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Desde meados do século XVII, em virtude
do decréscimo da população indígena
no Baixo Amazonas, conseqüência das epidemias
de varíola e da escravização, sobreveio
uma enorme carência de braços para o trabalho
nas fazendas e na coleta das "drogas do sertão".
Os colonos e missionários de São Luís
e Belém passaram então a incursionar pelo
sertão do Rio Negro e Amazonas, capturando escravos
índios e massacrando os que resistiam: eram as
"tropas de resgate" e as "guerras justas".
A Fortaleza de Barra de São José do Rio
Negro (onde hoje se encontra a cidade de Manaus), construído
em 1669, serviu de base para futuras entradas em busca
de escravos.
Na primeira metade do século XVIII, depois
de derrotarem os Manao e os Mayapena, que dominavam
o Baixo e Médio Rio Negro e que haviam sido anteriormente
seus colaboradores, os portugueses conseguiram alcançar
a região do Alto Rio Negro e de seus principais
afluentes, como o Uaupés, o Içana e o
Xié, ainda muito povoados e praticamente não
atingidos pelos brancos. Nesse período, os Carmelitas
instalaram aldeamentos até o Alto Rio Negro,
nas proximidades da atual cidade de São Gabriel
da Cachoeira. O comércio de escravos ficou tão
intenso nos anos de 1740 que estima-se que até
meados do século XVIII cerca de 20 mil índios
foram apresados e descidos do Alto Rio Negro. Nas listas
dos escravos retirados dessa região, já
estão incluídos em grande número
índios Tukano, Baniwa, Baré, Maku, Werekena
e outros que vivem hoje em dia nesta mesma área,
trazidos para trabalhar em Belém e São
Luís.
Em conseqüência do contato com os
portugueses, uma epidemia de varíola devastou
o Alto Rio Negro em 1740, matando grande número
de índios, pois é muito provável
que ela tenha se alastrado por certas partes da região
sem contato direto com os "brancos", por meio
de tecidos e roupas de algodão. Entre 1749 e
1763, epidemias recorrentes de varíola e sarampo
continuaram assolando a região, sendo que a de
sarampo de 1749 foi tão terrível que passou
a ser chamada "o sarampo grande".
A revolta indígena mais famosa desse
período foi a de 1757, liderada pelos principais
de Lamalonga no Médio Rio Negro. Esta rebelião
marca a revolta dos índios contra os missionários,
pela ênfase dada à destruição
das igrejas e paramentos religiosos e o assassinato
do padre carmelita.
Na segunda metade do século XVIII, o
governo português sob a direção
do Marquês de Pombal retirou o "poder temporal"
dos missionários. Eles perderam o controle da
administração das aldeias, que então
passaram a ser dirigidas por colonos, civis ou militares,
que também ganharam o título de "diretores
dos índios". Os missionários foram,
todavia, autorizados a ficar nos povoados para prosseguir
o trabalho de catequese e convencimento dos índios
das cabeceiras dos rios e dos igarapés a virem
se instalar nessas aldeias do Médio e Baixo Rio
Negro. Ainda assim, ocorreu um sensível declínio
do trabalho missionário. As aldeias mais prósperas
foram elevadas à categoria de povoados ou de
vilas, recebendo um nome português, muitas vezes
o de um santo. A lei pombalina queria colocar um fim
à escravidão e promover a assimilação
dos índios à sociedade colonial.
O Marquês de Pombal queria dar aos índios
os mesmos direitos dos europeus, mas logo entendeu que
os colonos dependiam, para sobreviver, do trabalho indígena,
tanto para a agricultura como para a extração
das drogas de sertão. Instituiu um sistema de
trabalho segundo o qual uma parte dos homens de boa
saúde trabalharia vários meses por ano
na construção de casas nas vilas coloniais,
ao passo que os outros cuidariam das plantações.
Mas esse sistema de regulação do trabalho
não foi respeitado e os índios continuaram
sendo explorados pelos colonos. Centenas deles foram
levados para as vilas coloniais durante esse período.
Com base nas fortalezas construídas em
1763 (São Gabriel e São José de
Marabitanas), exploradores militares portugueses fizeram
exaustivas viagens pelos afluentes superiores do Negro,
uma região estratégica, por estar situada
na faixa de fronteira entre os impérios coloniais
de Portugal e Espanha, sobretudo após a assinatura,
em 1750, do Tratado de Madri.
Para os povos indígenas, esse período
significou o devassamento quase completo de seu território
pelos militares portugueses, e também o aumento
da depopulação das aldeias em decorrência
dos "descimentos", uma forma de escravidão
velada que levava os índios ao trabalho nas embarcações
e na agricultura. Essa política teve alto custo
para os portugueses, pois ocasionou muitas fugas e revoltas
de índios aldeados, havendo sempre a necessidade
de reposição de braços para a lavoura
de anil e mandioca e para o trabalho de coleta de cacau.
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