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O Estatuto do Índio, assinado em 1973 e ainda vigente, está
totalmente ultrapassado, especialmente porque prescreve a responsabilidade
de tutela do estado brasileiro sobre os povos indígenas, enquadrados
como "relativamente incapazes" - o que revela uma incapacidade
histórica de compreensão de que os índios são
povos culturalmente diferenciados.
Os obstáculos encontrados hoje para a aprovação
de uma lei específica que aponte novos rumos para a política
indigenista decorrem dessa concepção assimilacionista e
integradora. O Código Civil Brasileiro, de 1916, quando classificou
as diferentes capacidades do homem de exercer seus direitos e obrigações
na ordem civil, inseriu os silvícolas na categoria dos "pródigos",
ou seja, aqueles relativamente incapazes para certos atos. Portanto, a
origem da tutela vem atrelada ao papel atribuído ao órgão
indigenista oficial de monitorar a "ausência de capacidade"
dos índios exercerem seus direitos e interagirem com o restante
do país.
Atualmente, é preciso admitir que a situação dos
povos indígenas mudou. Nos últimos 30 anos, as relações
com a sociedade não índia transformaram-se e intensificaram-se,
o que permitiu que eles compreendessem muito melhor quem somos e quais
são nossas leis. Hoje torna-se necessário um novo Estatuto
que garanta a esses povos sua sobrevivência como sociedades diferenciadas
e desatreladas de uma visão tutelar e paternalista. O que não
desincumbe o governo de prestar serviços básicos de educação
e saúde, bem como apoiar projetos culturais, econômicos e
ambientais dos índios.
O novo cenário deve contar com a inclusão participativa
dos índios nas questões que afetam seus interesses, tais
como a administração direta dos seus territórios,
o acesso aos serviços públicos, ao mercado de trabalho,
às linhas oficiais de crédito, a garantia de direitos autorais
e de propriedade intelectual, a proteção ao conhecimento
tradicional e representação segundo usos e costumes, a proteção
aos recursos naturais e o direito de atuação em todas as
instâncias oficiais de discussão da questão indígena.
Se for mantida a postura de zelar pelo protecionismo tutelar enraizado
na mentalidade assimilacionista que norteou a sociedade brasileira ao
longo de 500 anos, estaremos reforçando o desrespeito que até
hoje legitimou atitudes dos agentes do estado e da sociedade: preconceito
e desinformação disfarçados de complacência.
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