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Projeto de Formação de Professores do Parque do Xingu
O objetivo principal do Projeto de Formação
de Professores é consolidar uma escola diferenciada
e de qualidade no Parque Indígena do Xingu (PIX),
protagonizada e gerida pelos próprios índios
a partir da formação de professores indígenas
e do estabelecimento de um currículo diferenciado.
Ao longo do período de formação,
orientados por uma equipe de especialistas e mantendo
um diálogo constante com suas comunidades, eles
se capacitam para fornecer a seus alunos uma educação
bilíngüe ou multilíngue (português
e línguas indígenas) e intercultural (conhecimentos
das sociedades indígenas e não-indígenas).

Os professores indígenas lecionam nas escolas oferecendo uma formação escolar básica às crianças
e adolescentes, através de uma visão crítica da sociedade envolvente, procurando contribuir com subsídios
para que as comunidades do PIX exerçam seus direitos de cidadania, mantendo sua identidade como povos culturalmente diferenciados.
As lideranças indígenas estão muito preocupadas com as crianças e adolescentes diante da penetração
de padrões de comportamento e de consumo de cidades situadas no entorno do PIX em suas comunidades, bem como com o preparo
das novas gerações para a defesa e gerenciamento da terra indígena. Diante das mudanças decorrentes
do contato, outro grande desafio dos professores indígenas e da equipe do ISA é contribuir para fortalecer o diálogo
entre os mais velhos e os adolescentes na perspectiva de motivar a participação destes na vida tradicional - festas,
trabalho da roça, confecção de artesanato.
O trabalho de formação de professores
indígenas articula-se com outros projetos existentes
no Parque, tais como o de Formação de
Agentes de Saúde e Auxiliares de Enfermagem Indígenas,
promovido pela Universidade Federal Paulista (Unifesp),
e os realizados pelo ISA em parceria com a Associação
Terra Indígena do Xingu (Atix): Projeto de Desenvolvimento
de Alternativas Econômicas Sustentáveis,
Formação de Agentes Indígenas de
Manejo, Projeto de Capacitação e Fortalecimento
de Associações Indígenas e Projeto
Fronteiras.
Curso de Magistério
Desde 1994, o Curso de Magistério é desenvolvido através de duas etapas intensivas anuais de 30 dias
(uma por semestre) e, atualmente, está dividido em duas turmas: a de formação para o magistério, com
42 participantes, e a de formação continuada, para os 39 professores já formados. Os 81 professores indígenas
são de todas as etnias do Parque, dos Panará e dos Kaiabi da aldeia Cururuzinho, da Terra Indígena Kaiabi.
Além do curso semestral, é realizado no decorrer do ano o acompanhamento pedagógico aos professores
nas escolas das aldeias. Ao todo, são 38 escolas em funcionamento no PIX, em uma TI Panará e em uma TI Kaiabi onde os professores indígenas lecionam para 1.358 pessoas, entre crianças
e adolescentes.
A partir de 2000, quatro professores formados no magistério integraram a equipe de formação do ISA como
professores auxiliares, lecionando para uma turma de professores novatos que ingressaram no meio do processo de formação,
havendo perdido etapas do curso. Esses educadores estão aprendendo a atuar como formadores de novos professores; nas escolas
das aldeias maiores, onde surge a demanda por novas turmas, eles também estão formando, pelo Curso de Magistério,
alguns de seus alunos para assumi-las.
Em 2001, com base em sua prática pedagógica,
nas reflexões sobre a responsabilidade profissional
e na importância atribuída à escola
por suas comunidades, os professores concluíram
o Projeto Político Pedagógico (PPP), que
organiza a proposta curricular da 1º à 4º
etapas, adequada à realidade cultural a que pertencem.
O Projeto foi aprovado pelo Conselho Estadual de Educação
de Mato Grosso em 2002.
Produzindo material próprio
Com o objetivo de despertar uma atitude de investigação que contribua ao processo educacional, cada professor indígena
deve desenvolver anualmente um trabalho de pesquisa sobre algum tema referente à sua realidade sociocultural. Para isso,
ele é orientado tanto nas etapas intensivas do curso quanto durante o acompanhamento pedagógico. Os trabalhos de
pesquisa são registrados em língua indígena e/ou em português por meio de textos e desenhos e usados
como materiais de apoio na escola, constituindo uma fonte para a elaboração de materiais didáticos
e/ou de pesquisa.
Os professores indígenas estão preocupados em registrar as narrativas tradicionais e a história oral de
cada povo, calendários de festas e da obtenção de alimentos, canções, remédios, rezas,
tatuagens e pinturas corporais, a história do contato e da demarcação da terra, o artesanato, as frutas do
mato, a fauna, os conhecimentos agrícolas da roça, a floresta e a capoeira, bem como o uso e conservação
destes recursos.
Durante as etapas intensivas e no acompanhamento pedagógico, eles também elaboram materiais didáticos com
a assessoria da equipe de especialistas. Estes materiais, nas línguas indígenas e na língua portuguesa, suprem
a ausência de materiais didáticos que contemplem a especificidade cultural das escolas indígenas. Os textos
elaborados pelos professores nos cursos são xerocados para seu uso nas escolas; com base em sua utilização
pedagógica, são revisados pelos professores cursistas e pela equipe do ISA para serem publicados.
O Projeto de Educação e a Gestão Territorial
As escolas indígenas do Parque do Xingu têm um papel importante no processo de formação das comunidades
para a gerência de seu próprio território. Os povos do Parque do Xingu vêm sentindo a pressão
do crescimento das cidades ao seu redor, presenciam o assoreamento dos rios formadores do rio Xingu, cujas nascentes se encontram
fora dos limites do PIX, em razão do desmatamento e das queimadas provocados por fazendeiros e madeireiros, a contaminação
dos rios por agrotóxicos usados na plantação de soja e arroz, invasões de madeireiros, garimpeiros,
pescadores e caçadores. Além desses problemas, surgem também novas necessidades de consumo na população
do PIX impostas pelo contato com a sociedade não-indígena.
Por isso, a gestão territorial é o tema adotado como espinha dorsal do processo de formação dos professores
indígenas. Todas as disciplinas abordam temas relacionados ao uso e à preservação dos recursos naturais,
às atividades econômicas não predatórias e ao relacionamento com a sociedade não-indígena,
em especial a convivência com as fazendas, cidades e projetos de colonização ou econômicos limítrofes
ao Parque do Xingu.
A educação ambiental e a educação para a saúde são temas que perpassam todas as disciplinas.
As escolas têm a responsabilidade de formar crianças e jovens conscientes para gerenciar o território e os
recursos naturais do Parque do Xingu. Esta formação envolve a reflexão sobre a situação atual
da região e as estratégias possíveis de manejo interno dos recursos naturais, e encontra subsídios
para o diálogo com os vizinhos do Parque e agências governamentais.
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