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A luta contra a exploração madeireira e pela demarcação da Terra Indígena causou transformações importantes na organização social e política dos Ashaninka do rio Amônia. Desde o início do século XXI, a maioria dos índios vem mudando seu padrão de assentamento, tradicionalmente disperso pelas margens dos rios e igarapés, para juntarem-se numa comunidade. Essa mudança afetou a organização política interna. Novas instituições, como a cooperativa e a escola, foram criadas para concretizar as reivindicações indígenas e ocupam hoje um lugar central na vida social dos índios.
Com a criação da associação Apiwtxa, os novos líderes que surgiram durante a luta pela demarcação da área tornaram-se os mediadores entre os Ashaninka e os diferentes setores do indigenismo (Funai, ONGs, Governo do Estado etc.) e desenham hoje os caminhos da política interétnica.
Essas mudanças na política interna e na organização social dos Ashaninka do rio Amônia resultam de fatores externos, mas também revelam a dinâmica e a criatividade da própria sociedade ashaninka, que incorporou esses novos modelos reinterpretando sua estrutura social tradicional. Assim, por exemplo, o agrupamento na aldeia Apiwtxa juntou várias famílias em torno de Antônio Pianko, mas o padrão de assentamento permaneceu organizado em pequenos grupos domésticos. De modo semelhante, os novos líderes ocupam um espaço privilegiado na política do contato interétnico, mas não substituíram os mecanismos da antiga "chefia", cujas atribuições também são limitadas e garantem a liberdade de cada família.
Com um padrão de assentamento tradicionalmente disperso, a organização social ashaninka é muito flexível. A unidade social é a família nuclear, geralmente composta pelo marido, esposa e seus filhos. Essas famílias nucleares podem agrupar-se em torno de um homem mais velho (um pai ou um avô) constituindo um grupo doméstico. Esses pequenos agrupamentos de casas compõem-se, geralmente, de uma a seis famílias nucleares ligadas por relações de afinidade e consangüinidade. Os grupos domésticos caracterizam-se por uma grande reciprocidade e pela cooperação econômica entre as diferentes famílias nucleares, tais como trabalhos em conjunto nos roçados e repartição da caça. Eles podem ser considerados como a maior unidade política estável da sociedade ashaninka (Weiss 1969: 40).
Um conjunto de grupos domésticos pode agrupar-se sob a influência de um "chefe" para formar o que os Ashaninka chamam de nampitsi e que Mendes define como “território político” (Mendes 1991: 26). O tamanho de um nampitsi é muito variável e suas fronteiras não são sempre bem delimitadas. Os grupos domésticos que compõem esses territórios políticos podem morar distantes uns dos outros ou agrupar-se numa comunidade. Um nampitsi também pode coincidir com os limites de um grupo doméstico ou com uma família extensa. No seu interior, a cooperação econômica entre os grupos é mínima, embora seus membros possam juntar-se para participar de pescarias ou caçadas coletivas.
O ritual do piyarentsi é o principal modo de interação social no interior do nampitsi. A estrutura desses territórios políticos é muito flexível, assegurando ao mesmo tempo a independência e a liberdade de seus componentes e uma solidariedade política interna. Vários fatores contribuem para a ampliação, redução ou fissão de um nampitsi: prestígio do "chefe", mortes, conflitos entre famílias, casamentos... O sistema de troca tradicional ayõpari permite o estabelecimento de alianças entre diversos nampitsi, criando uma solidariedade étnico-política maior que pode ser mobilizada em função das circunstâncias históricas e até estender-se a outros grupos indígenas.
É importante salientar que a figura do "chefe" não é sempre encontrada na sociedade ashaninka e a instituição da chefia, quando existe, também apresenta uma grande flexibilidade. Quando existe, o "chefe" pode ser identificado pelo termo kuraka (ou curaca), de origem quéchua, ou pela palavra ashaninka pinkatsari.
Entre os Ashaninka do Amônia, essas duas definições estão presentes. Todavia, muitos afirmam que o pinkatsari não é necessariamente um "chefe" ou kuraka. O pinkatsari é um ãtarite (“aquele que sabe”), mas um guerreiro (owayiri), um xamã (sheripiari) ou um homem velho que se destaca por sua sabedoria e experiência também pode ser qualificado de pinkatsari, sem necessariamente ser kuraka ou "chefe". Dessa forma, podemos levantar a hipótese de que não existe palavra na língua ashaninka para designar "chefe", o termo de origem quéchua kuraka sendo o único unanimemente reconhecido para qualificar essa função. |