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REINO UNIDO RESISTE AOS TRASNGÊNICOS

Nem mesmo a monarquia britânica escapa ao debate

Marco Gonçalves

A comercialização de sementes e produtos geneticamente modificados no mercado britânico transformou-se numa luta por corações e mentes. A norte-americana Monsanto Company, uma das duas maiores empresas de químicos agrícolas do mundo, está investindo 1 milhão de libras (cerca de US$ 1,6 milhão) em marketing para convencer comerciantes e consumidores das virtudes sociais, científicas e ambientais dos alimentos alterados geneticamente - uma avant-première do que pode vir a ocorrer no Brasil, caso esta e outras corporações do setor encontrem obstáculos ao livre comércio de seus produtos.

Desde o ano passado, a estratégia da Monsanto para furar a retranca dos britânicos combina lobby junto às instâncias governamentais e à mídia - inclusive, com o auxílio luxuoso do governo Clinton - com campanhas publicitárias maciças. Todo este esforço, entretanto, tem surtido pouco efeito, já que nos últimos meses os opositores dos transgênicos têm obtido adesões políticas e vitórias importantes em tribunais. Nem mesmo a monarquia ficou de fora: ano passado, o princípe Charles escreveu artigo no qual condena radicalmente os transgênicos enquanto louva a agricultura orgânica. "Pessoalmente não desejo comer nada com modificações genéticas e não serviria este tipo de produto para minha família ou convidados", escreveu o princípe, emendando que "há crescente evidência de que muito mais pessoas sentem o mesmo".

Possivelmente. Na Grã-Bretanha, há uma frente em favor da agricultura orgânica - aquela praticada sem o uso de químicos nos cultivos - que reúne não só sua alteza, mas donos de supermercados, ONGs e uma legião de consumidores. Recente artigo publicado na imprensa inglesa aponta que o mercado para produtos orgânicos dobra a cada cinco anos e que a demanda suplanta a produção. Segundo o artigo, o desempenho dos produtores de orgânicos seria melhor se houvesse políticas para incentivá-lo. Em favor dos alimentos orgânicos, redes varejistas decidiram rotular qualquer produto sobre o qual recaia suspeita de conter organismo geneticamente transformado (OGM) - aquilo a que se chama "segregação" e que multinacionais como a Monsanto consideram o primeiro degrau em direção aos infernos.

SEM PRECONCEITOS

No Reino Unido e em outros países europeus, como a França, a rotulagem têm se revelado um recurso possível contra os transgênicos enquanto se aguarda por decisões mais efetivas, como a moratória. Em fevereiro, organizações ambientalistas e de consumidores exigiram a moratória ao premiê Tony Blair, que se confessou favorável aos transgênicos. No mesmo mês, o diário Daily Telegraph informou que os conselheiros científico (sir Robert May) e ambiental (sir Crispin Tickell) de Blair e um painel de cientistas recomendaram-lhe o mesmo caminho, argumentando que a liberação do plantio de sementes com modificações genéticas apresenta riscos para a saúde dos súditos da rainha e para a agricultura, fauna e flora do reino. Querem mais pesquisas para se certificar do contrário.

Em contrapartida, o governo norte-americano anunciou que pretende levar a questão da rotulagem a um encontro da Organização Mundial de Comércio (OMC) previsto para abril. Segundo informe do UK Daily Mail, os EUA consideram a medida uma "barreira ilegal ao comércio", que cria "preconceito" contra os agricultores que cultivam OGMs. Há poucas semanas, o ministro da Agricultura de Blair, Jeff Rooker afirmou que "não há como impor a moratória a tais cultivos sob as leis da União Européia e da OMC". Em resposta a uma consulta feita por organizações ambientalistas, o advogado londrino Phillipe Sands, citado pelo Enviroment Service News, apontou que um meio para banir ao menos temporariamente os transgênicos do Reino Unido seria tratar a questão sob a ótica da proteção ambiental. Assim, qualquer decisão não poderia ser considerada "uma restrição arbitrária ao comércio".

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MONSANTO E SUAS LIÇÕES DE DEMOCRACIA

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Capa da Revista The Ecologist

A julgar pelas denúncias da imprensa britânica, de santo a multinacional de Robert Shapiro só têm o nome. Em fevereiro último, a Monsanto foi multada em 17 mil libras (US$ 27,2 mil) por um tribunal inglês após ter violado normas ambientais em uma plantação de colza (planta da qual se produz o óleo de canola) geneticamente modificada. As autoridades inglesas haviam condicionado o plantio à observação de uma faixa de seis metros de largura de um campo vizinho com colza convencional. Sem guardar tal distância, houve intercâmbio entre as duas variedades, inviabilizando testes entre os dois tipos de sementes.

As denúncias mais incisivas, entretanto, estiveram nas páginas da revista londrina The Ecologist, de setembro/outubro de 98 - que, inclusive, enfrentou problemas com gráficas, que se recusaram a imprimi-la temendo processos movidos pela multinacional. Segundo a revista, a Monsanto tem por trás de seus 98 anos de história um passivo socioambiental que registra envenenamento de populações urbanas e de animais por dioxinas, negligência no transporte de produtos químicos e vasta experiência em esconder os deletérios efeitos de seus produtos, inclusive manipulando agências governamentais nos EUA.

Dos vários "podres" publicados pela revista, dois episódios recentes revelam muito sobre o modus operandi da empresa. Em 1996, um canal da Fox na Flórida decidiu produzir uma série sobre o caso dos hormônios bovinos rBGH produzidos pela Monsanto. Poucos dias antes da série estrear, a Fox TV recebeu a primeira de duas cartas de advogados que representavam a companhia, na qual era dito que a Monsanto sofreria "grandes prejuízos" se os programas fossem ao ar. Embora a emissora tivesse anunciando estrondosamente a exibição da série, a cancelou em cima da hora. A segunda carta advertia para as "terríveis conseqüências" para a Fox se a série fosse exibida da forma como havia sido preparada.

Outros casos referem-se à liberação e regulação dos produtos da empresa para o comércio interno. Num dos relatos, a Food and Drug Administration (FDA), agência federal que regula alimentos e drogas, se opôs à rotulagem do leite obtido de animais tratados com o rBGH - hormônio que induz vacas a produzirem mais leite do que o fariam naturalmente - alegando que "virtualmente" não haveria diferenças em relação ao leite comum. À época, o técnico do FDA responsável pela política de rotulagem era Michael Taylor, ex-sócio de uma empresa de advocacia que representara a Monsanto quando esta solicitou a aprovação para o rBGH, em 93. Tempos depois, Taylor deixou a agência e voltou a trabalhar para a Monsanto. Segundo a revista, em seguida o FDA ameaçou processar os produtores que se atrevessem a rotular seus produtos com o selo "BGH-free", apesar de pesquisas indicarem que o consumo em grande escala do leite afetado pelos hormônios poderia causar câncer.

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