| A
estrutura familiar do grupo em nada difere à
encontrada entre as populações rurais
pauperizadas. A família se constitui de pai e
mãe e filhos menores, havendo unidades em que
o pai é ausente.
A liderança da aldeia está
dividida entre "cacique" e "pajé",
estrutura, ao que parece, introduzida pelo primeiro
chefe do Posto Indígena. Este também teria
acrescentado, aos sobrenomes portugueses de longa data
adotados pelos índios, outros que considerou
de origem indígena. Assim temos Suíra,
Taré, Nindé, Piragibe... anexados a Queirós,
Santiago, Pires...
Com o tempo, os cargos foram legitimados
e atualmente o pajé e o cacique são escolhidos
no Ouricuri, quando não há uma interferência
mais direta do órgão tutelar. Há
ainda um Conselho formado pelos mais velhos. A essas
autoridades "tradicionais" passa a se opor,
quando dos preparativos da invasão da Fazenda
Modelo e depois dela, um grupo que se autodenomina "liderança"
e que se considera mais apto a lidar com as novas estruturas
de poder da região.
Na condição de integrados,
os Kariri-Xocó participam intensamente do cotidiano
da sociedade local, como representantes das camadas
mais pobres. Como acontece entre estas, fazem uso do
clientelismo e do compadrio como formas de lidar com
a ordem estabelecida. O compadrio ajuda a resolver problemas
de saúde, obtenção de empregos,
vaga na escola. O clientelismo se faz presente sobretudo
na política local. Os índios, apesar de
tutelados, podem votar e ser votados (Resolução
7.019/66 do TSE). Em 1983 havia um índio vereador
na câmara municipal de Porto Real do Colégio.
Os índios nascem e morrem
dentro dos rituais da igreja católica. As crianças
costumam ser batizadas e registradas. São enterrados
no cemitério local dentro do mesmo esquema reservado
para os pobres em geral. No que se refere ao casamento,
as pessoas devem casar no civil e no religioso. O casamento
com não-índios se dá quase sempre
por "fuga", com o roubo da noiva. A fuga resolve
sobretudo as divergências decorrentes do fato
de um dos dois ser índio, pois a "honra"
da moça, a ser preservada, exige que se realize
o casamento civil, não mais na igreja, que exigiria
casar "de véu e grinalda" |