| Parece
irrefutável que é o ritual do Ouricuri
que dá sentido à terra, à família,
à identidade, à chefia, enquanto princípio
organizador. Estrutura a vida perceptível mediante
a ordenação do sagrado, do misterioso,
do intangível, daquele reduto da vida indígena
que a sociedade nacional não consegue dominar.
Durante o trabalho de campo, sempre me foi cobrada uma
atitude discreta em relação ao ritual,
que costumam denominar nosso segredo, nosso particular.
Certamente, por motivo dessa reserva, quer do ponto
de vista documental, quer no que se refere a registro
etnográfico, as informações são
pobres e não correspondem à magnificência
de seu significado para a sobrevivência e coesão
dos remanescentes indígenas.
Denomina-se Ouricuri o complexo ritual
e o local onde se realiza. É praticado por vários
grupos do nordeste. Em Colégio as festividades
duram 15 dias, nos meses de janeiro-fevereiro. A fartura
faz parte da festa e para lá é levado
sob a forma de alimentos, tudo o que se consegue acumular
durante o ano. Na mata cerrada há uma clareira,
o "limpo", onde ocorre o ritual. Em volta
do "limpo" há construções
de tijolo para alojar as pessoas durante sua permanência.
É uma outra aldeia, a taba, construída
para fins religiosos.
O corpo ritual do Ouricuri se constitui
num conjunto de cantos e danças e na ingestão
de jurema, infusão feita da entrecasca da raiz
desta árvore, posta a macerar para produzir o
vinho. O climax do ritual é o transe resultante
do uso da jurema. Neste estado os participantes dizem
romper as barreiras entre passado, presente e futuro
numa comunhão com seus ancestrais e suas divindades.
Além de orientar as situações
sociais vivenciadas pelo grupo, é em torno de
seu significado que os Kariri-Xocó se reúnem
na luta pela terra. Em 1978 eles saem do Ouricuri para
invadir a Fazenda Modelo, depois de um ritual que os
fortalece para a luta.
Além do ritual, os índios
de Colégio mantém a tradição
da dança do toré. Existem duas modalidades.
O chamado toré "de roupa" é
uma simples forma de folguedo, que pode ser dançado
em qualquer festa, com roupas comuns. O toré
mais ritualizado, o "de búzios" (espécie
de trombeta) "faz parte do segredo, mas não
é o segredo". Quando dançado, evoca
o segredo do Ouricuri.
Após a invasão da fazenda,
usando saiotes de palha e soprando os búzios,
os índios de Colégio dançaram um
toré de búzios para as autoridades presentes,
a fim de mostrar sua condição de "índios
verdadeiros".
A dramatização da identidade
faz ver que, apesar da longa trajetória de "integração",
continuam capazes de se manter índios e fortalecidos
pelo segredo do Ouricuri |