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Junto com seus vizinhos aruak, os Tukano - que
serão tratados nesta seção como
povos tukano, de modo que o grupo Tukano será
diferenciado com letra inicial maiúscula- compõem
um sistema sócio-político flexível,
cuja integração se dá através
de redes de intercâmbio recíproco envolvendo
visitas, trocas, casamentos e rituais. A dinâmica
desse sistema regional implica a articulação
entre semelhança e diferença, entre um
repertório comum que confere aos grupos que o
compõem alguma medida de identidade e aquilo
que os diferenciam uns dos outros, possibilitando a
interdependência entre eles. Comecemos com as
semelhanças.
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Os Tukano compartilham uma área geográfica
contínua e um mesmo modo de vida básico,
que inclui a caça e coleta, mas no qual predomina
a pesca e a agricultura de coivara, sendo a "mandioca
brava" o principal produto. No passado, todos moravam
em casas comunais (ou malocas) de estilo relativamente
uniforme: uma grande construção retangular
com teto maciço de forma triangular e portas
em cada ponta. Falam línguas muito próximas
no que diz respeito à gramática e ao vocabulário.
Também compartilham convenções
sobre o uso dessas línguas: a maioria fala pelo
menos duas línguas e freqüentemente compreende
outras, privilegiando a língua paterna nas conversas
cotidianas. Esses povos têm ainda estilos de ornamentação
corporal semelhantes e, embora as palavras e melodias
possam ser diferentes, usam os mesmos instrumentos musicais
e a sua música, danças e cantos têm
uma base comum. Tais convenções relativas
ao modo-de-vida, organização espacial,
língua, fala, adornos, música e dança
integram o sistema comum de comunicação
verbal e não-verbal dos povos do Uaupés,
que se expressa mais plenamente nos rituais inter-comunitários.
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Cada grupo tem as suas próprias histórias,
mas também compartilham um corpus mitológico
comum. Os mitos explicam as origens do cosmos, descrevendo
um mundo perigoso e indiferenciado, sem limites precisos
de tempo e espaço, sem diferença entre
gente e animal. As narrativas míticas explicam
como os feitos dos primeiros seres geraram as feições
da paisagem e como o mundo se tornou paulatinamente
seguro para a emergência dos verdadeiros seres
humanos. Há um mito de origem chave nesse repertório
que explica como uma Anaconda-ancestral penetrou o universo/casa
através da "porta da água" no
leste e subiu os rios Negro e Uaupés com os ancestrais
de toda humanidade dentro de seu corpo. Inicialmente,
esses ancestrais-espíritos tiveram a forma de
ornamentos de pena, mas foram transformados em seres
humanos no curso da sua viagem. Quando alcançaram
a cachoeira de Ipanoré, o centro do universo,
eles emergiram de um buraco nas rochas e se deslocaram
para os seus respectivos territórios. Essas narrativas
compartilhadas entre os povos do Uaupés expressam
uma compreensão comum do cosmos, do lugar dos
seres humanos nele e das relações que
deveriam existir entre diferentes povos, bem como entre
eles e outros seres.
Em contrapartida, cada grupo tem uma identidade
singular e um lugar específico dentro do sistema.
A população divide-se em aproximadamente
17 grupos exogâmicos, cada qual com direitos sobre
um território específico ou trecho de
rio com características e potenciais diferentes.
Somado a esses fatores ecológicos de diferenciação,
cada grupo é tradicionalmente associado à
produção de artefatos específicos;
assim, os Tukano fabricam banquinhos, os Desana cestos,
os Tuyuka canoas etc. Essa produção especializada
constitui um aspecto da identidade grupal e mobiliza
os cerimoniais de troca (ou dabukuris) que são
um dos principais componentes das atividades rituais
características da região. Em tais festas,
os diferentes grupos se reúnem para dançar,
beber caxiri, exibir os seus ornamentos de penas, recitar
as linhagens de seus antepassados e trocar os seus produtos
(banquinhos por canoas, peixe por carne de caça
etc.).
Cada grupo tem a sua própria língua,
o seu conjunto particular de nomes pessoais, os seus
específicos cantos de dança e as suas
próprias genealogias e narrativas de origem.
Cada um tem um ancestral originário da Anaconda
que trouxe o povo para o seu território particular.
O corpo dessa Anaconda é replicado no trecho
do rio onde esse grupo mora, nas malocas em que habitam
e na composição dos grupos. A língua,
os nomes próprios, os cantos, as histórias
e outras formas de discurso operam como emblemas de
identidade, afirmam direitos territoriais e privilégios
rituais, assim como manifestam aspectos da vida, alma
e espírito do grupo.
Cada grupo também possui um ou mais conjuntos
de Yurupari - flautas e trombetes sagrados feitos
do tronco da palmeira paxiúba -, que são
os ossos de seu ancestral e que incorporam o seu sopro
e canto. Junto com as festas e trocas cerimoniais, os
rituais envolvendo esses instrumentos musicais - símbolos
condensados da identidade, espírito e poder grupal
- formam o outro grande componente da vida ritual dos
Tukano. Enquanto a troca cerimonial enfatiza a equivalência
e interdependência mútua entre grupos diferentes,
os rituais de Yurupari realçam a identidade
singular de cada um.
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