| Os
jesuítas chegaram às margens do rio São
Francisco provenientes dos Colégios da Bahia
e de Pernambuco. A cidade de Porto Real do Colégio
tem este nome por ter-se originado da Residência
do Urubumirim, fundada em terras doadas ao Colégio
Jesuíta de Recife. Em torno desta Residência
foram estabelecidas duas aldeias para fins de catequese,
de acordo com a Lei de 4 de junho de 1703. Esta lei
se baseava no Alvará Régio de 1700, que
determinava que "a cada missão se dê
uma légua em quadra para a sustentação
dos índios e missionários". A aldeia
de Colégio estava a sete léguas a montante
de Penedo e a de São Brás, cerca de duas
léguas acima de Colégio. A área
das duas aldeias seria de "duas léguas de
frente por uma de fundo", dimensões que
vamos encontrar registadas em toda a documentação
oficial e que é mantida pela tradição
oral do grupo.
Com a expulsão dos jesuítas
em 1759, suas fazendas de gado foram arrematadas em
hasta pública. As aldeias indígenas, porém,
passaram para a administração de outros
missionários ou à leiga, apoiada por um
assistente espiritual.
Na aldeia de Colégio viviam
Cropotós, Cariris, Aconans, Ceococes (certamente
plural de Ciocó ou Xocó) e Prakiós.
A aldeia missionária é, pois, o berço
do "caboclo", identificação
genérica que, no século XIX adquire um
conteúdo racista, através do qual a política
do Império irá desqualificar as populações
indígenas numa política a que o jurista
Dalmo Dallari denomina "anti-aldeia". Alegando
a inexistência de "índios de raça
primitiva", as aldeias são extintas em 17
de julho de 1873 pelo Ministério de Agricultura,
Comércio e Obras Públicas.
Curiosamente, a tradição
oral do grupo, como aliás ocorre entre outras
populações indígenas do Brasil,
atribui o direito à posse imemorial das terras
a uma doação do imperador Pedro II. No
caso, a mesma teria ocorrido em sua viagem à
cachoeira de Paulo Afonso em 1859. D. Pedro efetivamente
esteve em Porto Real do Colégio e foi recebido
por um grupo de índios. O episódio está
registrado no diário de viagem do imperador que
se refere aos índios como "descendentes
de raça já bastante cruzada" (Pedro
II, 1959: 111). A política fundiária do
Império parece reforçar a idéia
que desta população fazia o imperador
e nenhum termo de doação foi localizado
nos arquivos pesquisados. |