Carta da Coidi/Oici

Sr. Gal

Comandante Militar da Amazônia

Manaus, AM

Sr. General

Aproveitando sua passagem por Iauareté, apresentamos algumas questões do povo deste Distrito à sua consideração:

1- Problemas com recrutas de fora: há alguns anos nossas lideranças solicitaram ao comando do 5º BIS que o Exército passasse a recrutar somente soldados da região para compor o contingente dos pelotões localizados nas Terras Indígenas da região. Isso de fato aconteceu, o que veio a acabar com muitos problemas sociais que aconteciam nas comunidades onde os pelotões estão instalados. Mas agora, no ano de 2002, o Exército passou a recrutar novamente os soldados de Manaus para esses pelotões. Imediatamente, os problemas do passado voltaram a aparecer. Em Iauareté, em todas as festas de finais de semana estamos observando atritos entre os soldados de fora e os rapazes do povoado. São brigas que acontecem à noite, motivadas na maior poarte dos casos pelo assédio dos recrutas de fora sobre as moças do povoado. As lideranças de Iauareté já buscaram discutir o assunto com o comandante do pelotão local. Porém, não acreditamos que medidas de punição a esses casos poderão por um fim definitivo ao problema. Nesse sentido, gostaríamos de saber qual é a posição do CMA a respeito do assunto.

2- Hospital Calha Norte: esse hospital foi recentemente inaugurado pela Secretaria de Saúde do Estado do Amazonas (SUSAM) e, na falta de médicos contratados diretamente pelo governo, começou a funcionar com o médico, dentista e bioquímico do pelotão. Depois de cerca de um mês de funcionamento, os profissionais foram proibidos de atender no hospital. Gostaríamos de saber o motivo dessa proibição, que está praticamente impedindo o atendimento ambulatorial. Até o momento não tivemos qualquer explicação sobre a participação do Exército no funcionamento do novo hospital. Vemos que novas casas foram construídas pela prefeitura de São Gabriel para abrigar os médicos militares que deveriam vir para servir aqui, de acordo com exigências do próprio Exército. Em seguida a SUSAM reequipou totalmente o hospital. Agora, seu funcionamento fica prejudicado apesar de termos dois médicos servindo no pelotão.

Contamos com um posicionamento por parte do Comando Militar da Amazônia sobre as questões acima. Acreditamos que o diálogo aberto é a melhor forma de garantir um bom relacionamento entre o Exército e as populações indígenas do alto rio Negro.

Atenciosamente

Basílio Jesus Gama Brito

Presidente da Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauareté (Coidi)

José João Bosco Sodré Dias

Presidente da Organização Indígena do Cenbtro Iauareté (Oici)