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A cooperativa criada pelos Ashaninka do rio Amônia começou a funcionar em 1987, com recursos da Funai. Os Ashaninka também receberam, entre novembro de 1989 e fevereiro de 1990, um recurso da Gaia Foundation (ONG ambientalista britânica) que lhes permitiu adquirir um batelão e dispor de um pequeno capital de giro. Posteriormente foram apoiados pelo BNDES.
No início dos anos 1990, os Ashaninka passaram a investir na produção de artesanato, cujo comércio era favorecido naquele contexto pela visibilidade política e midiática da Aliança dos Povos da Floresta. Durante a ECO-92 no Rio de Janeiro, por exemplo, se vendeu artesanato ashaninka no âmbito da Aliança. Nos anos seguintes, firmaram parcerias com a loja paulistana Amoa-Konoya, com a empresa americana Aveda e com a Funai (lojas Artíndia e projeto Moitará, com exposição e comércio do artesanato em Brasília).
Até hoje, a produção e venda de artesanato representam de 70 a 80% do capital da cooperativa e são a principal atividade comercial dos Ashaninka. Todavia, a despeito do capital advindo com esse comércio, o acesso dos Ashaninka aos manufaturados permanece, por sua própria escolha, restrito a produtos indispensáveis: sal, munição, linha de pescar, anzóis, terçados, sabão...
Para oferecer um dispositivo legal capaz de negociar e executar projetos, bem como defender os interesses dos Ashaninka do rio Amônia, em 1991 foi criada a associação Apiwtxa, oficialmente registrada em 1993.
O processo de afirmação da etnicidade e de revitalização cultural aparece de maneira significativa na área de educação escolar através da idéia de “educação diferenciada” e do projeto promovido desde 1997 pelas lideranças da Apiwtxa de criar uma “escola tradicional”. Recentemente, os Ashaninka também se apropriaram do uso do vídeo para registrar momentos importantes da comunidade e seus conhecimentos tradicionais. A escola e o vídeo, instrumentos da sociedade ocidental, adquiriram com os Ashaninka do rio Amônia um novo significado. Assim, os instrumentos dos brancos foram reinterpretados pelos índios e servem hoje para fortalecer suas tradições culturais e afirmar a identidade étnica.
Depois da demarcação da Terra Indígena, em 1992, os Ashaninka do rio Amônia passaram também a executar uma série de projetos de desenvolvimento sustentável com diferentes parceiros do indigenismo, em busca de alternativas para a exploração madeireira. Iniciaram uma política ambiciosa de proteção e recuperação ambiental de seu território e procuraram comercializar alguns de seus recursos naturais, produzidos de maneira sustentável. Assim, no novo contexto do indigenismo, marcado pelo crescimento das preocupações ambientais, os Ashaninka do rio Amônia encontraram novos caminhos para proteger seu meio ambiente e, ao mesmo tempo, tirar benefícios de seus recursos naturais.
Junto com a CPI (Centro de Pesquisa Indigenista, ONG que já não mais existe), a associação ashaninka elaborou um projeto para o aproveitamento de óleos e essências de palmeiras nativas da região. Mais de cinqüenta produtos, entre óleos, folhas, polpas, castanhas e outros foram pesquisados e catalogados durante os três anos do projeto.
Em 1994, ainda no âmbito da Aliança dos Povos da Floresta, os Ashaninka obtiveram da embaixada dos Países Baixos um projeto de vigilância e conservação ambiental que financiou uma infra-estrutura mínima para a proteção do território indígena contra as invasões. Em 1995 e 1996, os Ashaninka do rio Amônia experimentaram a coleta de sementes de árvores nativas. Voltada para o mercado de reflorestamento, a produção foi encaminhada ao IPEF (Instituto de Pesquisa e Estudos Florestais), da ESALQ (Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz), em Piracicaba (SP). Pelo acordo de parceria, o instituto era encarregado da comercialização das sementes e, após a cobrança de uma taxa de 25% para as despesas de armazamento e conservação, repassava o valor restante para a Apiwtxa de acordo com as vendas.
Em 1999, ao mesmo tempo em que coletavam castanha de murmuru (palmeira: astrocaryum sp) para a empresa Tawaya, os Ashaninka trabalharam com um cipó denominado regionalmente de “espera-aí” (uncaria tomertosa). A produção de cerca de 25 toneladas foi encomendada e vendida para a empresa Biosapiens, que tem uma representação em Cruzeiro do Sul.
No ano 2000, em cooperação com a Secretaria de Coordenação da Amazônia do Ministério do Meio-Ambiente (SCA-MMA), com o governo do Estado do Acre e com financiamentos do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável), a Apiwtxa implementou um projeto de apicultura.
Ainda em 2000, os Ashaninka do rio Amônia encaminharam um ambicioso projeto de “manejo de sistemas agroflorestais e recuperação ambiental de áreas degradadas” ao PD/A (Projetos Demonstrativos tipo A, um dos sub-programas do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil).
A preocupação dos Ashaninka com o meio ambiente e o uso sustentável de seus recursos também é visível em relação à fauna. Após os danos causados pela exploração madeireira, as pescarias e as caçadas predatórias realizadas pelos posseiros brancos, os Ashaninka iniciaram por conta própria um plano de manejo da fauna na Terra Indígena. Muitos animais, como o tracajá (shenpiri), quase desapareceram da região durante a década de 1980.
Em 1993, numa reunião comunitária, os Ashaninka discutiram o manejo do tracajá e decidiram proibir a coleta de ovos e o consumo da carne do animal durante um período de três anos. A população de tracajás, que estava em extinção no rio Amônia, aumentou novamente. Por meio do Projeto de Manejo para Reprodução de Quelônios, realizado em parceria com o Ibama e a ONG SOS Amazônia, desde 2003 os Ashaninka promovem uma festa todos os anos, com a presença de autoridades do mundo dos brancos, no dia da soltura de centenas de quelônios para repovoamento nos rios da TI do Amônea.
Os índios também proibiram o uso do veneno waakashi (timbó) nas pescarias realizadas no rio Amônia e nos principais igarapés para preservar os peixes. Como a pesca, a caça também foi alvo de importantes iniciativas destinadas a repovoar a floresta com os animais tradicionalmente caçados pelos Ashaninka. Desde 1992, as lideranças da Apiwtxa afirmam proceder a uma rotatividade das áreas de caça e estabeleceram zonas de refúgio para os animais.
Assim, ao longo dos últimos quinze anos, a Apiwtxa obteve financiamentos de diversas fontes e iniciou parcerias que possibilitaram a implementação de alternativas econômicas respeitosas ao meio ambiente. Os Ashaninka do rio Amônia não só adotaram o “rumo da sustentabilidade”, como são considerados hoje um exemplo muito bem sucedido da nova orientação política do desenvolvimento amazônico, buscando conciliar a preservação da natureza com alternativas econômicas viáveis para a comunidade. Não por acaso, o índio ashaninka Francisco da Silva Pianko em 2001 era secretário do Meio Ambiente do município de Marechal Taumaturgo, cargo hoje ocupado por seu irmão Benki Pianko. Francisco, desde 2003, ocupa o cargo de Secretário do Estado dos Povos Indígenas do Acre. |