|
(relato de um pajé tukano)1
Era uma vez um pescador que numa tarde se encontrava com a sua canoa encostada na ilha de Semendaí, no rio
Uaupés, preparando um espinhel2 para a pesca. Estava compenetrado no seu trabalho
quando dois jovens passaram remando, subindo o rio. Eles eram waí-masã (gente peixe). Os dois jovens,
vendo o pescador, encostaram na ilha para puxar conversa e logo se agradaram dele, convidando-o para uma festa que
haveria numa comunidade dos waí-masã, no fundo do rio. A festa, que seria por ocasião de uma
assembléia geral, duraria três dias, com muito caxiri, dança e mulheres bonitas. Tanto insistiram
que acabaram por convencê-lo.
O pescador puxou sua canoa em terra, embarcou na dos waí-masã e assim partiram rumo à comunidade
dos dois jovens. Quando já haviam passado da ilha de Semendaí, os waí-masã pediram para
o pescador fechar os olhos, no que o jovem que vinha na proa bateu o remo na água, fazendo-os mergulhar para
o domínio dos waí-masã. Continuaram remando embaixo d'água por um bom tempo, até
que chegaram no porto de uma comunidade. Ali os dois jovens avisaram ao pescador que os outros poderiam perceber sua
presença e considerá-lo um intruso, de modo que ele teria que passar um "perfume" para disfarçar
seu cheiro humano, considerado desagradável para os waí-masã. Lhe deram um pequeno frasco, de
cheiro de pitiú3, cujo conteúdo ele passou pelo corpo. Assim o pescador
também ficou com cheiro de peixe, podendo passar despercebido entre os waí-masã.
Quando chegaram na maloca, a assembléia tinha acabado de começar. Estava cheia de gente. O wiogi4
dos waí-masã, conhecido pelo nome de Norato, explicava que o motivo da reunião era tentar descobrir
os motivos da diminuição de seu povo nos últimos anos, a fim de que pudessem encontrar meios
para se salvar do extermínio. O debate continuou o dia todo, mas ninguém conseguia elucidar o misterioso
fenômeno.
Durante todo esse tempo, o pescador sempre caminhava entre os dois jovens - um atrás e outro na sua frente
- a fim de que ninguém conversasse com ele e assim pudesse descobrir a sua condição humana. Regularmente,
ele saía da maloca para passar uma nova dose de pitiú, de modo que ninguém ia percebendo a presença
do estranho. De noite, no entanto, contrariandeo os conselhos dos dois jovens, o pescador não conseguiu resistir
aos apelos das meninas presentes e pôs-se aa dançarr com elas. Desta forma ele começou a suar
muito - fazendo passar o efeito do cheiro pitiú - e não tardou para que ele fosse descoberto pelos waí-masã.
Com o pescador exposto, a festa parou abruptamente e todos olhavam atentos para o estranho. "Quem é
este intruso?", perguntou o wiogi Norato. Um dos jovens que o haviam trazideo se levantou e, não
podendo inventar nada melhor, replicou: "wiogi, se trata de um médico que nós encontramos
a caminho daqui e que resolvemos trazer para tratar nossos doentes". De fato, atrás da maloca se situava
o hospital dos waí-masã, em que há algum tempo não havia mais médico. Assim, o
wiogi, satisfeito com esta iniciativa, pediu para que o suposto doutor verificasse os doentes na manhã
seguinte e logo mandou prosseguir a festa.
No outro dia, o pescador/médico foi encaminhado até o hospital. Quando ele entrou, ficou surpreso
com a enorme quantidade de pessoas que ali se encontravam. O hospital estava repleto, com gente até nos corredores.
Sob os olhares atentos do wiogi Norato, o pescador resolveu então assumir o seu papel de médico.
Se aproximou de um dos pacientes e perguntou a razão do seu mal-estar. "É um caroço de tucumã,
doutor" - respondeu o doente - "que entalou na minha garganta". O doutor pediu a seguir que ele abrisse
a boca e ao examiná-lo verificou que havia um anzol preso na garganta do waí-masã. Com sua habilidade
de pescador, ele retirou o anzol, e assim mandou o paciente para casa. Chamou o próximo e perguntou sobre seu
problema. "É reumatismo, doutor", respondeu o enfermo, "que me faz doer as costas". O pescador
examinou as costas do paciente e para seu espanto encontrou uma grande ferida feita por uma azagaia, que ele desinfetou
e costurou. Já o paciente seguinte reclamava de dor de dente, mas no exame constou que este tinha um grande
anzol preso no céu da boca, que logo foi retirado. E assim por diante, o doutor prosseguiu a tratar dos doentes.
Era óbvio que os waí-masã não estavam cientes das razões de sua aflição.
Enquanto isso, o pescador ia juntando uma coleção de anzóis de todos os tamanhos: no.
28, 12, 16, etc., os quais haviam se alojado nas bocas dos pacientes e em alguns casos até mesmo nos seus flancos,
tratando também de um grande número de feridas produzidas por azagaisas, malhadeiras e outros utensílios
de pesca.
O pescador trabalhou intensivamente durante os dois dias que restavam da assembéia, curando todos os pacientes.
No último dia ele se encaminhou para a reunião na maloca, onde não haviam ainda encontrado uma
resposta definitiva sobre a causa da diminuição dos waí-masã. O pescador então
pediu a palavra e explicou à assembléia reunida que o grande número de doentes se devia principalmente
à ação do homem, que com seus utensílios de pesca estavam dizimando os waí-masã.
Mostrou os anzóis para os presentes e explicou para que serviam e como funcionavam. Os waí-masã
escutavam perplexos. E é por isso que hoje em dia a maioria dos peixes não morde mais isca, pois graças
ao doutor aprenderam a evitar os anzóis. Somente os peixes desinformados, que não foram para aquela
assembléia, ainda se deixam pegar desta maneira.
No final da assembéia, o wiogi agradeceu ao doutor, pagando aproximadamente dez quilos de ouro pelo
seu trabalho. No entanto o wiogi avisou que ele não poderia mostrar este ouro para ninguém -
nem à sua mulher - até que se passasse um prazo de um ano. A seguir, os dois jovens waí-masã
levaram o pescador de volta à ilha de Semendaí, onde ele havia deixado a sua canoa. Chegando lá,
o pescador reparou que muitos meses haviam se passado durante os três dias que passara na terra dos waí-masã,
pois ele havia deixado sua canoa na beira do rio, enquanto que esta agora se encontrava praia acima, bem longe da
água. Era inverno quando ele fora para a assembléia e agora estavam em pleno verão.
Chegando em casa, o pescador teve dificuldades em explicar para sua mulher as razões de sua demorada ausência.
Guardou o ouro que recebera dos waí-masã em uma mala e pediu a ela e aos seus filhos para que não
olhassem para o conteúdo, a fim de que ele pudesse vendê-lo depois que passasse o prazo dado pelo wiogi.
No entanto, desconfiada com a inexplicável auseência do marido, a mulher um dia não resistiu e
foi espiar dentro da mala. Em conseqüência, o ouro sumiu e o pescador morreu logo em seguida. Dizem que
ele foi direto para o hospital dos waí-masã, onde ele trata os doentes até hoje. E assim a sua
fama de doutor se espalhou por todos os cantos, sendo por isso que atualmente existe pouco peixe nos tributários
do rio Uaupés. É que a maioria se mudou para logo acima da ilha de Semendaí, onde o atendimento
médico é melhor.
_______________________
1 - Abreviado e adaptado para a linguagem escrita segundo a narração
de Domingos Marques, da comunidade de Caruru, no alto rio Tiquié, em outubro de 1998. Domingos, por sua vez,
ouviu este mito em 1993 do seu tio-avô, o pajé (yaí) Nastácio Marques, que mora em São
Gabriel da Cachoeira.
2 - Espinhel: Arte de pesca formada por uma extensa corda mestra, onde
são amarradas dezenas de linhas secundárias, cada qual com um anzol em sua extremidade.
3 - Pitiú: o cheiro desagradável do peixe fresco, emitido
pela camada mucosa da sua epiderme.
4 - wiogi: líder, chefe. A letra "i" (i
cortado) se pronuncia "êuh".
|