Expectativas das Lideranças e das Comunidades Locais

Uma das preocupações da equipe envolvida no Projeto de Formação de Professores do Parque do Xingu tem sido conhecer as diferentes visões e expectativas que as lideranças e comunidades locais têm a respeito das escolas indígenas.

Durante os primeiros anos de atividade do Projeto, algumas comunidades do Xingu demonstravam certa resistência em relação ao trabalho dos professores indígenas, pois os julgavam despreparados para lecionar. Duas aldeias, a dos Yawalapiti e a dos Kamaiurá de Ypawu, demoraram para se integrar ao processo, o que começou a ocorrer em 2001, com a participação de jovens destas aldeias no curso de formação.

Estas duas aldeias estão localizadas próximas ao Posto Indígena da Funai que, até os anos oitenta, contratava professores e funcionários não-índios para trabalhar na escola. O fato de sempre terem tido a "escola do Posto" perto de suas aldeias fez com que as lideranças vissem o ensino escolar como algo separado das formas tradicionais de transmissão de conhecimento. Para eles, uma escola indígena dentro da aldeia estava contribuindo para a desestruturação da cultura tradicional. Se por um lado tais lideranças têm razão em desvincular processos tradicionais de transmissão de conhecimento do espaço escolar, por outro, o histórico dessa escola do Posto da Funai mostra que ela nunca trouxe resultados satisfatórios em termos da própria expectativa que os índios do Alto do Xingu tinham em relação ao conhecimento que desejavam obter do mundo dos brancos. Esse mesmo pensamento não se coloca apenas em relação à escola, mas se reflete também na formação de agentes de saúde indígenas.

Outras lideranças das demais aldeias apóiam o trabalho dos professores indígenas. A maioria dos chefes cobram dos professores uma postura de "exemplo" com relação à manutenção das tradições: devem usar a pintura corporal, cortar o cabelo da maneira tradicional e participar intensamente das festas e cerimônias realizadas nas aldeias - postura incondicionalmente apoiada pelo Projeto de Formação de Professores do Parque do Xingu. Na aldeia Ypawu está ocorrendo também uma experiência positiva de “escola indígena”, na qual os velhos ensinam aos mais novos suas tradições. Os alunos aprendem a cantar, tocar instrumentos, dançar, confeccionar artesanato, ouvem histórias.

Além disso, a crescente preocupação com os problemas ambientais do Parque vem criando no conjunto das lideranças xinguanas uma opinião cada vez mais positiva sobre o trabalho desenvolvido nas escolas e sobre a seriedade dos educadores indígenas.

No Alto Xingu, a expectativa da maioria das lideranças é de que a escola ensine português, considerando o estudo da língua indígena como menos importante. Nessas comunidades, onde ainda existem fortes mecanismos de manutenção das tradições culturais, a proposta de uma escola diferenciada que contemple o estudo da língua e conhecimentos indígenas não é considerada prioritária. A expectativa é de formar pessoas que saibam lidar com os não-índios, agentes de contato que saibam falar bem o português, ou seja, uma idéia de escola voltada primeiro para os jovens e não necessariamente para alfabetização das crianças. Essas comunidades não esperam o funcionamento contínuo da escola: esta deve submeter-se à realização das festas e trabalho nas roças.

As lideranças da região do Médio e Baixo Xingu demonstram uma expectativa diferente. Além da aprendizagem do "mundo do não-índio", vêem na escola um espaço de valorização da língua e dos conhecimentos indígenas.

Os Kaiabi, Suyá e Yudjá foram protagonistas na organização da ATIX - Associação Terra Indígena Xingu - que desenvolve o projeto "Kumaná", de revitalização cultural. Os professores participaram intensamente das atividades de preparação de artesanato e têm procurado os velhos para realizarem pesquisas sobre a história e os conhecimentos tradicionais.

O fator positivo, portanto, de todo esse processo de discussão sobre as escolas indígenas da região do Xingu tem sido a oportunidade de articulação entre professores e lideranças em um fórum de discussões, o que tem possibilitado aos professores a percepção de que seu trabalho está inserido num contexto maior da política xinguana de gerenciamento e defesa do território.

Regularização e Gestão das Escolas

Desde 1996, a equipe do ISA vem se articulando com a Secretaria do Estado de Educação do Mato Grosso - SEDUC-MT - para buscar juntamente com professores e lideranças do PIX a regularização das escolas. Nessa ocasião, a política estadual estava direcionada à municipalização das mesmas. Uma vez que o território do PIX está juridicamente retalhado entre 10 municípios, o ISA avaliou que essa orientação seria problemática. Foi então organizada com a SEDUC uma reunião com os prefeitos e secretários de educação dos municípios envolvidos e a partir dessa ocasião foram feitos os decretos municipais de criação das escolas.

Após um ano de assinados os decretos, somente alguns municípios procederam às contratações dos professores e forneceram materiais escolares. As dificuldades de acesso dos professores à sede dos municípios, a não contratação de alguns, a falta de compreensão da especificidade das escolas do Parque por parte dos técnicos das secretarias municipais, provocaram insatisfação dos professores índios e lideranças das aldeias. A estadualização das escolas indígenas passou a ser reivindicada. Para que isso fosse viabilizado, a Secretaria Estadual propôs a criação de três escolas centrais: uma no sul, outra na região central e mais uma ao norte do Parque do Xingu. As demais escolas tornaram-se Escolas Anexas.

Em Assembléia da Associação Terra Indígena Xingu (ATIX) em 1998, lideranças e professores decidiram pela estadualização de vinte e uma escolas. Nove continuaram municipalizadas, ligadas a três municípios, por opção de lideranças e professores dessas escolas.

Para as escolas estadualizadas foram escolhidos três diretores entre os professores índios. Eles têm se responsabilizado pela compra de materiais e prestação de contas à SEDUC, recebimento e distribuição entre as escolas de recursos para a merenda, além da articulação entre o grupo de professores. Redigiram também o pedido de autorização de funcionamento das escolas ao Conselho Estadual de Educação - CEE-MT, que foi aprovado. A merenda é adquirida nas próprias comunidades. Foi consenso entre professores e lideranças manter e valorizar a alimentação tradicional, evitando que a escola incentive a entrada de alimentos industrializados.

O atendimento das Secretarias Municipais de Educação tem sido precário. Raramente enviam materiais escolares em quantidade suficiente, interferem negativamente do ponto de vista pedagógico, não investem na construção de escolas e não possibilitam nenhum gerenciamento participativo por parte das comunidades indígenas. Por essa razão em 2002 professores e lideranças estadualizaram a Escola Central Leonardo Villas Boas, com outras três escolas anexas.

A SEDUC-MT, a partir de 1998, contratou uma educadora, que atua com a equipe do ISA nos cursos, no acompanhamento pedagógico e também na assessoria aos diretores indígenas no processo de gestão das escolas.