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Por que criar peixes no Alto Rio Negro?

Ao contrário do que freqüentemente se pode imaginar, nem todos os rios da Bacia Amazônica são ricos em peixes. Tal é o caso do Noroeste Amazônico, do qual faz parte a bacia do Alto Rio Negro: apesar de apresentar rica biodiversidade e alta ocorrência de espécies endêmicas, a região sempre possuiu uma quantidade de peixes limitada. Ali, o solo predominante é muito antigo, arenoso, extremamente ácido e pobre em nutrientes, que dá origem a um tipo de vegetação popularmente denominada campinarana ou caatinga do Rio Negro.
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Os rios que recebem afluentes desses ecossistemas são conhecidos como “rios de água preta” e têm suas águas igualmente ácidas, pobres em nutrientes e com baixos teores de oxigênio dissolvido. Esses fatores resultam em rios com poucos peixes, que outrora chegaram a ser apelidados de “rios da fome” por seus primeiros exploradores.

Veja a imagem do Igapó Curva do rio
Veja a imagem do Igapó Plantas pioneiras

Embora os recursos pesqueiros nunca tenham sido muito abundantes, a população indígena sabia viver desses rios e dessas terras. Porém, nos últimos tempos os peixes têm se tornado cada vez mais escassos, principalmente em certos locais específicos. A escassez se deve à interação de vários fatores, tais como: a introdução de artes de pesca não tradicionais, como as redes malhadeiras, a inexistência de lagos perenes, a presença marcante de grandes cachoeiras e a concentração das comunidades indígenas em lugares próximos aos centros missionários, onde existem solos um pouco melhores para a agricultura, mudanças climáticas atuais, etc.

Assim, apesar do bom estado de conservação da floresta, em cujos rios a pesca é principalmente de subsistência (Pesca), a produtividade pesqueira vem diminuindo, demonstrando uma grande sensibilidade dos ecossistemas aquáticos locais em relação a impactos, por menores que estes sejam.

Durante o processo de demarcação das terras indígenas na região, ocorrido entre os anos de 1997 e 1998, realizou-se uma pesquisa de opinião junto a mais de duzentas comunidades, em que foram determinadas três áreas críticas do Município de São Gabriel da Cachoeira, onde os recursos pesqueiros encontravam-se mais escassos: essas regiões são o Alto Tiquié (Distrito de Pari-Cachoeira), o Alto Uaupés (Distrito de Iauareté) e o Alto e Médio Içana (Distrito de Tunuí).

Por essa razão, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), deu início ao projeto pioneiro Manejo Sustentável de Recursos Naturais na Terra Indígena do Alto Rio Negro. Mais conhecido como Projeto de Piscicultura e Manejo Agroflorestal, este trabalho faz parte de um conjunto de projetos a caminho de um Programa Regional de Desenvolvimento Indígena Sustentável do Rio Negro, que por sua vez busca o desenvolvimento e a multiplicação de modelos sustentáveis de aproveitamento de recursos agroflorestais e aquáticos, aliando conhecimentos tradicionais e conhecimentos técnicos adaptados em parceria direta com associações de base filiadas à Foirn.

O projeto foi então elaborado com objetivo geral de aumentar a segurança alimentar de comunidades indígenas situadas naquelas áreas por meio da implantação de experiências-piloto em piscicultura e manejo agroflorestal, com atividades complementares de treinamento técnico e capacitação administrativa dos parceiros locais. Este trabalho também possui interfaces com atividades de educação, pesquisa, documentação e mapeamento, envolvendo assessores contratados pelo ISA e as lideranças indígenas que compõem as diretorias da Foirn e das associações indígenas com as quais o ISA mantém interação permanente: a Associação das Tribos Indígenas do Alto Rio Tiquié (Atriart); a Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauareté (Coidi); e a Organização Indígena da Bacia do Içana (Oibi).

Em novembro de 1999 foi inaugurada a Estação Caruru. Uma vez obtidos os primeiros sucessos na propagação artificial dos peixes locais, iniciou-se a construção do segundo centro de produção de alevinos, a Estação Iauaretê, que foi inaugurada em outubro de 2002. Simultaneamente foi construído o terceiro centro, a Estação Pamáali, inaugurada em novembro de 2003. Para a construção dessas estações de piscicultura houve grande mobilização social por parte das comunidades beneficiárias a fim de serem organizados muitos dias de wayuris (trabalhos comunitários).

Uma vez instaladas e em funcionamento estas pequenas estações de piscicultura atualmente têm a difícil missão de serem, ao mesmo tempo, centros de experimentação, de capacitação de técnicos indígenas e de produção de alevinos, havendo muito que aprender, produzir e ensinar, para que a piscicultura possa ser desenvolvida pelas famílias dessas regiões. O projeto é pioneiro e inovador no sentido em que não se rendeu à solução aparentemente “fácil” de importar espécies alóctones (nativas, de outras bacias) ou exóticas, cujas técnicas de produção em cativeiro já foram aperfeiçoadas em outras regiões do Brasil, de forma a não se correr o risco de causar impactos às populações de peixes indígenas. Dessa forma, vem se enfrentando os desafios de experimentar técnicas de reprodução e criação para a domesticação de espécies nativas ainda não estudadas, em um ambiente aquático cientificamente pouco conhecido, além de testar os recursos disponíveis localmente para a engorda desses peixes em viveiros, visando construir uma alternativa auto-sustentável para os povos indígenas da região. Para tanto, a valorização dos conhecimentos tradicionais (Conhecimentos Indígenas) de cada local é a chave para encurtar o caminho rumo aos objetivos.

A gestão dos projetos de piscicultura nas regiões onde estão instaladas as estações é feita pelos próprios parceiros locais do ISA, que possuem uma conta bancária específica para isso: a Associação das Tribos Indígenas do Alto Rio Tiquié (Atriart), no caso da Estação Caruru, a Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauareté (Coidi), no caso da Estação Iauareté, e a Organização Indígena da Bacia do Içana (Oibi), no caso da Estação EIBC. Essas associações são filiadas à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn).

Deste modo, o ISA fica responsável por funções mais direcionadas à área técnica, como pesquisa e desenvolvimento de tecnologia apropriada para a piscicultura na região, assessoria administrativa e antropológica - produção de materiais de divulgação nas línguas indígenas da região sobre o Projeto - acompanhamento da experiência de gestão, ajuda na elaboração de outros projetos, com base em critérios socioculturais e ambientais definidos.

Nos primeiros meses de 2003, o projeto passou por uma avaliação externa independente, realizada por uma equipe composta por três técnicos especialistas: Dr. José Augusto Senhorini, biólogo especialista em piscicultura e pesquisador do CEPTA/IBAMA, Dr. Johannes van Leeuwen, pesquisador do INPA e especialista em manejo agroflorestal, e Dr. Gilberto Azanha, antropólogo do CTI, com ampla experiência em projetos junto a populações indígenas, principalmente do Brasil Central.

Veja parte do resumo executivo da avaliação

Página atualizada em 01/08/2007