Católica, registrou os seguintes novos casos: 

 

  • no Parque Nacional da Serra do Divisor, estado do Acre, o povo Náua; 
  • na região do Alto Rio Tapajós (Pará), os Tupinambá, Maitapu, Apium e um grupo Munduruku até então desconhecido;
  • em Minas Gerais, os Kaxixó, na região de Martinho Campos e Pompeu, e os Aranã, no Vale do Jequitinhonha; 
  • na Bahia, outra comunidade Tupinambá, em Olivença, e os Tumbalalá, em Abaré e Curaçá; 
  • em Alagoas, os Kalankó, no município de Pariconha, e os Karuazu, no de Água Branca; 
  • em Pernambuco, município de Ibimirim, os Pipipã.

Para entender o fenômeno

Quando se trata das "identidades emergentes", a idéia que confere sentido e legitimidade à condição de indígena no Brasil (origem pré-colombiana) é um pouco mais complicada do que aquela que geralmente fazemos. As identidades desses povos apóiam-se em memórias e histórias comprovadas que não remetem aos primeiros momentos da colonização do país, mas, sim, a contextos mais recentes. 

Na maioria dos casos, os próprios nomes que esses povos vêm hoje reivindicar como indicador de sua diferença frente aos regionais não-indígenas não se encontram nos documentos escritos deixados pelos primeiros viajantes e cronistas da colonização. Esses nomes, bem como cadeias genealógicas (antepassados identificados que unem o presente ao passado) e mitos de origem, remontam, freqüentemente, a situações históricas já posteriores aos tempos de "primeiros contatos".

Um exemplo são os aldeamentos missionários dos estados do nordeste, onde, entre o final do século XVII e o início do XVIII, famílias de nativos de diferentes línguas e culturas foram reunidas e, por meio da catequese e do disciplinamento do trabalho, submetidas a homogeneização. 

Ao reivindicar uma condição indígena que se liga a contextos como esse, coletividades atuais estão recordando certas características marcantes e, até certo ponto, contraditórias, da história de colonização: práticas no sentido de, por um lado, preservar os índios, circunscrevendo-os territorialmente e, por outro, assimilá-los a uma sociedade nacional em processo de constituição. 

Mesmo quando a resultante histórica dessas práticas foi uma intensa "mistura" (genealógica e cultural, entre índios de variadas tradições e entre índios e não-índios), a plena assimilação não se efetivou.  

O desenvolvimento de práticas coloniais voltadas aos índios é algo contraditório e não encerrado: se levou à redução demográfica e à extinção de povos indígenas inteiros, também levou à formação de novos. Quando e como a memória dessas outras identidades coletivas vem aflorar publicamente é assunto que depende das características particulares de histórias e contextos políticos, regionais e nacionais, bastante relacionados com a questão fundiária no país.

página inicial do ISA | conheça o ISA | notícias socioambientais | legislação | produtos | filiação | e-mail

© Todos os direitos reservados.
Para reprodução de trechos de textos é necessário citar o autor (quando houver) e o nome do Instituto Socioambiental. Para reprodução em sites, dar o crédito e o link para o site do ISA. Reprodução de fotos e ilustrações não são permitidas.