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OS RITUAIS   
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OS RITUAIS

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Os rituais Enawenê Nawê estão relacionados a duas categorias de espíritos: os Enore, espíritos do céu, e os Yakairiti, espíritos que vivem embaixo da terra, morros e lugares inóspitos de um modo geral. Aos Enore estão relacionados os rituais Salumã e Kateokõ (ritual das mulheres). Aos Yakairiti estão relacionados os rituais Yãkwa e Lerohi.

Quando os Enawenê Nawê estão doentes ou quando há qualquer outro tipo de problema, consideram que a responsabilidade é dos espíritos Yakairiti que estão insatisfeitos com alguma coisa, ameaçando levá-los ao outro mundo. No ritual Yãkwa faz-se uma troca generalizada (homens e espíritos) através dos grupos rituais, entre todos os habitantes da aldeia. Tudo visando a cumprir os ensinamentos e satisfazer os Yakairiti, de forma a, de um lado, não dar motivos para que esses espíritos ameacem a vida da aldeia e, de outro, manter a harmonia do mundo.

Ao longo de todo o ano, os Enawenê Nawê realizam vários rituais: de janeiro a julho, o Yãkwa; de julho a setembro, o Lerohi; em outubro, o Salumã; e em novembro e dezembro, o Kateokõ, sendo este último realizado ano sim, ano não.

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O Yãkwa é o mais longo e mais importante dos rituais realizados pelos Enawenê Nawê. Realizado anualmente, durante os meses de janeiro a julho, tem seu início com a colheita do milho novo e termina com o plantio da roça coletiva de mandioca. Os grupos rituais, atualmente nove, são organizados de acordo com a linha paterna. Cada grupo ritual está relacionado a um grupo específico de espíritos Yakairiti. Os Enawenê Nawê acreditam que esses espíritos estão também organizados em grupos e habitam um território próprio (espaço físico propriamente dito), dentro do território tradicional. O nome genérico dos grupos rituais é Yãkwa, que são na verdade os clãs segundo os quais os Enawenê Nawê se organizam. Eles são, então, Ataina, Kawairi, Walitere, Toairinere, e outros, nomes de grupos de origem que, vindos em tempos míticos de pontos distantes do território (cabeceiras dos rios), juntaram-se formaram os Enawenê Nawê. Cada grupo ritual (Yãkwa/Yakairiti) está relacionado a um conjunto específico de instrumentos musicais.

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Para realizar o Yãkwa, isto é, a reunião dos clãs em que cada qual reverencia seu grupo de espíritos Yakairiti, os grupos se dividem entre os Harikare e os Yãkwa. Os Harikare são os responsáveis pela organização do ritual, isto é, cuidam da lenha, acendem os fogos, oferecem as comidas, enquanto que os demais (os Yãkwa) cantam e dançam no pátio. Por um período de dois anos, um dos grupos rituais é o grupo de Harikare principal, responsável pela roça, pela fabricação do sal vegetal e pela organização do ritual. Esse grupo não participa da pesca coletiva de barragem. Após a chegada dos homens que foram para as barragens, esse grupo permanece enquanto Harikare por um período aproximado de 15 dias. São os espíritos Yakairiti dos Harikare que estão presentes no pátio. É necessário, portanto, que todos os grupos de Yãkwa se revezem no papel de Harikare, para que todos os grupos de espíritos Yakairiti sejam satisfeitos. Esse revezamento acontece ao longo dos vários meses de ritual, quando variam os cantos e coreografias.

Na primeira parte do ritual, no mês de janeiro, entre os trabalhadores de construção de canoas, armadilhas e colheita de mandioca, os índios realizam as primeiras oferendas de alimentos, cantos e danças aos espíritos Yakairiti. Também preparam o primeiro sal vegetal, elemento fundamental de troca com esses mesmos espíritos para a obtenção dos peixes que se constituirão em uma das bases alimentares de todo o período ritual.

Na segunda parte, os homens partem para os rios menores, aonde irão construir uma ou mais barragens de pesca. Após volta dos pescadores para a aldeia acontece o auge do ritual na aldeia, que dura quatro meses, durante o qual ocorrem trocas generalizadas de alimentos, cantos e danças. Finalmente, os índios fabricam máscaras que representam os espíritos ligados aos trabalhos de plantio da roça coletiva de mandioca.


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:: Foto: Bartomeu Meliá, 1980

02 a 04:: Foto: Kristian Bengtson, 2003

Virgínia Valadão (1952-1998)
Centro de Trabalho Indigenista
Adaptado pela equipe do ISA
Agosto de 1998
 
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