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Como seus vizinhos do Rio Uaupés, os Baniwa
vivem atualmente às margens dos rios principais,
mas contam que seus antepassados não viviam tão
próximos aos rios e construíam suas malocas
em geral nas cabeceiras dos principais igarapés.
Até os dias de hoje, os Baniwa apontam antigos
lugares de moradia atualmente desabitados. Muitos dos
velhos dizem que ainda chegaram a ver esteios em pé
em alguns desses lugares, restos das velhas malocas
dos antigos. Na região do Alto Içana,
uma antiga e importante maloca localizava-se na cabeceira
do igarapé Pamari, uma área ocupada desde
antigamente pela fratria Walipere-dakenai (ou Siuci
em língua geral), que significa "netos das
cinco estrelas" (a constelação das
Plêiades). Dizem os Walipere-dakenai que ali foi
a moradia de seu primeiro líder, Vetutali (ou
Wetsudali), um poderoso guerreiro antepassado de todos
os Walipere-dakenai atuais. Conta-se que, no tempo da
escravidão, Vetutali e muitos outros Baniwa foram
levados como escravos pelos portugueses. Quando o navio
que o levava prisioneiro já baixava pelo Rio
Negro, Vetutali e um companheiro Hohodene atiraram-se
na água e conseguiram escapar, retornando então
para o Içana.
Assim como os Walipere-dakenai, os Hohodene
falam de um líder antepassado chamado Keruaminali,
que também fora levado pelos brancos, tendo permanecido
por algum tempo em Barcelos até conseguir fugir
e retornar ao Içana. Como Vetutali, Keruaminali,
ao regressar à sua terra, foi morar nas cabeceiras
de um igarapé, o Uaraná, afluente do Rio
Aiari. Os Walipere-dakenai passaram então a ocupar
uma grande extensão de terras, delimitada ao
sul pelo Rio Içana, entre a boca do Pamari até
as imediações da atual aldeia de Tamanduá.
Ao norte, os limites deste território alcançam
o Rio Cuiari, já na Colômbia. Os Hohodene
se estabeleceram na região interfluvial Içana/Aiari,
mais precisamente nas cabeceiras dos igarapés
Quiari, Uirauassu e Uaraná. Alguns Walipere-dakenai
foram morar próximo aos Hohodene e desde então
há muitos casamentos entre os dois grupos. De
acordo com os Hohodene e os Walipere-dakenai, a fuga
e o retorno desses dois líderes marcam um momento
importante de sua história, pois é quando
o Içana volta a ser repovoado após um
esvaziamento quase absoluto, resultante do tempo da
escravidão e descimentos.
Com o tempo e a influência de missionários,
militares, e comerciantes brancos, os Baniwa foram progressivamente
se transferindo de suas antigas malocas, no interior
da mata, para as margens do Içana. A população
baniwa cresceu muito e os Walipere-dakenai, por exemplo,
se espalharam por todo rio. Os Hohodene desceram o Quiari
e ocuparam toda a extensão do Rio Aiari. Há
comunidades baniwa que se estabeleceram em tempos mais
recentes até no Rio Negro, abaixo de São
Gabriel da Cachoeira. Alguns Walipere-dakenai e Hohodene
estão morando nas proximidades de Barcelos. Mesmo
assim, a área acima descrita continua a ser seu
território por excelência, reconhecido
pelo conjunto dos grupos baniwa.
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