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As atividades dos missionários
recomeçaram em 1883 com a chegada de franciscanos
ao Uaupés. Os índios deviam consagrar
um dia da semana à construção
das casas para as autoridades religiosas e militares,
da Igreja e da cadeia. Os franciscanos tentaram
acabar com as atividades dos pajés locais
e passaram a controlar os regatões, que
somente podiam comerciar com os índios
com sua autorização.
Um desses franciscanos, Frei Illuminato
Coppi, é descrito pelas fontes hitóricas
como um homem violento, intolerante, não
hesitando em ridicularizar os costumes e as crenças
indígenas. Em várias ocasiões,
ele expôs à vista das mulheres e
das crianças as máscaras e os instrumentos
de música sagrados, que eram proibidos
de serem vistos por elas. Sua última provocação,
no dia 28 de outubro de 1883 em Ipanoré,
levou à revolta dos índios do local
e à expulsão dos missionários
franciscanos.
Depois da saída dos missionários,
os índios voltaram às suas malocas.
As atividades missionárias na região
somente recomeçaram em 1914, com a criação
da Prefeitura Apostólica do Rio Negro em
São Gabriel da Cachoeira e a chegada dos
salesianos. A congregação de Dom
Bosco se mostrou muito bem organizada, com objetivos
e estratégias claras e pessoal bem disposto,
bem preparados para as "dificuldades desta
missão apostólica".
As primeiras décadas da atuação
destes missionários foram marcadas por
um grande ímpeto e contundência.
Sem dúvida, significou uma redução
dos abusos dos patrões que até então
predominavam. Mas, por outro lado, os salesianos
também se serviram do estado de submissão
e de temor no qual se encontravam estes povos
para implementar seu projeto, supostamente "civilizador".
Demonstrando um profundo menosprezo pelas formas
de organização e pensamento dos
índios, procuraram desde o começo
dizimar as manifestações culturais
destes povos. Esta postura frente à cultura
indígena é facilmente observada
nas diversas publicações dos salesianos.
Os salesianos consideravam que só
lograriam penetrar na consciência dos adultos
e velhos
por meio de seus próprios filhos, depois
que estes tivessem sido formados numa educação
cristã e rigorosa. Desse modo, a vida das
crianças na Missão era marcada por
um rigor e disciplina extremos: os horários
de todas as atividades eram rígidos e deviam
ser obedecidos, a
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separação dos sexos era absoluta, era expressamente
proibido o uso dos idiomas indígenas, até
mesmo por aqueles recém-chegados que não
falavam uma só palavra do português. Os salesianos
também insistiram muito, e acabaram tendo êxito
em convencer os índios a abandonar suas malocas
e a se estabelecer em povoados compostos de casas separadas
para cada família, sob os pretextos de promiscuidade
sexual e falta de higiene. Desestimularam também
os índios a praticar os rituais de iniciação
masculina (rituais de jurupari). Empreenderam campanhas
de difamação e de ridicularização
das atividades dos pajés locais, proibiram o consumo
de bebidas alucinógenas, tiraram das malocas indígenas
enfeites e instrumentos de música cerimoniais.
De qualquer forma, em razão da sua instalação
permanente no Alto Rio Negro, e devido ao fato de constituírem,
neste período, a única infra-estrutura
de assistência aos índios, as missões
salesianas ampliaram pouco a pouco suas atividades,
passando a assumir, por um período, o controle
sanitário, da educação e do comércio
na região. Ajudaram a controlar a situação
de exploração dos índios, mas com
efeitos mínimos no Içana, onde sua presença
direta só ocorreu a partir dos anos 1950.
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O ano
de 1970 foi um marco importante para a história
recente da Amazônia brasileira. O governo
federal, então controlado pelos militares,
anunciou publicamente o Plano de Integração
Nacional (PIN), programa de obras de infra-estrutura
com o objetivo de integrar geopoliticamente a região
ao resto do país, com efeitos também
na região do Alto Rio Negro. Entre 1972 e
1975 |
seus primeiros efeitos apareceram, com a instalação
de postos da Funai e a chegada de militares do Batalhão
de Engenharia e Construção e trabalhadores
de empresas contratadas para a abertura da BR-307 (ligação
entre São Gabriel e Cucuí) e de um trecho
da rodovia Perimetral Norte (BR-210), hoje abandonada.
Em 1979, com o corte das verbas federais, os salesianos
decidiram desativar o sistema de internatos. O primeiro
a ser fechado foi o internato masculino da sede da missão
em São Gabriel da Cachoeira. Em 1984, um relatório
da missão salesiana registrava ainda 501 alunos
internos. Entre 1985 e 1987 foram fechados os internatos
de Iauareté, Taracuá, Pari-Cachoeira e
Assunção do Içana, assim como o
feminino de São Gabriel.
Em 1983, foi descoberto ouro na Serra do Traíra
por índios Tukano do Tiquié, dando início
a uma "febre" que se alastrou por vários
pontos da região por mais de uma década,
deslocando índios e atraindo, inicialmente, garimpeiros
de outras partes do país e moradores de São
Gabriel e, em seguida, empresas de mineração,
que invadiram a Serra do Traíra e a região
do Alto Içana.
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Os
impactos dessas mudanças se fizeram sentir,
por exemplo, no rápido crescimento da população
da cidade de São Gabriel da Cachoeira a qual
teria duplicado, passando para 4.500 habitantes,
segundo estimativas de agosto de 1985. O "inchaço"
de São Gabriel se deveu, em parte aos efeitos
colaterais da "febre" do ouro, mas também
ao fato de que, privadas dos |
internatos, muitas famílias tiveram que "abrir"
casas na cidade para abrigar seus filhos durante o ano
letivo. |