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FUMANDO A MATA ATLÂNTICA

Souza Cruz ignora origem da lenha utilizada por agricultores nas estufas de fumo

Maura Campanili

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Madeira nativa alimenta estufas, que
funcionam sob orientação da
Souza Cruz

João Paulo R. Capobianco

Massacrados pela comunidade médica pelo mal que provocam não só à sua própria saúde, mas também a de quem está ao seu redor, os fumantes têm um passivo a mais a pesar sobre suas consciências: a cada 300 cigarros acesos, uma árvore é derrubada. Isso significa que o fumante de um maço de cigarros por dia consome uma árvore a cada 15 dias, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. No caso do fumo produzido no Brasil, existe ainda um agravante: essa árvore provavelmente é nativa da Mata Atlântica, segundo ecossistema mais ameaçado do planeta, reduzido atualmente a cerca de 7% de sua área original.

Estima-se que mais de 70% dos fumicultores da região sul do país (responsável por 90% da produção nacional) ainda utilizem lenha proveniente da Mata Atlântica na cura do fumo - processo de secagem acompanhada de transformações químicas do fumo, feito no Brasil em estufas alimentadas por madeira. Somente na safra 96/97, foram cultivados, no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, 310.290 hectares de fumo por 209.560 produtores, que se utilizaram de 122.170 estufas.

Apesar do intenso marketing ecológico, que inclui projetos de educação ambiental para crianças, a Souza Cruz não está preocupada com a origem da lenha que alimenta as estufas. Além de comprar toda a produção, a empresa é responsável pela orientação técnica dos agricultores, instruindo como plantar, colher, utilizar as estufas. O combustível para alimentá-las, porém, é responsabilidade exclusiva do produtor.

Em Santa Catarina, o setor da fumicultura continua sendo um dos principais responsáveis pelo desmatamento. Segundo o Atlas da Mata Atlântica (SOS Mata Atlântica/Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais/Instituto Socioambiental), no período 90/95, foram desmatados no Estado 70.065 hectares, equivalente a 2,7 campos de futebol por hora, 24 horas por dia. O levantamento indica que a fumicultura está entre os principais responsáveis por esses números, junto com a expansão urbana e os assentamentos agrícolas. Segundo Miriam Prochnow, presidente da Apremavi (Associação de Preservação do Meio Ambiente do Alto Vale do Itajaí), a fumicultura é responsável também por muitos pequenos desmatamentos (não detectados pelo Atlas), que somam milhares de hectares por ano.

LENHA PLANTADA

Conforme informações da Apremavi, os fumicultores em Santa Catarina já tiveram uma chance de se adaptar à legislação ambiental brasileira quando, em 1990, foi realizado um acordo entre o Ibama, a indústria do fumo e a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra). Foram concedidos, na ocasião, uma autorização e um prazo especial para que o fumicultores pudessem usar lenha nativa até o final de 1996, sob o compromisso de que a partir de 1997 todos estariam auto-suficientes em lenha plantada. Além do acordo não ter sido cumprido, atualmente esses setores estão empreendendo nova campanha para conseguir mudanças na legislação ambiental - especialmente o Decreto 750/93, que regulamenta o uso da Mata Atlântica -, para que possam usar a bracatinga (espécie de árvore nativa de crescimento bastante rápido) para suprir de lenha os fumicultores.

"Ao contrário do que prega a campanha da Afubra, as florestas de bracatinga não são florestas homogêneas, mas contêm dezenas ou centenas de outras espécies, que seriam liquidadas com a forma de manejo defendida pelo setor, que prega o corte total da área e utilização de queimada", explica Wigold Bertoldo Schäffer, coordenador de projetos ambientais da Apremavi.

A entidade ecológica defende um manejo sustentável da bracatinga ou de outras espécies existentes em florestas secundárias da Mata Atlântica, com cortes seletivos. Um projeto da Apremavi, que desenvolve manejo numa propriedade piloto em Atalanta (SC), verificou que o crescimento das árvores numa área manejada foi 20% superior, em apenas três anos, em comparação com outra não manejada com as mesmas características iniciais. Segundo Leandro Casanova, engenheiro florestal do projeto, hoje existe um grande número de agricultores querendo trabalhar conforme determina a legislação, mas encontram dificuldades, principalmente no campo burocrático.

email.gif (1046 bytes)maura@socioambiental.org

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