A história de contato dos povos do Uaupés
com os não indígenas é muita antiga,
bem anterior ao grande auge da borracha na virada do
século XX, remetendo às incursões
maciças dos portugueses em busca de escravos
na primeira metade do século XVIII. Embora o
impacto desses raptores e o contato traumático
e duradouro com os seringalistas, esses comerciantes
estavam mais interessados nos corpos dos índios
do que nas suas almas; em termos religiosos, e talvez
em termos sociais também, foram os missionários
que provocaram as maiores transformações.
A penetração efetiva dos missionários
começou ao final do século XIX, com a
chegada dos Franciscanos. Estes, e os Salesianos que
os seguiram, viram a cultura dos povos do Uaupés
através das lentes de suas próprias categorias
religiosas: as malocas dos índios eram consideradas
"antros licenciosos e promíscuos",
as suas festas de dança ocasiões de "indecência
e embriaguez", os pajés eram "charlatões"
que aliciavam o povo, e o culto de Yurupari nada
mais era do que o "culto ao Diabo" em pessoa.
Sem conhecer e sem a mínima intenção
de saber o quê essas coisas realmente significavam,
os missionários começaram a destruir uma
civilização em nome de outra, queimando
as malocas dos índios, destruindo os seus ornamentos
de penas, quebrando seus recipientes de caxiri, perseguindo
os pajés e expondo os Yurupari às
mulheres e crianças reunidas na igreja.
Enquanto os padres atacavam os fundamentos da
cultura indígena, transformaram as suas sociedades,
encurralando as pessoas em vilas com casas rigidamente
ordenadas, uma para cada família, e removendo
à força seus filhos para serem educados
nas escolas ou internatos. Sob o regime estrito dos
internatos, as crianças foram ensinadas a rejeitar
os valores e os modos de vida dos seus pais, incentivadas
a casar-se dentro de seus próprios grupos, e
proibidas de falar as línguas que lhes conferiam
identidades múltiplas e interligadas. Para os
missionários, somente uma identidade importava,
a identidade indígena genérica, que impedia
o progresso da "civilização".
Como reação inicial contra a exploração
pelos comerciantes, as pressões dos missionários
e as epidemias que dizimaram a população
indígena, irrompeu uma série de movimentos
milenaristas na região do Uaupés durante
a segunda metade do século XIX. Vestindo-se de
padres e identificando-se com Cristo e os santos, os
pajés-profetas conduziram o povo na "Dança
da Cruz", uma fusão dos rituais de caxiri
e dabukuri tradicionais com elementos do catolicismo,
que prometiam a libertação da opressão
dos brancos e o alívio dos "pecados"
que acreditavam ser a causa das epidemias.
Se os missionários foram rechaçados
por seus ataques contra a cultura indígena, também
foram bem recebidos como fonte de bens manufaturados,
como defensores dos índios contra os piores abusos
dos seringalistas e como provedores da educação
que as crianças indígenas precisariam
para se sair bem nas novas circunstâncias. Dos
anos 1920 em diante, os Salesianos estabeleceram uma
cadeia de missões pela região no lado
brasileiro da fronteira, alcançando o alto Tiquié
no começo dos anos 40 e destruindo a última
maloca nos anos 60. Hoje, a despeito do número
crescente de evangélicos, a maioria dos índios
do Uaupés se considera católico. Enquanto
aumenta cada vez mais o número de pessoas que
estão deixando suas aldeias para ir a São
Gabriel em busca de educação e emprego,
a vida nas malocas e a rica diversidade ritual que a
acompanhava persiste agora somente na memória
dos mais velhos.
Nos povoados, um centro comunitário substituiu
a maloca como foco de atividades coletivas. O centro
serve ao mesmo tempo para as orações matutinas
conduzidas por um Capitão e catequista, e para
as refeições comunitárias, caxiris
e dabukuris que marcam eventos importantes nas vidas
dos aldeões: expedições de pesca,
trabalho coletivo em projetos comunitários, os
dias de santo do calendário católico,
formaturas escolares, eventos esportivos, reuniões
políticas etc. Transformações das
antigas festas, esses caxiris e dabukuris de hoje em
dia ainda incluem danças e bebidas - mas as danças
não são mais acompanhadas pela música
nativa e as flautas de pã, mas sim pelo forró
e, ao invés da relativa moderação
do passado, a cachaça é livremente consumida
e seu freqüentemente consumo leva a discussões
e brigas. Com níveis crescentes de alcoolismo,
a embriaguez que os missionários imaginavam ver
nas festas tradicionais hoje tem se tornado uma realidade
cruel da civilização que os missionários
trouxeram consigo.
No lado colombiano, sob o regime dos Monfortianos,
o policiamento e a inserção dos missionários
foram muito parecidos às dos Salesianos mas,
no final dos anos 50, os Monfortianos foram substituídos
pelos mais liberais Javerianos. Estes eram identificados
com a nova Teologia da Libertação, que
pregava a tolerância com a cultura indígena
e acomodação com seus valores e crenças;
isto, junto com o isolamento da região, explica
porque os habitantes do Pira-Paraná ainda conseguem
conservar boa parte da sua religião tradicional
e do seu modo de vida. No lado brasileiro, a mudança
foi mais lenta, mas, depois que a os Salesianos foram
denunciados no Tribunal Russell em 1980 pelo crime de
etnocídio, eles finalmente começaram a
adotar uma linha mais liberal e progressista.
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