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Na cosmologia baniwa, o universo é composto
por múltiplas camadas, associadas a várias
divindades, espíritos, e "outra gente".
De acordo com o desenho de um pajé Hohodene (ver
figura ao lado), o cosmos é basicamente composto
por quatro níveis: Wapinakwa ("o lugar
de nossos ossos"), Hekwapi ("este mundo"),
Apakwa Hekwapi ("o outro mundo") e Apakwa
Eenu ("o outro céu").
Um outro pajé elaborou um esquema mais
complexo ainda, consistindo de 25 camadas: 12 de baixo
da terra, e 12 acima. Cada uma das camadas debaixo da
terra é habitada por "gente" com características
distintas (gente pintada todo de vermelho, gente com
boca larga etc.). Acima da camada do nosso mundo são
os lugares de diversos espíritos e divindades
relacionados aos pajés: espíritos-pássaros
que ajudam o pajé em sua procura de almas perdidas;
o Senhor das Doenças, Kuwai, que o pajé
procura para curar as doenças mais graves; os
pajés primordiais e Dzulíferi, o Senhor
de pariká e tabaco; e finalmente, o lugar do
Criador e Transformador Nhiãperikuli, ou 'Dio'
que é um paraíso, a fonte de todos os
remédios, onde mora também o gavião
real, Kamathawa, o querido de Nhiáperikuli.
A cosmogonia baniwa (isto é, o tempo
do começo do mundo) é composta por um
conjunto complexo de mais de 20 mitos protagonizados
por Nhiãperikuli, iniciando com o seu aparecimento
no mundo primordial e terminando com sua criação
dos primeiros antepassados das fratrias baniwa e seu
afastamento do mundo. Mais do que qualquer outra figura
do panteão baniwa, Nhiãperikuli foi responsável
pela forma e essência do mundo, razão pela
qual pode ser considerado o Ser Supremo da religião
baniwa.
O nome de Nhiãperikuli significa "Ele
dentro do osso", referindo-se à sua origem.
Resumindo a história, no começo do mundo,
tribos de animais selvagens andavam devorando pessoas.
Um dia o chefe dos animais pegou um osso do dedo de
uma dessas pessoas devoradas e o jogou rio abaixo. Uma
velha estava chorando pela perda de seus parentes; então
o chefe mandou-lhe buscar o osso no rio. Tinha três
pequenos camarões dentro, que ela catou e levou
para casa. Lá eles se transformaram em grilos.
Ela deu-lhes comida e eles começaram a cantar
e crescer. Depois ela os levou para a roça e
deu-lhes novamente comida. Eles continuaram se transformando,
crescendo e cantando, até que apareceram como
gente: três irmãos chamados Nhiãperikunai
("Eles dentro do osso"). A velhinha os advertiu
para que ficassem quietos, mas eles começaram
a transformar tudo e assim eles fizeram o mundo. Quando
terminaram, voltaram para se vingar dos animais que
mataram seus parentes. A história conta então
uma série de atos de vingança em que os
heróis acabaram restabelecendo a ordem no mundo.
Entretanto, depois de um tempo, o chefe dos animais
- querendo matar os três irmãos - fez uma
roça nova e chamou os irmãos para queimá-la.
Enquanto eles iam para o centro da roça, o chefe
tocou fogo nas bordas. Mas os irmãos fizeram
um pequeno buraco numa árvore de ambaúba,
entraram e o tamparam. Quando o fogo (descrito no mito
como uma conflagração que queimou o mundo
inteiro) se aproximou, a ambaúba estourou e os
três irmãos saíram voando, salvos
das chamas e imortais. Desceram no rio, sopraram sobre
o chefe dos animais, e lá tomaram banho.
Neste resumo, percebe-se que a situação
do começo é de caos e catástrofe
e, na mitologia baniwa, há outras situações
semelhantemente catastróficas, que também
representam um prelúdio para uma nova ordem,
quando as forças caóticas seriam dominadas.
Aqui, o osso é o veículo simbólico
dos seres que recriaram a ordem neste novo mundo. Porém,
a destruição catastrófica do mundo
ainda permanece como possibilidade efetiva. Quando o
mundo estiver infestado por um mal insuportável
- como é representado nos mitos - as condições
serão então suficientes para a destruição
e a renovação.
O segundo grande ciclo na história do
cosmos diz respeito aos mitos de Kuwai, que têm
importância central na cultura baniwa, explicando
pelo menos quatro questões maiores sobre a natureza
do mundo: como a ordem e os modos de vida dos antepassados
são reproduzidos para todas as gerações
futuras; como as crianças devem ser instruídas
sobre a natureza do mundo; como as doenças e
o infortúnio entraram no mundo; e qual a natureza
da relação entre seres humanos, espíritos
e animais, que é a herança do mundo primordial.
O mito contra a vida de Kuwai, a criança
de Nhiãperikuli e Amaru, a primeira mulher e
tia de Nhiãperikuli. Kuwai é um ser extraordinário,
cujo corpo é cheio de buracos, consiste de todos
os elementos do mundo, e cujos zumbidos e cantos produziram
todas as espécies animais. O seu nascimento coloca
em movimento um processo rápido de crescimento,
em que o mundo em miniatura e caótico de Nhiãperikuli
se abre até o tamanho do mundo na vida real.
Kuwai ensina à humanidade os primeiros
ritos de iniciação. Durante o período
de reclusão dos meninos, porém, ele transforma
em monstro e devora três iniciandos que havia
quebrado o jejum, comendo nozes de uacú assado.
No final do ritual, porém, Nhiãperikuli
mata Kuwai, empurrando-o dentro de um enorme fogaréu,
um inferno que queima a terra, reduzindo o mundo novamente
em seu tamanho miniatura. Das cinzas de Kuwai nascem
os materiais vegetais com os quais Nhiãperikuli
fez as primeiras flautas e trombetas sagradas que seriam
tocadas nos ritos de iniciação e cerimônias
sagradas por todos os Walimanai. Amaru e as mulheres,
então, roubam esses instrumentos do Nhiãperikuli,
provocando uma longa caçada em que o mundo se
abre pela segunda vez, enquanto as mulheres, fugindo
do Nhiãperikuli, tocam os instrumentos pelo mundo
inteiro. Após uma guerra contra as mulheres,
os homens recuperam os instrumentos e, com eles, Nhiãperikuli
procura os primeiros antepassados da humanidade.
Dessa maneira, o mito de Kuwai marca a transição
entre o mundo primordial de Nhiãperikuli e um
passado humano mais recente, que é trazido diretamente
para a experiência das pessoas vivas nos rituais.
Por isso, os pajés dizem que Kuwai é tanto
deste mundo atual quanto do antigo, e que ele vive no
"centro do mundo". Para os pajés, ele
é o "Senhor das Doenças" e é
quem mais procuram em suas curas, pois seu corpo consiste
em todas as doenças - inclusive veneno, que é
a 'causa' mais freqüente da morte das pessoas até
hoje - cujas formas materiais ele deixou nesse mundo
na grande conflagração que marcou sua
"morte" e afastamento. Dizem os pajés
que Kuwai tem cabelo no seu corpo inteiro como a preguiça
preta wamu. Kuwai enreda a alma dos doentes, abraçando-as
(como a preguiça), e sufocando-as caso nenhuma
ação seja tomada; mas ele também
permite que o pajé recupere e devolva as almas
aos seus donos.
Uma decorrência fundamental da cosmogonia
baniwa é que o mundo está permanentemente
manchado pelo mal, pela doença e pelo infortúnio.
Os pajés o chamam de maatchíkwe, lugar
do mal; kaiwikwe, lugar de dor; ekúkwe lugar
podre devido a tantos mortos apodrecendo debaixo da
terra. Em contraste, os outros mundos do cosmos - principalmente
o de Nhiãperikuli - são considerados lugares
belos, sem doença, sem maldade, eternamente novo.
Mas, como uma pessoa doente, este mundo de humanos precisa
constantemente ser livrado do mal, da bruxaria e feitiçaria
que as pessoas praticam e que levam a morte e sofrimento.
Esse é o papel do pajé que são
os "guardiões do Cosmos", e os rezadores
que benzem o mundo nos rituais de iniciação,
fazendo-o seguro para as novas gerações.
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