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Já se disse da distinção
entre os Timbiras Orientais e Ocidentais. Curt Nimuendajú,
com base em diferenças dialetais, que correspondem
também a uma distribuição geográfica,
classificou os primeiros em dois conjuntos, um ao norte
e outro ao sul.
Os Timbira Orientais do norte são aqueles
que viviam nos
cursos inferiores dos rios Mearim e Pindaré, no
Maranhão. No Mearim eram os Krenyê de Bacabal
(núcleo urbano junto ao qual estavam), os Kukoikateyê
e, possivelmente, os "Pobzé". Quanto
aos do baixo Pindaré, as fontes não lhes
deixaram os nomes. Os Krenyê de Bacabal e os "Pobzé"
começaram a apresentar-se pacificamente diante
dos moradores dessa localidade em meados do século
XIX, de modo que o governo criou a colônia de Leopoldina
(no médio Grajaú) para eles e para os Kukoikakateyê.
Aí, em 1855, foram afligidos por uma febre epidêmica,
que matou muitos e fez outros fugirem. Em 1862 ainda havia
em Leopoldina 336 Timbira do Mearim, dos quais 87 eram
Krenyê, 158 eram Kukoikateyê e 91 eram "Pobzé".
Em 1919 os Krenyê moravam em Cajueiro, em número
de 43, enquanto os Kukoikateyê, em número
de 30, moravam no local chamado Santo Antônio. Quando
o etnólogo Curt Nimuendaju escrevia seu livro The
Eastern Timbira, publicado em 1946, os Krenyê e
os Kukoikateyê ainda moravam em localidades próximas,
na floresta, a certa distância da margem direita
do baixo Grajaú; quanto aos "Pobzé",
ele os dava por extintos. Destes três povos há
atualmente apenas representantes dos Kukoikateyê,
que vivem na Terra Indígena Geralda/Toco Preto,
cortada pelo rio Grajaú, no município de
mesmo nome, junto com índios Guajajara. Os dados
sobre a população dessa terra indígena
dão 72 habitantes para o ano de 1990, sem distinguir
uma etnia da outra.
Por sua vez, os grupos timbira do baixo Pindaré,
a partir de meados do século XIX, começaram
a migrar para oeste. Em 1862 havia de 100 a 150 desses
migrantes no rio Gurupi, que separa o Maranhão
do Pará. Explorados por um civilizado, afastaram-se
deste rio, mas a ele retornaram em 1889, reincidindo
na situação de viver sob a influência
de um outro civilizado. Em 1900, receberam mais migrantes
timbira do Pindaré, que tinham sobrevivido a
um ataque dos Guajajára
ajudados por seringueiros. Sofreram um ataque dos Kaapór
em 1903, depois um surto de sarampo, até se fixarem
no Araparitíua, um afluente da margem paraense
do rio Gurupi. Curt Nimuendajú aí os visitou
em 1914-1915, contando 41 indivíduos. Ainda chegou
a ver restos das máscaras que haviam usado num
rito realizado antes de sua visita, no qual também
fizeram corridas de toras. Entretanto, tinham abandonado
o cultivo da terra para dedicarem-se à extração
do óleo de copaíba, trabalhar para seringueiros
ou prestar serviços de remadores. Em 1919 eram
43. Esses Timbira do Araparitíua, como Nimuendajú
os denominou, foram transferidos posteriormente para
Posto Felipe Camarão, junto à foz do rio
Jararaca, afluente da margem maranhense do mesmo Gurupi,
mais ao norte, destinado aos índios Tembé,
ficando reduzidos a uns poucos sobreviventes.
O conjunto dos Timbira Orientais do sul, inclui
os Krenyê do Cajuapara, os Krinkati, os Pukobyê,
os Gaviões Ocidentais, os Krepumkateyê,
os Krorekamekrá, os Põrekamekrá,
que no início do século XIX ficavam entre
o Mearim e o Tocantins, e os Krahó, Kenkateyê,
Apanyekrá, Canela e Txokamekrá, que na
mesma época ficavam entre o Mearim e o Itapicuru.
Os Krenyê do Cajuapara viviam anteriormente
na faixa entre o Mearim e o Tocantins; em meados do
século XIX, tinham duas aldeias próximo
à colônia militar Santa Tereza, hoje Imperatriz,
com uma população acima de duzentas pessoas,
e entre eles atuava um missionário carmelita.
Em 1872, já estavam nas cabeceiras do rio Cajuapara,
um formador maranhense do Gurupi, numa aldeia de 400
a 500 habitantes. Contavam que tinham emigrado das vizinhanças
de Imperatriz porque, na ausência dos homens,
sua aldeia fora atacada por moradores do sertão,
que raptaram muitas crianças indígenas.
Em represália, eles queimaram uma fazenda vizinha,
matando sete pessoas, e daí saíram, temendo
a vingança dos sertanejos. Nimuendajú
visitou-os no Cajuapara em 1914-1915, onde tinham uma
aldeia de cerca de cem habitantes. Em 1919, a população
tinha caído para 65. Pouco depois o SPI os transferiu
mais para o norte, para o Posto Felipe Camarão,
na foz do rio Jararaca, um outro afluente da margem
maranhense do rio Gurupi. Reduziram-se, então,
a uns poucos sobreviventes.
Por conseguinte, tanto os Krenyê de Cajuapara
(oriundos do médio Tocantins) quanto os Timbira
do Araparitíua (oriundos do baixo Pindaré)
convergiram para o mesmo local, o Posto Felipe Camarão.
Darcy Ribeiro, que subiu o rio Gurupi nos anos 1949-1950,
dá notícia, nos seus Diários Índios
(1996, pp. 84-85, 87, 93, 166-168, 196-200) da presença
desses Timbira, sem mais distinguir suas diferentes
origens. Eram ao todo 23 indivíduos, que moravam
no Posto Felipe Camarão, na aldeia de Sordado
(ao que parece de uma só casa) acima desse posto,
e, mais abaixo, no Posto Pedro Dantas, o local onde
se fez o primeiro contato com os Kaapor. Alguns eram
casados com não-Timbira, índios ou não.
Ribeiro reuniu todos num mesma esquema genealógico,
e colheu de seu líder a terminologia de parentesco
e alguns mitos (um deles, o dos gêmeos, dos Tembé).
Esse líder, que sabia falar as línguas
portuguesa, tembé e kaapor, e era o que mais
conhecia a língua timbira, não tinha muita
segurança na pronúncia das palavras desta
última. Em suma, os índios atualmente
conhecidos como Krenyê, que vivem na Terra Indígena
do Alto Guamá, no município paraense de
Paragominas, descendem dos Timbira do Gurupi que Darcy
Ribeiro conheceu. Dados relativos ao ano de 1990 indicam
uma população de 813 indivíduos
para essa terra indígena, habitada por Tembé,
Kaapor, Guajá, Munduruku e Krenyê, mas
não especificam os números por etnia.
Os Põrekamekrá, no início
do século XIX, tinham duas aldeias entre o alto
Grajaú e o rio Farinha, um pequeno afluente do
rio Tocantins ao norte de Carolina. Uma delas fez a
paz com os brancos e compareceu a Carolina (então
São Pedro de Alcântara), conduzida por
seu chefe "Cocrît", trazendo galhos
verdes em sinal de paz. Meses mais tarde a aldeia transferiu-se
para perto desta vila, mas seu chefe foi aprisionado
e seus seguidores sofreram nas mãos dos brancos
tantos abusos que parte deles se refugiou junto aos
Krahó (migrados da bacia do rio Balsas, afluente
do Parnaíba, para o rio Farinha). A outra aldeia
foi assaltada por um expedição de São
Pedro de Alcântara, ajudada pelos Krahó.
Os assediados, persuadidos por falsas promessas transmitidas
pelo referido chefe "Cocrît", apresentaram-se
diante da expedição em número de
364, sendo ali mesmo atacados, uns mortos, outros aprisionados,
enquanto alguns fugiam. Dos 164 aprisionados, 130 foram
embarcados para serem vendidos no Pará. Junto
com esta segunda aldeia dos Põrekamekhrá
foram atacados também os Põkateyê.
Retirando-se os segmentos finais dos dois nomes, kamekrá
e kateyê, comuns nos etnônimos timbira,
e considerando-se o re como diminutivo, todos os dois
nomes são constituídos por põ.
Mas Curt Nimuendajú lhes dá traduções
diferentes: enquanto põre, do primeiro etnônimo,
seria o nome da coruja caburé, põ, do
segundo, significaria campo (cerrado). De qualquer modo,
faltam outras informações sobre os Põkateyê.
Os Krorekamekrá (krore = caititu) também
viviam na região de Carolina e eram inimigos
dos Krahó. Curt Nimuendajú ainda viu uns
poucos descendentes deles na aldeia dos Canelas.
Os Krepumkateyê (Krepum = nome próprio
de um lago; seria referência a um lugar onde as
emas põem, pum, ovos, kre) viviam próximo
ao local anteriormente ocupado pelos "Caracategé",
no rio Grajaú, sendo provavelmente descendentes
deles. Ajudaram a perseguir os Guajajara
após o episódio de Alto Alegre, em que
morreram missionários capuchinhos, em 1901. Em
1919, Nimuendajú os encontrou em decadência,
sem terra e na dependência de um fazendeiro. Esse
etnólogo conjectura que os poucos Karenkateyê
(karen = lodo) que encontrou na aldeia dos Canelas poderiam
ser "Caracategé", com base na semelhança
dos nomes e na posição, segundo a rosa-dos-ventos,
que eles ocupavam na praça central da aldeia.
Faz, com menos convicção, uma suposição
alternativa: a de que seriam "Canacategé",
que moravam no rio Farinha, afluente do Tocantins. Estes,
no começo do século XIX, apesar de pedirem
paz, foram atacados por uma expedição
de Carolina apoiada pelos Krahó, sendo parte
escravizados para serem vendidos no Pará e os
outros dispersados.
Por conseguinte, todos os Timbira da faixa entre
o Mearim e o Tocantins daí de deslocaram ou foram
dispersados ou aniquilados, com exceção
dos Pukobyê e dos Krinkati. Mesmo esses dois se
viram em dificuldades. É bastante provável
que os Gaviões do Oeste, que habitam a floresta
junto ao rio Tocantins, no Pará, seriam uma facção
dos Pukobyê que deles se separou no século
passado, recusando-se ao contato com os colonizadores.
Os Krinkati, por sua vez, viram-se de tal modo reduzidos
em sua terras, que chegaram a dispersar no início
do século XX, e durante alguns anos não
tiveram aldeias; entretanto, conseguiram novamente erigi-las.
Dos Timbira que ficavam a leste do Mearim, os
Krahó foram os que sofreram maior deslocamento.
No início do século XIX viviam próximo
ao rio Balsas, afluente do Parnaíba. Afastados
daí pelo avanço da frente pecuarista,
deslocaram-se para junto do rio Farinha, um afluente
do Tocantins, onde, cooptados por fazendeiros e por
um comerciante que tinha base em Carolina, ajudaram-nos
a combater os Timbira da faixa entre o Mearim e o Tocantins.
Em meados do mesmo século, foram transferidos
mais para o sul por um missionário capuchinho
para terras hoje no Estado do Tocantins.
Dois povos Timbira da faixa entre o Mearim e o Itapicuru
desapareceram como grupos autônomos. Um deles
foi os Txokamekrá (txó = raposa), também
conhecidos como Mateiros, que viviam entre a margem
direita do Mearim e a esquerda do rio Itapicuru, de
Caxias para o sul, nucleados ao longo do rio das Flores,
afluente do primeiro. Sofreram uma derrota dos brancos
no fim do século XVIII. Foram surpreendidos por
uma outra expedição em 1815. Refugiaram-se
no alto de uma serra. Os que daí desceram desarmados,
enganados por propostas de paz, aliança contra
seus inimigos e promessas de ferramentas, foram aprisionados
e vendidos em leilão na praça de Caxias.
Em 1818 revidaram, aceitando os presentes de uma expedição,
mas depois matando os expedicionários que desciam
com eles para Caxias, a fim de estabelecer um acordo.
Em 1847 ainda se registrava a existência de duas
aldeias suas. Passaram por uma epidemia em 1855. Inimigos
dos Ramkokamekrá, que chegaram a ajudar os brancos
contra eles, acabaram por fundir-se com eles ainda no
século XIX. Doenças os levaram a separar-se
deles. Porém, cada vez mais acossados pelos sertanejos,
voltaram a se juntar aos Ramkokamekhrá por volta
do início do século XX. Nimuendaju, que
pesquisou entre estes últimos em 1929-1936, foi
aí adotado por uma família Txokamekrá.
O mesmo aconteceu com etnólogo William Crocker,
que iniciou suas pesquisas com os Canela nos anos 1950.
Também desapareceram os Kenkateyê
em 1913, num massacre traiçoeiro promovido por
um fazendeiro. Viviam nas cabeceiras do Alpercatas,
afluente do Itapicuru. Os poucos que escaparam ao massacre
procuraram refúgio sobretudo entre os povos que
parecem ter-lhes dado origem, em meados do século
XIX: os Apanyekrá e os Krahó.
Desta faixa, portanto, restaram os Krahó,
os Canelas e os Apanyekrá, em cujas aldeias foram
abrigados descendentes de outros Timbira que se dispersaram.
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