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Desde o início do século XIX, a região
do Rio Negro foi missionada pelo carmelita frei José
dos Santos Inocente (1832/52), pelo capuchinho frei Gregório
José Maria de Bene (1852/54) e por franciscanos
(1880/83), os quais tiveram forte participação,
juntamente com militares, na repressão aos índios
e na exploração de seu trabalho, principalmente
no extrativismo. Suas ações foram contemporâneas
à invasão de comerciantes, ditos regatões,
no Rio Negro, muitas vezes marcada pela violência,
quando se apresavam até mesmo meninos índios
para vendê-los a negociantes de Manaus e Belém,
como aponta o naturalista Alfred Russel Wallace (em 1853).
Durante os anos de 1835 a 1840, a maior rebelião
popular do Brasil, a Cabanagem, iniciada com a tomada
da cidade de Belém, chegou até o Rio Negro.
Isso levou a um processo de repressão aos revoltosos,
que foi concluído por volta de 1840. Após
esse período, o Comando Militar situado em Belém
enviou ao Alto Rio Negro uma tropa, com o objetivo de
reconstruir as fortalezas de São Gabriel e Marabitanas,
então em ruínas, cujo trabalho foi inteiramente
executado pelos índios. O Comando Militar também
criou na região a "Companhia de Trabalhadores",
para a qual foram convocados os "índios
ladinos", ou seja, aqueles que já sabiam
falar português. Esta retomada militar provocou
um recrudescimento das relações entre
brancos e índios na região, a partir de
1840-42.
Várias epidemias de varíola e
de sarampo devastaram, nesse século, extensas
partes do Rio Negro, provocando a fuga em massa dos
índios dos povoados e das vilas coloniais. Nesses
períodos de repetidas epidemias, as febres intermitentes,
por vezes caracterizadas como "malignas" ou
"perniciosas", contribuíram muito para
a alta mortalidade na região.
Em meados do século XIX, o governo da
recém-criada Província do Amazonas tentou
convencer os índios a deixarem de morar em regiões
recuadas e de difícil acesso para viver nos povoados
ou nas vilas situadas nas margens dos rios maiores e
procurou manter em Manaus um certo número de
índios para os trabalhos de construção,
o que levou a um esvaziamento de muitas comunidades
indígenas dos rios Uaupés, Içana
e Xié, cujas famílias eram levadas à
força para o Baixo e Médio Rio Negro.
Muitos índios foram envolvidos na extração
da salsaparilha e de borracha, que então se iniciava,
e submetidos a migração forçada,
transportados pelos comerciantes desde o Alto Uaupés,
para trabalharem, sendo esta a principal razão
da atual presença de significativa população
de descendentes seus no Médio e Baixo Rio Negro.
Em algumas ocasiões, os índios
se revoltaram contra este tipo de tratamento e efetuaram
expedições vingativas contra os brancos,
que não vacilavam em utilizar soldados ou mesmo
de índios de outras etnias da região para
reprimir as rebeliões.
Estas revoltas se expressavam também
através de movimentos religiosos. Na verdade,
há uma significativa tradição de
movimentos religiosos nesta região começando
a partir da metade do século XIX. Os líderes
desses movimentos elaboraram as mais variadas mensagens
e ideologias messiânicas, e organizavam rituais
e cerimônias expressando as esperanças
milenárias dos povos. Alguns dos líderes
da metade do século XIX, como o messias Baniwa
Venâncio Kamiko, ou Venâncio "Christu",
como veio a ser chamado, um pajé Baniwa muito
poderoso instalado no Rio Içana, pregavam a libertação
da opressão política e econômica
dos brancos.
Os movimentos se espalharam pela região
inteira e ameaçaram expulsar os brancos. Os militares
locais e da província reagiram a estes movimentos
na maioria das vezes com repressão e violência,
embora o governo provincial em 1858 mandasse uma comissão
oficial para tranqüilizar a situação.
A partir de 1880, um pajé Arapaso do Baixo Uaupés,
que se chamava Vicente Christu, começou a contar
que se comunicava com "Tupã" (Espírito
do Trovão que pertence ao panteão Tupi,
mas que foi introduzido pelos missionários junto
com a língua geral entre os índios do
Alto Rio Negro) e com os mortos. Pregava o fim da exploração
pelos patrões de borracha e sua expulsão
da região. Anunciava a chegada de missionários
que os protegeriam dos patrões, dos militares
e dos comerciantes. Proclamava ainda a chegada de uma
nova ordem social, na qual os índios seriam os
patrões e os brancos seus escravos. Houve vários
outros movimentos deste tipo na região no início
do século XX, alguns reprimidos com violência
pelos militares.
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