 |
::01 |
 |
A cultura de cada povo timbira atual é tema
de seus respectivos verbetes. Aqui se apontará
simplesmente aquilo que têm em comum. As semelhanças
começam pela própria aparência que
dão ao corpo. O corte de cabelo é o mesmo
para ambos os sexos, longos, com um sulco em torno da
cabeça à altura da franja, interrompido,
menos para os Apinayé, na parte posterior. Os homens
trazem grandes batoques auriculares; os Gaviões
do Oeste furavam também o lábio inferior.
As jovens, sem filhos, tinham um cinto de vários
cordéis de tucum. Entre a maneira de se apresentar
do período pré-contato e as tendências
atuais de cada vez mais adotarem o vestuário dos
civilizados, os Timbira do cerrado mantiveram uma indumentária
feita com artigos dos civilizados, mas com características
próprias: os homens escondiam o sexo com um retângulo
de tecido preso a um cinto de couro ou um cordel; às
vezes, ao viajar, faziam a tanga com a parte superior
das calças, que eram amarradas às cintura
com as pernas; vestiam-nas normalmente só quando
se aproximavam de locais habitados por civilizados. As
mulheres se cobriam da cintura aos joelhos com uma peça
de pano, que tinham o cuidado de embainhar com agulha
e linha; no pescoço, várias voltas (podiam
chegar a trinta) de miçangas, guarnecidas com um
feixe de medalhas católicas (chamadas de "verônicas").
Esses vestuário era usado sem prejuízo da
pintura de corpo.
Também assemelham-se na cultura material.
Usam cabaças como recipientes para água
e alimentos, em lugar de cerâmica. Dormem em estrados
forrados com esteiras, em lugar de redes de dormir.
Fazem uma profusão de artefatos feitos de palha
trançada: cestos, esteiras, faixas. Assam bolos
de mandioca e carne, envolvidos em folhas de bananeira
brava, sob pedras previamente aquecidas. Água
ou caldos também podem ser posto a ferver quando
colocados em cabaças ou capembas, mergulhando-se
no líquido pedras aquecidas. Hoje, o uso de pedras
aquecidas é mais freqüente no preparo de
bolos para os ritos; para a alimentação
cotidiana se usam panelas de ferro. Não há
vestígios de como seriam as casas antes do contato
com os brancos. As de hoje, de origem sertaneja, são
retangulares, com teto de duas águas coberto
de folhas de palmeira. As paredes, de troncos verticais
entremeados com palha, tendem casa vez mais a serem
substituídas por barrote. Geralmente faltam as
divisões internas da casa sertaneja, assim como
as janelas.
Nas aldeias timbira, as casas se dispõem
uma ao lado da outra, ao longo de um largo caminho,
de modo a formar um grande círculo. De cada casa
sai um caminho, mais estreito, em direção
ao centro, onde está o pátio. Este, ao
contrário do que acontece com aldeias de outros
povos jê, não tem casa-dos-homens ou qualquer
outra construção. Isso não impede
os rapazes de dormirem nele ao relento quando não
chove. O pátio é o local das reuniões
masculinas, ao amanhecer e ao anoitecer. Nele as mulheres
cantam dispostas em fila, ombro a ombro, conduzidas
por um cantor que agita o maracá.
O casamento, monogâmico, implica na transferência
do marido para casa onde vive a mulher. A união
se torna estável depois do nascimento do primeiro
filho. Mas há ampla liberdade sexual para solteiros
e casados. Casas contíguas oriundas do desdobramento
de uma casa anterior são, por força da
regra de residência pós-marital, relacionadas
entre si por linha feminina e formam uma unidade social.
As pessoas nascidas num mesmo segmento de casas desse
tipo não casam entre si. Tais segmentos são,
pois, exogâmicos.
Dentro do espaço da aldeia, as direções
têm significado. É preciso estar atento
para oposições como centro/periferia,
leste/oeste, alto/baixo e outras para se chegar a ter
algum entendimento dos vários ritos que aí
se realizam. Há ritos relacionados ao ciclo de
vida dos indivíduos, os relativos ao ciclo anual
e ainda os associados a um ciclo mais longo, de iniciação.
Desses ritos fazem parte as corridas de revezamento,
em que cada uma das duas equipes que as disputam carrega
uma seção de tronco de buriti (ou de outro
vegetal). O formato das toras (longas ou curtas, maciças
ou ocas, cavadas ou com cabos), seu tamanho e seus ornamentos
variam conforme o rito em realização.
Para essas disputas, mas não somente
para elas, cada povo timbira se divide em duas partes,
ditas metades. O mesmo povo pode dividir-se em distintos
pares de metades, cada qual com seu critério
de afiliação: nome pessoal, faixa de idade,
livre escolha, mas, ao que parece, em nenhum caso descendência
unilinear.
O nome pessoal, além de critério
importante para afiliação a metades, também
está associado a certos papéis rituais,
que são herdados com ele. O nome masculino é
transmitido por parentes de uma categoria que inclui
o tio materno, o avô materno e o avô paterno
entre outros; o nome feminino, pela categoria de parentas
que inclui a tia paterna, a avó paterna e a avó
materna, entre outras.
Essa identificação pelo nome,
de caráter mais ritual, se contrapõe a
uma outra que associa parentes geralmente integrantes
da mesma família elementar. Trata-se das evitações
alimentares, sexuais ou de outros tipos de comportamento
que devem ser respeitadas quando um filho ou filha,
pai ou mãe, irmão ou irmã de um
indivíduo passam por um período de crise,
como os primeiros dias de vida, uma enfermidade, a picada
de um animal peçonhento, baseadas na crença
de que o que afeta a um também afetará
o outro. Esses laços costumam ser chamados "de
substância" nos livros de etnologia.
Os termos de parentesco classificam filhos dos
tios de sexos opostos aos dos pais com parentes de outras
gerações. A aplicação dos
termos aos parentes distantes pode afastar-se do padrão
quando envolve portadores do mesmo nome pessoal, parentes
para com os quais se mudou de atitude, amigos formais.
Quanto a esses últimos, vale esclarecer podem
ser de dois tipos: aqueles unidos por uma amizade mais
espontânea, que os faz iguais, como se fossem
irmãos; e os ligados por um laço mais
rígido, marcado simultaneamente por uma solidariedade
exagerada e pela evitação, que os faz
como contrários.
Seus grupos locais se relacionam pela chefia
honorária, constituída pela aclamação
de um morador de uma aldeia pelos de outra, da mesma
ou de outra etnia, estabelecendo uma relação
de paz e amizade, e proporcionando hospedagem de uns
na aldeia dos outros.
Seus mitos, que estão referidos nos verbetes
específicos de cada etnia timbira, são
na grande maioria os mesmos, com pequenas variações:
Sol e Lua e a criação dos seres humanos,
do trabalho, da morte, da menstruação,
dos animais importunos e peçonhentos; a Mulher-Estrela,
que ensina o uso dos vegetais cultiváveis; a
luta contra o grande gavião e a grande coruja
e a origem do rito de iniciação Pembyê;
a assunção de um homem aos céus
pelos urubus, de onde traz o conhecimento do xamanismo
e do rito de iniciação Pembkahëk;
o conhecimento do uso do fogo, que foi tomado das onças;
a transformação de alguns seres humanos
em monstros, como o Perna-de-Lança; o surgimento
do homem branco pela exclusão de um membro anômalo
do seio da sociedade indígena. É constante,
pois, nessa mitologia a passagem de conhecimentos de
fora para dentro da sociedade e de certos seres no sentido
contrário. Além dos mitos, os diferentes
povos timbira fazem narrativas de caráter mais
histórico, geralmente episódios de conflito
e guerra.
|