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O contato com os civilizados data do século
XVIII. Em 1728 registra-se uma grande invasão timbira
na localidade de Oeiras, então capital da capitania
do Piauí. Porém, já na segunda metade
do mesmo século não há mais notícia
de presença timbira a leste do rio Parnaíba.
Foram as fazendas de gado em expansão da Bahia
para o Piauí e daí para o Maranhão
que entraram em choque com eles, empurrando-os para oeste.
No norte do Maranhão, área florestal,
desenvolviam-se então as grandes plantações
de arroz e algodão. Essa atividade também
fazia pressão sobre os Timbira, porque necessitava
de escravos para as plantações e para
os descaroçadouros de algodão. Um outro
mercado de escravos era Belém, que se comunicava
com a região timbira por meio do rio Tocantins.
Favorecia a escravização dos Timbira uma
Carta Régia de 5 de setembro de 1811, que permitia
a escravidão temporária dos índios
do Tocantins e Araguaia que resistissem aos colonizadores.
Os índios eram combatidos por tropas constituídas
de civis e militares e ainda por índios cooptados,
como os Krahó. O conhecimento desse período
nos é dado principalmente pelas memórias
escritas pelo comandante militar Francisco de Paula
Ribeiro, que combatia os índios, mas não
aprovava as ciladas, promessas não cumpridas
e escravidão imposta àqueles que se mostravam
propensos a estabelecer relações pacíficas.
A conquista das terras timbira pelos brancos
se efetivou em sua maior extensão no primeiro
quartel do século XIX, dentro de um grande vácuo
jurídico, ou seja, entre a extinção
do Diretório dos Índios pombalino na última
década do século precedente e a primeira
disposição legal referente a índios
do Brasil independente, que somente ocorreu no Ato Adicional
que emendou a Constituição do Império
em 1834. Entre esses dois limites, apenas a retrógrada
Carta Régia de 1811, que permitia a escravidão
de índios hostis do Araguaia e Tocantins por
dez anos ou mais enquanto durasse sua "atrocidade".
Nada de concessões de léguas em quadra
pela Coroa Portuguesa; nada de aldeamentos criados pelo
governo, como se fazia no século XVIII.
As disposições levadas a efeito
no tempo do segundo imperador alcançaram de modo
muito diluído os Timbira e não impediram
que ficassem à mercê dos interesses dos
criadores de gado e comerciantes regionais: a retomada
das missões, sobretudo com capuchinhos italianos,
a partir de 1845; as diretorias provinciais dos índios;
as colônias militares. Na área florestal,
as exportações de algodão e arroz
do norte maranhense caíram, dando lugar a uma
época de estagnação, depois que
os Estados Unidos voltaram a produzi-los, ultrapassado
o período bélico que prejudicara o comércio
norte-americano (a guerra da independência, o
bloqueio continental napoleônico e a chamada segunda
guerra da independência).
Talvez não seja exagero dizer que, após
os grandes choques armados do começo do século
XIX, a história dos povos timbira é um
contínuo definhar que dura até meados
do século seguinte. Os remanescentes das diferentes
etnias que sobravam após massacres, epidemias,
expulsão da terra, iam engrossar a população
daquelas que não estavam, temporariamente, enfrentando
tais problemas, dando-lhes um reforço na manutenção
da cultura timbira.
É possível distinguir três
situações de contato com base na principal
atividade econômica regional: a) os que tiveram
contato com as fazendas que fazem criação
extensiva de gado, que dispensam a contribuição
de muitos trabalhadores, ficaram à margem da
atividade pecuária e não raro têm
sido os mais hostilizados por ocuparem terras necessárias
à expansão desses estabelecimentos e por
transformarem em alvo o gado que ocupou suas áreas
de caça. Mas, por outro lado, são os que
mais guardaram do modo de vida tradicional. Sem trabalho
que lhes produza um rendimento monetário que
lhes permita comprar artigos industrializados, tentam
consegui-los por meio das longas viagens às grandes
cidades. É o caso dos Apanyekrá, Krahó,
Pukobyê e Krinkati; b) aqueles que, habitando
a floresta, se viram diante de uma frente extrativa
de um produto de alto valor comercial, ao inserirem-se
nesta atividade, modificaram rapidamente sua cultura.
É o caso dos Parkatêjê, que, estabelecendo
contato pacífico com os brancos, coletores de
castanha-do-pará, somente por volta de 1955,
têm hoje sua cultura indígena muito mais
modificada do que os Timbira que estão há
quase dois séculos em contato com as fazendas
de gado; c) aqueles que puderam participar da extração
de um produto de valor comercial mediano, garantindo-lhes
um suprimento de artigos industrializados não
muito grande, mas constante, mantiveram boa parte de
suas tradições, mas não tanto como
os que estão ao lado da atividade pecuária;
é o caso dos Apinayé, que extraem o coco
babaçu, embora os Timbira das vizinhanças
do rio Gurupi que participam da extração
do óleo da copaíba estejam numa situação
diferente, e pouco conhecida.
Obviamente, esse é um modo de ver pautado
nas perspectivas etnológicas de meados do século
XX, quando se consideravam as mudanças nas culturas
indígenas de acordo com a frente econômica
que com elas fazia contato. Hoje é preciso levar
em conta outras formas de contato, como as grandes obras
de infra-estrutura que, no caso dos Timbira, afetaram
direta ou marginalmente sobretudo o noroeste florestal
da região em que vivem: a rodovia Belém-Brasília,
a ferrovia Serra de Carajás-Itaqui; a hidrelétrica
de Tucuruí; as linhas de transmissão de
energia; as grandes empresas agro-pecuárias.
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